Exclusivo Reinaldo, ainda e sempre 

Que os leitores de um jornal o disputassem a murro é algo que faz pensar, tamanha é hoje a crise da imprensa. Que esse jornal tivesse começado em Barcelos ainda mais impressiona. Que se chamasse Jornal do Repórter X é mesmo coisa bizarra. Mas verídica. Junto dos ardinas ou nas bancas de jornais, a freguesia chegava a vias de facto para comprar o periódico dirigido por Reinaldo Ferreira, o mais inventivo repórter português de todos os tempos.

Nado e criado em Lisboa, educado sem pai, enfermiço e frágil, Reinaldo cedo revelou peculiares inclinações literárias. Em jovem, ensaia o romance naturalista, prenhe de misérias morais, o que lhe vale o malicioso epíteto de "Zola da Almirante Reis". Após uma fugaz passagem pelos escritórios de uma fábrica de fiação a Alcântara, dá entrada na redacção do vespertino republicano A Capital, e aí assina as primeiras críticas de cinema da imprensa portuguesa. É por essa altura que, disfarçando-se de mendigo, passa três dias e três noites junto dos miseráveis da capital, antecipando um género que teria em Günter Wallraf um dos seus mais famosos cultores (já agora, lembre-se também Roussado Pinto, o incrível, com Eu Fui Vagabundo). Há quem diga, no entanto, que Reinaldo Ferreira não fez reportagem alguma e que se limitou a posar para o fotógrafo em trajes de pedinte; o resto, o texto, saiu da sua imaginação prodigiosa. Estamos a falar de alguém que não hesitará em anunciar, nas páginas dos jornais, a fantástica descoberta no coração de Lisboa de uma cidade subterrânea com milhares de toupeiras humanas, gente que aí morava desde os tempos do terramoto. Ou de, num futuro próximo, projectar a construção de uma ponte transatlântica entre a Europa e a América, com término na serra de Monsanto. De alguém que se imaginou desembarcar no "aeródromo da Amadora", vindo da China, ao fim de... 12 horas de voo.

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