As pessoas não prestam. Online e offline

A frase é de uma canção de Nick Cave, de 1997: as pessoas não prestam (People ain't no good). Não foi de certeza escrita sobre o que se diz na net, muito menos no Facebook e Twitter. É mesmo sobre a natureza humana. O online só a tornou muito mais iniludível: somos umas rematadas bestas.

As palavras estrangeiras que usamos para referir determinados comportamentos tendem, por nos serem relativamente recentes, a fazer-nos crer que esses comportamentos apareceram agora, com elas, na nossa vida.

É assim com termos como benching, ghosting e haunting, revenge porn, stalking e bullying, que merecem resmas de artigos em revistas e jornais explicando-nos de que se trata e asseverando-nos serem fenómenos "em ascensão", "com cada vez mais queixas" e portanto "cada vez mais vítimas".

Sucede que é capaz de não ser bem assim. Pelo contrário, até: a nossa sensibilidade, enquanto sociedade, para a violência e a agressão, inclusive a psicológica, é que está muito mais desenvolvida, e ainda bem. É por esse motivo que hoje existem, por exemplo, muito mais queixas de violência doméstica que há 30 anos - quando o crime nem sequer estava tipificado como tal -, de abuso sexual de menores (outro crime que foi tipificado apenas nos anos 1990) e mesmo de violação.

Aliás, quanto à violação é de relevar que os números mais elevados de denúncias se encontram nos países nórdicos: trata-se de sociedades onde se tipificam como tal atos que noutros países nem sequer são vistos como crime (por exemplo, e cá vai mais uma palavra inglesa, o stealthing, que refere a retirada do preservativo por um parceiro sexual sem conhecimento do outro) e onde o empoderamento das vítimas é maior.

As coisas não são, pois, sempre o que parecem - diria mesmo que tendem a nunca ser. E assim é com aquilo a que chamamos bullying. Começámos por usar o termo a propósito do assédio e perseguição de crianças na escola - como, lá está, se fosse um fenómeno novo - e passámos a usá-lo também para o que se passa online.

E o que se passa online? Basicamente o que sempre se passou na vida, mas agora às escâncaras, e multiplicado pelo acesso de milhões de pessoas a um teclado, a "uma voz" pública e à publicação instantânea. Antes, as pessoas diziam horrores umas das outras, sempre disseram, como sempre fizeram horrores umas às outras. Agora têm um instrumento novo para exercer a sua insensibilidade e maldade, e usam-no. O que vemos não foi criado pelo meio: estava em quem o usa, esteve sempre.

Como houve sempre uma violência brutal a ser exercida sobre minorias e mulheres no espaço público - uma violência da qual se começou finalmente, nos últimos anos, a falar e a ter consciência.

Essa violência passa, nos termos usados pela Convenção de Istambul (Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica), ratificada por Portugal em 2013, pela criação de "um ambiente intimidante, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo". A convenção refere-se às mulheres, mas a descrição vale para outras categorias ditas "suspeitas" (suspeitas por historicamente serem alvo de discriminação e violência), como as minorias étnicas e religiosas, assim como as pessoas LGBTI.

Não há referência na Convenção ao online, mas a criação desse ambiente hostil no meio tem sido reconhecido, pelo menos em relação às mulheres, por inúmeras instituições internacionais, e objeto de inúmeros estudos científicos (está precisamente neste momento a decorrer em Portugal um sobre violência online).

É apenas normal que assim seja: se neste ano de 2020, neste país da Europa Ocidental, uma mulher ou menina, um negro ou outro membro de minoria étnica ou pessoa LGBTI ao aventurar-se na rua está sempre sujeita/o a ouvir desconhecidos fazer-lhe comentários não solicitados, como não aconteceria isso num meio em que as pessoas se sentem ainda mais à vontade para assediar, insultar, agredir e escarnecer?

