África, 2021

Início de ano é sempre tempo de previsões. Como evoluirá o continente africano em 2021? A primeira observação, mais do que óbvia, é virtualmente lapalissiana: tal como acontecerá com as demais regiões, África será igualmente afetada pelos efeitos da pandemia de covid-19.

Na verdade, e apesar dos ventos promissores trazidos pela possibilidade de vacinação com que o ano passado se despediu, o mundo ainda está longe de ter entrado na pós-pandemia. Pelo contrário, em muitos países, teme-se pelo recrudescimento da doença nos primeiros três a seis meses do ano que está a começar. Como diz um ditado americano, "as coisas vão piorar antes de melhorarem".

Do ponto de vista sanitário, os primeiros sinais não permitem nenhuma manifestação de otimismo. África está fora dos planos de vacinação prioritários. Argumentar que isso se deve ao facto de a pandemia não ter atingido o continente com a mesma intensidade que as demais regiões do mundo é quase indigente. É sobretudo perigoso, quando, em alguns países, o número de infetados, internados e mortos continua a crescer.

O médico angolano Matadi Daniel, muito ativo na imprensa, não hesitou em afirmar, em artigo publicado no Jornal de Angola: a culpa é dos próprios países africanos. De facto, poucos ou mesmo nenhum deles cuidou de preparar-se para a vacinação, encomendando direta e antecipadamente as vacinas necessárias para o efeito. Como os fabricantes não deram a mínima ao apelo da ONU para liberarem as patentes das novas vacinas, a região está dependente da COVAX (sigla da plataforma criada pela Organização Mundial da Saúde para possibilitar o acesso ao tratamento da covid 19 pelos países mais pobres do mundo).

Do ponto de vista económico, as expectativas também são pouco entusiasmantes. Segundo a The Economist, África terá um acrescimento de cerca de 1,7% em 2021, tanto como o Japão ou a Austrália, mas é preciso realçar a diferença de contexto existente nos dois casos? No caso do continente africano, a taxa é, óbvia e definitivamente, pouco significativa.

Assinale-se que, antes da atual pandemia, África era o continente que mais crescia. Na última década e meia, as economias africanas registaram aumentos de crescimento na ordem dos 5%, como lembra o economista bissau-guineense Carlos Lopes, no seu livro África em Transformação. Contribuíram para isso, entre outros, o aumento da procura e a subida dos preços de uma série de produtos, como o petróleo; as melhorias na governação económica, assim como na gestão macroeconómica; e o crescimento do consumo interno.

Acontece que, devido às fragilidades estruturais das economias africanas, as mesmas são as mais afetadas pelos efeitos da covid-19. É cedo para avaliar quão profundos e extensos são tais efeitos, mas já é possível, creio, imaginar que a recuperação de África será mais longa e penosa. Mesmo que, por alguma contingência, o continente volte a passar por períodos de grande crescimento, isso não significará que tenha encontrado o caminho do desenvolvimento.

Pode esperar-se que os líderes africanos tenham aprendido, entre as várias lições da presente pandemia, que crescimento não é desenvolvimento? Se não, devem fazê-lo com urgência. Diz Lopes: "Para que o crescimento económico rápido se traduza em desenvolvimento sustentado e inclusivo, os países devem ser encorajados a implementar estratégias que criem diversificação económica e emprego, reduzam desigualdades e reforcem o acesso aos serviços públicos essenciais."

Isso passa, necessária e obrigatoriamente, pela industrialização. Mas implica ainda outros desafios, políticos, identitários, culturais, sociais, tecnológicos, diplomáticos e de segurança.

Escritor e jornalista angolano, diretor da revista África 21

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