Uma página nova

Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia (...)
ou como o caderno novo
quando a gente o principia

(João Cabral de Melo Neto)

O terror da página em branco acompanha como sombra o destino de quem escreve.
O poeta Mallarmé evoca a claridade deserta de um candeeiro a iluminar a página vazia que a própria brancura defende. Há algo de profano e violentador no gesto de romper essa brancura lisa, do papel ou da tela do computador, para sobre ela inscrever a precária marca de palavras. Mas também há a alegria de olhar o "caderno novo quando a gente o principia" e sentir o infinito da promessa nas próprias mãos. Escrever é sempre aventurar-se no vazio.

Nós gostaríamos que o ano novo fosse assim um caderno vazio à espera dos nossos desejos e à medida da nossa invenção. Necessitamos todos de acreditar que podemos refazer a nossa vida. Deixar atrás de nós o velho homem do passado, como diz São Paulo, fazer do passado tábua rasa, como canta A Internacional. A promessa de renovação, que vemos medrar na natureza e não em nós ("e tudo o mais renova, isto é sem cura", lamenta Sá de Miranda), é o apelo mais forte do nosso apego à vida.

Festejar a passagem do ano (o que nós neste ano não pudemos fazer) é dar lugar e brilho à grande promessa do novo, é exprimir com força a alegria do que pode acontecer, é declinar em voz bem alta a nossa inalienável esperança.

Mas este caderno que temos na nossa frente com o número 2021 na capa não tem as páginas vazias numa brancura lisa: as páginas deste caderno estão antes cheias com as dores e os agravos do mundo, estão atravessadas pelos nossos medos e desbotadas pela injustiça, são páginas onde é ainda mais difícil escrever, mas de que não podemos de forma nenhuma abdicar.

Que promessas de um novo acontecer encerra esta experiência do mundo que atravessamos, tão solitária, tão confinada e desconfiada? Poderá uma vez mais o "duro desejo de durar" (Éluard) ensinar-nos a sobrevivência?

Hoje publico estas palavras num jornal renascido, que recuperou a sua aparição diária no papel. Se eu fosse seguidor da filosofia de Groucho Marx diria que nunca leria um jornal que me aceitasse como seu colaborador. Mas eu, que sou marxista de outra tendência, direi antes da alegria que sinto por ver reaparecer todos os dias nas bancas dos jornais o Diário de Notícias.

Escrever regularmente para um jornal pode trazer consigo a angústia da página vazia no limite do prazo, aquela que Eça imortalizou, num trecho da sua polémica com Pinheiro Chagas, através da imagem forte das botas a ranger do moço da tipografia:

"Na véspera tem-se dito ao diretor do jornal, apertando-lhe ferventemente a mão e com a voz a tremer:

-Palavra de honra, menino. Pela minha vida, que tens lá o artigo além de amanhã, às nove horas. Eu sou incapaz de te comprometer! Juro-te, pela alma dos meus filhos... Boa noite. Lá o tens.

Depois, naturalmente, como você sabe, não se pensa mais no artigo. Mas, cruel destino! No dia aprazado lá toca a campainha, lá chega fatal, implacável, irrevogável - o moço da tipografia!

É horroroso. Sobretudo quando ele usa botas que rangem! Fica à espera, passeando no pátio ou no corredor: e aquele lento gemer de solas tristes, cadenciado e acusador, alucina!"

Pela minha parte, longe o tempo dos moços das tipografias, apenas espero para os textos que saiam da tela vazia do meu computador o mais, exigente e crítico olhar dos seus
leitores.

Diplomata e Escritor

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