Aquilo que sucede com estas pessoas online é uma extensão particularmente visível do que lhes sucede em geral e em todo o lado, ainda: são alvos preferenciais de todo o tipo de abuso. É pois difícil entender uma luta contra o bullying online que não passe pela luta contra a violência sobre estas pessoas em geral - e a inversa, obviamente, também é verdadeira. Quero com isto dizer que quem use o online para atacar e assediar mulheres, por exemplo, está a contribuir para o fenómeno geral da violência contra as mulheres.

E a notícia chata que tenho para dar é que há muito poucas pessoas que, estando online ou offline, não participem de algum modo na criação deste "ambiente intimidante, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo". Umas porque são mesmo autoras de ataques e discurso de ódio, outras porque acham graça e propagam, outras porque assistem sem nada fazer. De um modo geral, no online as pessoas agem como no offline: ralam-se consigo mesmas e não se atravessam por ninguém, muito menos se isso lhes puder trazer problemas - mais que não seja o problema de se tornarem elas próprias também alvos.

Por outro lado, a noção do efeito das agressões constantes perpetradas no online (ou no offline) sobre certas pessoas passa muito ao lado da maioria: é normal que não se apercebam de muitos ataques e sobretudo não consigam compreender o que significa recebê-los: como em tudo, geralmente só se sente o que é connosco.

O que me leva a abordar o protagonismo que alguém como Cristina Ferreira decidiu adotar nesta matéria, lançando um livro que, se bem percebi, é uma coletânea dos insultos e agressões que lhe têm arremessado online. A ideia nem me parece má: assim, em apanhado, é possível ter noção do tsunami de ódio em que algumas pessoas são submersas e arrastadas - mesmo se pode ter o efeito inverso, o de banalizar o insulto e a calúnia. E nem o facto de Cristina Ferreira estar muito longe de ser a única pessoa, e mulher, a ser alvo de ódio renitente e constante nas ditas "redes" implica criticar o gesto.

O problema, e só posso falar dele a partir da entrevista que vi a administradora e apresentadora dar à sua estação, a TVI, é o facto de ter direcionado toda a discussão para o seu caso. Falar de bullying ou assédio ou agressão online centrando tudo na sua pessoa, por mais magoada que esteja - e tem todo o direito a estar - parece-me um desserviço.

No caso de Cristina Ferreira é mesmo mais que um desserviço: do alto do seu notável poder, esta mulher que sofre ataques sexistas e odientos não se coíbe de ser ela mesma agressora, como sucedeu no recente caso da jovem que foi filmada a ter sexo num comboio com dois jovens. Já descrevi nesta coluna o brutal e sexista enxovalho a que a apresentadora submeteu, num programa com centenas de milhares de espectadores, aquela anónima, chegando a ponto de a psiquiatrizar com a ajuda de duas convidadas, uma psicóloga e uma advogada.

Não é pois consciência dos efeitos terríveis que o bullying e o sexismo podem ter que move Cristina. Como tantas outras pessoas, muitas delas também a botar discurso público sobre cyberbullying e sexismo, só se preocupa com o que a atinge a si própria. E é esse mesmo o problema, é essa a fonte do mal: a falta de empatia, de capacidade de ver no outro alguém exatamente como nós.

"If you prick us, do we not bleed? If you tickle us, do we not laugh? If you poison us, do we not die? And if you wrong us, shall we not revenge?" ("Se me picares, não sangro? Se me fizeres cócegas, não me rio? Se me envenenares, não morro? Se me injustiçares, não me vingo?"), perguntou Shakespeare em O Mercador de Veneza, na voz de um judeu, para a seguir concluir: "Se sou como tu no resto, também serei igual nisso [a vingança]." É assim que, por contágio, defesa e necessidade, nos tornamos todos maus.

Antes das leis, antes das regulamentações, estamos nós, aqui, cada um, responsáveis pelo que fazemos e pelo mundo que criamos. Online e offline, agora como no século de Shakespeare. Porque a questão é sempre a mesma - e agora vou pedir a palavra a um papa, o atual, Francisco: sabemos, conseguimos, olhar os outros como irmãos? Ou pelo menos como mais que bonecos num cenário em que só nós existimos de verdade?

Jornalista

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