O futuro do trabalho: um trabalho do presente

Ao ser humano nunca faltou a capacidade de invenção e de reconstrução dos modelos de desenvolvimento que até então pareciam únicos e insubstituíveis. Não é, ainda assim, inédito o alarme social que se gera sempre que estamos à beira de profundas mudanças. Os receios que existem à volta da robotização e do impacto das novas tecnologias no emprego mundial não são muito diferentes dos que caracterizaram o ludismo no início do século XIX , nos primórdios da Revolução Industrial, na sua oposição à mecanização do trabalho.

Já nessa altura, há mais de 200 anos, tivemos o exemplo de reação ao progresso, com a destruição de máquinas em fábricas têxteis com argumentos como o de que estariam estas a substituir pessoas. E desde aí o mundo avançou. Criaram-se outros empregos, com mais qualidade, com mais valor acrescentado, menos perigosos do que os anteriores, caiu significativamente o número de horas trabalhadas, aumentaram os dias de férias e feriados. E nos últimos 150 anos assistimos à maior criação de riqueza e aumento de bem-estar da humanidade, como é bem visível em setores como a educação e a saúde.

Há, naturalmente, empregos que vão desaparecer e outros que vão ser criados, como sempre aconteceu. A pergunta que devíamos colocar é: o que estamos nós a fazer para nos preparamos para essas mudanças que já começaram?

E eu diria que muito pouco, desde logo, na escola. Seja para crianças e jovens, seja na reconversão de pessoas com 40, 50, 60 anos cujos postos de trabalho já foram colocados em causa. É que voltando aos luditas e recuperando o exemplo das trabalhadoras da indústria têxtil, cujos postos de trabalho foram ameaçados com a Revolução Industrial, talvez na altura não tenha havido quem as ajudasse na sua reconversão. E esse é o desafio da sociedade atual, até numa lógica de solidariedade entre gerações e numa forma articulada e integrada de pensar as políticas públicas para que nenhuma geração fique para trás.

A pergunta que devíamos colocar é: o que estamos nós a fazer para nos preparamos para as mudanças que já começaram no mercado do trabalho?

Com efeito, a escola em Portugal continua a ser, salvo raras exceções, exatamente o que era há 40 ou 50 anos. Devíamos estar a mudar o paradigma para que a escola possa sobretudo desenvolver competências, sem esquecer as disciplinas nucleares, de modo a que as crianças e jovens que concluem o ensino obrigatório possam estar capacitadas para um mercado cada vez mais global, apostando na modernização da escola e do ensino e nas novas tecnologias.

Esta é uma questão fundamental para quem, tal como eu, defende que a garantia de igualdade de oportunidades se faz a partir da escola, interessando pouco se é pública ou se é privada. Daí também a necessidade de, sabendo que não somos todos iguais e não temos todos de seguir os mesmos percursos de vida, deve a escola oferecer várias opções, garantindo não apenas a liberdade de ensinar como a liberdade de aprender.

Há, a par de tudo isto, atualmente, um desequilíbrio de competências em Portugal (como mostram os rankings internacionais), ou seja, há um desfasamento entre as competências dos recursos humanos disponíveis e as necessidades de qualificação das empresas. Caminhamos, por isso, para que o défice mais assustador que Portugal terá de enfrentar seja o défice de capital humano.

Também por isso a aposta no ensino profissional prioritária, mas de forma seletiva, procurando ir ao encontro das necessidades das empresas e correspondendo, dessa forma, às expectativas dos jovens que optam por esses percursos.

Presidente da JSD

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