Palmeiras desarrumadas

Wild Palms, uma mini-série produzida por Oliver Stone em 1993, foi transmitida como Palmeiras Bravias pela RTP, e repetida em Portugal pelo menos mais duas vezes: em 1999 pela TVI (no seu horário "nobre" da altura para ficção estrangeira: as madrugadas de domingo), e três ou quatro anos depois pela SIC Radical. As memórias que terá deixado a espectadores nacionais são necessariamente vagas e fracturadas: talvez a recordação difusa de um rinoceronte numa piscina, ou de uma criança vestida de marinheiro a mutilar um adulto. Ao contrário do que sucedeu com outras séries da mesma altura, nunca ascendeu ao estatuto de "culto" nem acumulou massa crítica suficiente para ser nostalgicamente revisitada. Há várias razões para isto, mas a principal é que Wild Palms, enquanto série de televisão, era bastante má, e continua a ser bastante má: o tempo não fez nada por ela nesse departamento. Por outro lado, é hoje muito mais interessante do que quando se estreou, por motivos quase totalmente alheios a si própria.

Esse interesse (um atributo raro em séries de televisão, boas ou más, antigas ou recentes) é consequência das suas origens em dois períodos de transição na história da produção cultural. Em primeiro lugar, é uma óbvia criatura do inicio dos anos 1990, mais especificamente do período pós-Twin Peaks, em que os limites do que era possível oferecer e exigir aos espectadores de canais terrestres foram radicalmente alargados, e bastava alguém aparecer num estúdio com meia dúzia de ideias sobre sonhos, mistérios e ambientes surreais para um executivo lhe oferecer prontamente 15 milhões de dólares. Mas Wild Palms é também uma relíquia do período anterior à Era de Ouro da TV (©), antes de a ficção televisiva ter empreendido uma aquisição hostil de competências e reputação, em que anexou triunfantemente um conjunto de técnicas e expectativas, e as consolidou num modelo de produção intensiva que tornou os produtos realmente maus tão raros como os produtos realmente bons.

A história, depois do lendário rinoceronte inicial, começa à boa maneira noir: uma femme fatale entra num escritório para pedir ajuda. O dono do escritório não é um detective privado, mas algo muito mais glamoroso: um advogado de patentes, que tem a desvantagem adicional de ser interpretado por James Belushi, um actor cujo rosto, maneirismos, currículo e sobrenome tornam impossível levá-lo a sério em papéis não cómicos. A acção decorre no então futuro de 2007, um "futuro" de automóveis dos anos 1990, penteados dos anos 1980 e roupas dos anos 1950.

A América é uma distopia light, governada por uma facção política chamada Os Pais, que conquistaram o poder através de uma síntese de terrorismo clandestino, propaganda política, controlo dos meios de comunicação, e inovação teológica (a religião oficial é algo semelhante à cientologia). Dissidentes são aleatoriamente espancados em restaurantes, mas as refeições nunca são interrompidas.

O líder de Os Pais, Anton Kreutzer, é também o dono do mais poderoso conglomerado mediático, cujo produto mais recente é um dispositivo de realidade virtual que permite aos telespectadores de sitcoms ver hologramas dos actores nas suas salas de estar. Há ainda uma droga sintética chamada Mimezine, que transfere o utilizador para uma paisagem alucinada na qual esses hologramas adquirem carne e osso (um cândido e assumido plágio de um romance de Philip K. Dick, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch). Kreutzer, como Palmer Eldritch, quer usar a substância para anexar toda a realidade sob o seu domínio autoritário. O advogado tenta impedi-lo, com a ajuda de uma facção rebelde chamada Os Amigos, que se reúne debaixo de uma piscina e comunica através de versos de Whitman. O enredo depressa se desmultiplica em investigações paralelas, pistas sobre vastas conspirações e vinhetas lynchianas, que envolvem quase sempre rinocerontes, tatuagens, diálogos esotéricos ou homens a cantar karaoke.

O último episódio, que dá todas as indicações de ter sido filmado já sem orçamento, sugere o sucesso da resistência e uma possível revolução (sinalizada com imagens baratas de papéis a arder e meia dúzia de manifestantes).

Wild Palms é uma série "má" de uma forma que hoje se torna acidentalmente original, mesmo quando alguns dos elementos parecem profetizar o que é contemporaneamente mau. Tal como muitas séries recentes, anuncia-se tacitamente como "importante" e utiliza versões rudimentares de muito do que nos habituámos a reconhecer na gramática da TV de prestígio, sistematizada para diferenciar os seus produtos dos "outros": protagonistas com um passado traumático; segredos por decifrar; cronologia não linear; momentos de comédia alternados com espasmos de violência; motivos visuais repetidos; uma estranheza por decreto, manipulada sem supervisão criativa; e referências culturais usadas menos como adereços temáticos do que como talismãs sofisticados (há alusões para todos os gostos em Wild Palms, de Dante a Wallace Stevens, dos 101 Dálmatas a Blade Runner).

A diferença é que este cardápio é empregue duas décadas antes de se ter reconhecido como tal, e de ter aprendido a suavizar os seus efeitos numa espécie de lirismo tecnocrático, em que tudo - no ecrã e no guião - ocupa o seu devido lugar. Em Wild Palms, pelo contrário, a desarrumação é o princípio operativo: o excesso é tanto que acaba por criar um novo estilo de incompetência, impondo-nos uma sensação constante de redescoberta, como se estivéssemos a reaprender um dialecto esquecido algures entre a infância e a adolescência: "Era assim que funcionava a má televisão com ambições desmesuradas, antes de ser substituída pela televisão competente com ambições desmesuradas."

Ambição é a palavra-chave, para o vilão da série e para a série em si. Uma e outra, como tantas ambições megalómanas, flutuam suspensas sobre inseguranças diversas e Wild Palms é um hino inadvertido às ansiedades da televisão enquanto meio de ficção narrativa. A sua ideia de "realidade virtual" é tão cliché (e fixa no tempo) que o espectador de hoje se sente tentado a vê-lo não tanto como uma tecnologia específica, mas como uma metáfora para os vários modos de simulação e imersão que cada nova vaga de tecnofilia imagina poderem constituir uma ameaça de extinção para antigos veículos de entretenimento. Ao contrário de todas as outras distopias, Wild Palms é menos sobre o medo que a tecnologia provoca nos seres humanos e mais sobre o medo que a tecnologia e os seres humanos provocam nas séries de televisão: o de deixarem de ser suficientemente relevantes para competir com o entretenimento que o futuro vai trazer.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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