Natal dos Hospitais: Música e alegria no sapatinho

Criado em plena Segunda Guerra Mundial, por iniciativa do Diário de Notícias, o Natal dos Hospitais há muito que se tornou uma tradição acarinhada pelos portugueses. Transmitido em direto pela RTP, a partir de 1958, tem contado com a participação de grandes nomes do espetáculo em Portugal, de Amália Rodrigues aos Xutos & Pontapés, de Raul Solnado a Herman José. Nem mesmo a pandemia o conseguirá travar.

"Uma tradição renovada levou alegria em liberdade a doentes de todo o país", lia-se na primeira página do DN a 21 de dezembro de 1974, a propósito da 30.ª edição do Natal dos Hospitais, que era também a primeira realizada após o 25 de Abril. Iniciativa deste jornal, a que se juntariam mais tarde a RTP, a Emissora Nacional (depois Radiodifusão Portuguesa) e a Philips, realiza-se há 76 anos consecutivos (sempre com enorme adesão de público e artistas) mas a sua história acaba por refletir as transformações que a sociedade portuguesa conheceu neste longo período.

Tudo começou em plena Segunda Guerra Mundial. Portugal, país neutral, não conhece o terror das bombas mas sujeita o seu povo à dureza de uma economia de guerra, com restrições graves na alimentação e nos combustíveis. Dirigido pelo jornalista, diplomata e escritor Augusto de Castro (1883-1971), o DN lança um repto na sua edição de 10 de dezembro desse ano: "O Natal nos hospitais: Precisamos da colaboração de todos os artistas teatrais portugueses!"

E continuava-se, logo a seguir, ao estilo da época: "Um sorriso, um clarão de alegria nas faces marcadas pela dor. E numa recordação feliz durante horas, dias, semanas a encher as enfermarias claras, os pavilhões isolados, a viver em cada criança, em cada mulher, em cada velho."

A resposta foi entusiástica: a 14 de dezembro, o jornal noticiava já na primeira página: "Depois dos artistas de teatro e variedades vão falar os da rádio, os do circo e os músicos." Para além de particulares e empresas que ofereceram brinquedos às crianças internadas no Hospital Dona Estefânia, os nomes maiores da cena teatral da época dividiram-se pelos vários "palcos" montados em unidades hospitalares de Lisboa: entre outros, Palmira Bastos, Madalena Sotto, Alves da Cunha (São José), Lucília Simões, Maria Lalande, Ribeirinho, Josefina e António Silva, João Villaret (Santa Maria), Maria Matos (Capuchos), Laura Alves e Helena Félix (Desterro), os bailarinos Ruth e Francis (Maternidade Alfredo da Costa), Adelina e Aura Abranches e Hermínia Silva (Maternidade Magalhães Coutinho) enquanto o casal sensação do Parque Mayer de então, Vasco Santana e Mirita Casimiro, animavam o já extinto Hospital de Arroios. O jornalista de serviço notava: "Vasco é um acontecimento (...). Mirita Casimiro, agora muito loira, diz aquelas canções regionais de Viseu que há anos a ergueram no primeiro plano dos cartazes."

Que pena não ser a cores!

Estava criada uma tradição, a que a televisão, a partir de 1958, veio trazer uma força ainda maior. Com pouco mais de um ano de emissões regulares, a RTP iniciou a transmissão em direto (no caso, do Hospital de São José, em Lisboa) do Natal dos Hospitais, o que faz deste o programa de entretenimento televisivo mais antigo do país. Nessa primeira edição, apresentada por Henrique Mendes, brilhou Beatriz Costa (já sem franja), mas, ainda na era da TV a preto e branco, destacar-se-iam, na apresentação, Maria Leonor, Pedro Moutinho, Artur Agostinho, Alice Cruz, Fialho Gouveia, Ana Zanatti, Eládio Clímaco e um número infindável de artistas de vários géneros como Simone de Oliveira, António Calvário, Duo Ouro Negro, os atores Raul Solnado e Humberto Madeira, José Cid ou o Coro de Santo Amaro de Oeiras, entre muitos outros. A terminar, com chave de ouro, era frequente que Amália, Hermínia ou Alfredo Marceneiro, acompanhados pelos seus guitarristas, cantassem o muito aguardado fado. Em casa, ouvia-se o desabafo que acompanhava então as maiores ocasiões televisivas: "Que pena não ser a cores!"

No final da década de 1960, o país mudava, apesar da ditadura, e a história atingiu também o Natal dos Hospitais. Com a Guerra Colonial instalada em três frentes (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau), as referências aos soldados para lá enviados tornaram-se inevitáveis, bem como as mensagens filmadas enviadas do terreno. "Nós por cá todos bem", diziam eles às famílias e aos telespectadores, embora nem sempre fosse assim. Em Lisboa, a música prosseguia a esconder a saudade e a inquietação.

