Redescobrir os portugueses: tributo a Eduardo Lourenço em tempos de pandemia

Que o português médio conhece mal a sua terra - inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio - é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la (...) Chegou o tempo de nos vermos tais como somos, o tempo de uma nacional redescoberta das nossas verdadeiras riquezas, potencialidades, carências, condição indispensável para que algum dia possamos conviver connosco mesmos com o mínimo de naturalidade", escreveu Eduardo Lourenço que considera que "os portugueses vivem em permanente representação", na obra O Labirinto da Saudade e no capítulo "Repensar Portugal", num texto publicado em março de 1978.

Pode até parecer cruel usar esta referência em tempos de crise pandémica, mas, noutro dos capítulos da obra, o ensaísta escreve que "somos um povo de pobres com mentalidade de ricos". Afirma que, "empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho, mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não trabalho...".

Vacina, o milagre e a pouca sorte

Viajar pelas páginas já amareladas de O Labirinto da Saudade, numa edição de 1988 editada pela Dom Quixote, é reconfirmar que muitas das palavras do filósofo e ensaísta mantêm toda a atualidade.

Avançando página a página, um outro subtítulo é dedicado ao que chama "O Tradicional Grito da Pouca Sorte". "A célebre mentalidade milagreira portuguesa procede desta situação, em si não insólita, mas aberrante pela extensão e o tempo em que se prolongou. O resultado, o imediato gozo que proporciona, independentemente do esforço com que se alcança, equivalem à graça, ao milagre que num segundo restaura a ordem do mundo até aí desfavorável."

A vacina para a covid-19 surgiu recentemente como esse milagre que restaura uma espécie de ordem na desordem, dando o "imediato gozo" que na verdade não se traduzirá num alívio imediato. Vejamos: segundo as previsões, vamos precisar de pelo menos seis meses para ter 3,6 milhões de pessoas vacinadas, ou seja, bem menos de metade da população portuguesa. Não embandeiremos em arco. Defraudar expectativas exageradas pode tornar-se mais difícil de digerir do que não ter expectativas. E aí lá voltamos à expressão de Eduardo Lourenço "o tradicional grito da pouca sorte".

Do mesmo modo, e ainda neste mês, vai ser preciso gerir com bom senso e cautela a época natalícia. Façamos que a decisão política de alguma folga às medidas restritivas durante a época do Natal (e depois voltar a apertar as regras no Ano Novo) não nos leve a invocar em janeiro "o tradicional grito da pouca sorte". Não por acaso, nesta semana os peritos já alertaram que é de esperar um aumento de casos no início de janeiro.

"Nesta encruzilhada nos encontramos. O momento parece propício não apenas para um exame de consciência nacional que raras vezes tivemos ocasião de fazer, mas para um ajustamento, tanto quanto possível realista, do nosso ser real à visão do nosso ser ideal." Palavras de Eduardo Lourenço que podemos recuperar para os tempos de hoje. "Nós temos vivido sobretudo em função de uma imagem irrealista... sempre no nosso horizonte de portugueses se perfilou como solução desesperada para obstáculos inexpugnáveis a fuga para céus mais propícios. Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que como no apólogo célebre está enterrada no nosso exíguo quintal."

Não estamos sós no mundo, nunca o estivemos, mas "ninguém pode viver por nós a dificuldade e o esforço de uma promoção coletiva do máximo daquilo que adentro dessa modéstia somos capazes".

Caro(a) leitor(a), estamos em contagem decrescente para a entrada na terceira década do século XXI, que sejamos então capazes!

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