No cantinho da caixa…

Não há relatos bíblicos que confirmem os nomes de Gaspar, Belchior e Baltazar, portadores de ouro, incenso e mirra para ofertar ao Menino, mas todo o mundo cristão sabe que devemos aos Magos a tradição de trocar presentes - uns no Natal, outros no dia que lhes foi consagrado, o Dia de Reis, que amanhã assinalamos.

A nós, enfim, não se pode ter tudo, o mago que nos calhou não vem do Oriente, mas de Bruxelas: Charles Michel, o belga que preside ao Conselho Europeu, chega hoje mesmo e, não trazendo tal fortuna simbólica, vem a Lisboa para a abertura da presidência portuguesa da União Europeia. Por 171 dias, Portugal assume essa responsabilidade em plena pandemia, que determinou a criação de um fundo europeu de 750 mil milhões de euros, batizado de bazuca e destinado à recuperação económica dos Estados membros. É nesse registo que enfrentamos o novo ano, porque o velho, esse, não deixa saudades.

"Vamos ter a possibilidade de investir, por ano, o dobro do que investimos na média dos melhores anos desde que aderimos à União Europeia".

2020 foi como, por castigo, se se tivessem abatido sobre a humanidade todos os males que se evadiram daquela caixa de uma outra lenda, a de Pandora, ainda mais antiga do que a dos Magos. Bem podia Prometeu, que temia a vingança do Olimpo, implorar a seu irmão Epimeteu que jamais aceitasse um presente dos deuses. Só que estes criaram Pandora, a primeira mulher, feita à semelhança das deusas imortais. De um recebeu a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão e a inteligência..., virtudes a que Epimeteu não resistiu, tomando-a como esposa. No dote de casamento, vinha uma caixa lacrada que em nenhum caso deveria ser aberta, porque dentro dela aprisionava todos os males. Acontece que, para além de bela, Pandora era também curiosa (o lado misógino da lenda grega, tal como todos os mitos clássicos) e atreveu-se a abri-la, julgando-a vazia. Foi então que, pela tampa, se soltaram o ano de 2020, a doença, o sofrimento, o ódio, a fome, a guerra, a mentira e o medo, sobretudo o medo dos outros. Lá bem no fundo da caixa, que a assustada Pandora se apressou a fechar, restava apenas algo que o mito nos reservou para a posteridade. Era a esperança! E é com ela que viramos costas a esse ano maldito.

A chegada da vacina é o primeiro e mais desejado sinal de uma nova esperança, graças à comunidade científica e também à mobilização do financiamento público, em especial da União Europeia. Ao fazer compras em conjunto e para todos os Estados membros, permitiu que o antivírus comece a chegar a todos, ao mesmo tempo. E em tempo recorde está em marcha o mais ambicioso plano de vacinação de 450 milhões de europeus. É um prazo e uma logística sem precedentes. Mas não nos iludamos: a vacina não cura, apenas previne.
E quem esperava que ela fechasse de vez este ciclo desgraçado é agora advertido de que tudo se prolongará por 2021.

Por largos meses, à nossa volta, a economia há de continuar anémica. Mas por cá vamos ter a possibilidade de investir, por ano, o dobro do que investimos na média dos melhores anos desde que aderimos à União Europeia. E se a esperança é um bem coletivo, cabe aos políticos a gestão da espera. Não percamos a oportunidade.

Jornalista

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