Com o 25 de Abril, o formato manteve-se mas o discurso mudou. Apresentado por Luís Filipe Costa e pelos atores Igrejas Caeiro e Guida Maria, o programa da edição de 1974 contou com as participações de Beatriz da Conceição, Teresa Silva Carvalho, Hermínia Silva, Thilo Krassman, Jorge Machado, Carlos Paredes, Fernando Alvim, Maria do Amparo e Carlos Alberto Moniz. A grande novidade ia para o protagonismo dado à canção de intervenção, como escrevia o jornalista em reportagem: "José Jorge Letria, com a sua viola, veio a seguir dizer que "A vitória é difícil mas é nossa", contando desde logo com a participação de muitos dos presentes que acompanharam o refrão em coro, como, aliás, o fariam com Arte Poética. Antes Zé Jorge explicara que a poesia também é uma arma e provou-o, uma vez mais, através das suas canções."

De resto, na primeira página do DN desse dia já se podia ler: "Num Natal diferente, o primeiro Natal de paz em treze anos, o primeiro Natal de liberdade, em quase cinquenta anos, o DN promoveu mais um Natal dos Hospitais, o tradicional espetáculo que todos os anos oferece aos doentes e reclusos do país inteiro com a colaboração da RTP, da Philips e da Emissora Nacional, mas um espectáculo renovado, em atmosfera diferente, que trouxe durante duas horas a reafirmação quase constante de que algo de novo se fazia num país novo. Com efeito, quer os locutores quer alguns artistas não se limitaram a anunciar uns, a cantar outros, mas com frequência sublinharam quanto era importante este Natal mais alegre, porque é em liberdade, como diria José Viana." Uma diferença, concluía, que se refletia também no ambiente da sala: "Pela primeira vez não havia cadeiras especiais para as entidades convidadas."

A cores e "quase europeus"

Com a democracia consolidada, a sociedade portuguesa transformava-se. Em 1977, era formalmente feito o pedido de adesão à Comunidade Económica Europeia (de que nos tornaríamos membros de pleno direito em 1985) e o tradicional delay entre o que se passava no restante mundo ocidental e Portugal encurtou consideravelmente. A 7 de março de 1980, com a transmissão do Festival da Canção, a RTP iniciava, aos 23 anos de vida, as emissões a cores. No mesmo ano, a Valentim de Carvalho editava o single Chico Fininho, interpretado por um rapaz do Porto chamado Rui Veloso. O sucesso foi instantâneo e assinalava o nascimento oficial do chamado rock português.

O Natal dos Hospitais, como não podia deixar de ser, acompanhou tais mudanças. Em 1982, o vasto elenco (foi a maior participação de sempre até então) renovara-se e incluía os novos valores, muito do agrado dos jovens que até aí pouco ouviam música portuguesa, como as Doce, Heróis do Mar, UHF, Lena d'Água, Lara Li, Cândida Branca Flor ou Carlos Paião. Isto a par dos consagrados José Cid, Paco Bandeira, Hermínia Silva e o sempre presente Coro de Santo Amaro de Oeiras, dirigido pelo maestro César Batalha, com o tema provavelmente mais tocado em toda a história do programa: A Todos Um Bom Natal.

Nas décadas seguintes, o DN, a RTP, Portugal e o mundo conheceram transformações que, não há muito, nos pareceriam ficção científica, mas o Natal dos Hospitais mantém ainda a aura de grande festa, entretanto perdida por outros eventos (como o Festival RTP da Canção). Ano após ano, continuam a passar por ele todos os grandes nomes do espetáculo no nosso país e nem mesmo a pandemia, neste ano de todos os perigos, ameaça a sua realização. Como dizia, em 1982, Tony Silva, o grande artista de toda a música ró (interpretado por Herman José), "melhor do que um Natal dos Hospitais só dois Natais dos Hospitais".

Maratona televisiva em tempo de pandemia

Apesar dos muitos condicionamentos impostos pela pandemia, o Natal dos Hospitais realizar-se-á em direto (como sempre) no próximo dia 10, das 10.00 às 20.00 (interrompido entre as 13.00 e as 14.00 para o Jornal da Tarde) a partir de três locais: Centro de Reabilitação de Alcoitão (com apresentação de Catarina Furtado e José Carlos Malato), Estúdios da RTP Porto (onde estarão Sónia Araújo e Jorge Gabriel) e estúdios da RTP Lisboa (com Tânia Ribas de Oliveira e Vasco Palmeirim).

Estão, até agora, confirmadas as participações de Rita Redshoes, Toca&Dança, Cláudia Martins e os Minhotos Marotos, Cathy, Clemente, Luís Filipe Reis, Ruth Marlene, Mónica Sintra, Bandalusa, José Gonzalez, Zé Amaro, Leandro, Rebeca, Augusto Canário, Sérgio Rossi, José Malhoa, Ágata, Micaela, Tomás Adrião, BMRNG, João Couto, Elisa Rodrigues, Catarina Rocha, Diana Lucas, Irma, Miguel Gizzas, Matay, Ricardo Azevedo, Toy e Perfume. Serão ainda oferecidos brinquedos a várias instituições de apoio às crianças.

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