"Demónios" racistas, "tribos pró e anti-Trump". Os protestos nos EUA vistos de Portugal

O que se passa nos EUA só tem paralelo nos protestos de finais dos anos 1960, que se seguiram ao assassínio de Martin Luther King. Três visões sobre os dias conturbados que se vivem na América.

"Apesar de a América manter uma esplêndida e acolhedora casa, tem uma família de demónios na cave. E de tempos a tempos esses demónios vêm ao de cima." Tiago Moreira de Sá, especialista em relações internacionais, recorre a uma frase de Anatol Lieven, autor que estudou o nacionalismo americano, para olhar os dias conturbados que se vivem nos Estados Unidos, com uma onda de manifestações antirracistas como não se via desde o final dos anos 1960, após o assassinato de Martin Luther King Jr.. Não que tenham faltado protestos nas últimas décadas contra a violência policial que vitimou afro-americanos - mas a morte de George Floyd ocorreu num "contexto potencialmente explosivo" que pode levar a que estes protestos "sejam mais violentos e, eventualmente, mais duradouros no tempo".

A começar pelo acontecimento que deu origem aos protestos que se sucedem há nove dias, marcados sobretudo por manifestações pacíficas, mas também por episódios de violência e atos de pilhagem. A morte de George Floyd, que morreu depois de um polícia lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos, é "especialmente chocante". "Aquela pessoa esteve quase dez minutos a dizer que não conseguia respirar, as pessoas à volta também. É um ato gratuito e até sádico", diz o professor da Universidade Nova e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI).

A isto há que somar o contexto "potencialmente explosivo": "Há uma agregação de fatores que provocam um particular mal-estar na sociedade norte-americana" e que explicam a intensidade e a duração dos protestos, que já ultrapassa o movimento que eclodiu em 1992 em Los Angeles, após a absolvição dos polícias que um ano antes tinham detido e espancado Rodney King, também um cidadão negro acusado de conduzir em excesso de velocidade. "O exemplo mais próximo que podemos encontrar é nos anos 1960", diz o professor da Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais.

Tiago Moreira de Sá vê nestes protestos, para lá da questão mais visível do racismo - e há "um problema de racismo estrutural nos Estados Unidos" - duas Américas a confrontar-se, uma aberta ao mundo, inclusiva e integradora, e uma outra fechada, que se sente espoliada e excluída do seu próprio país - duas "tribos", a traços largos a América anti-Trump e a América pró-Trump. "São inconciliáveis. Têm um ressentimento e mesmo um nível de ódio que faz com que a divisão e a polarização seja muito forte", sublinha o também presidente da Comissão de Relações Internacionais do PSD (mas ressalvando que não fala nessa condição). Uma polarização e um antagonismo que ainda foram exacerbados pelas consequências económicas da pandemia da covid-19, que colocou o desemprego nos Estados Unidos a níveis só vistos na Grande Depressão de 1929.

O caos como estratégia eleitoral?

E há o fator Trump. Ana Gomes não tem dúvidas: o presidente norte-americano é "determinado apenas por um objetivo, que é ser reeleito, e condiciona tudo a esse objetivo". E é nesta perspetiva que a antiga eurodeputada socialista insere a estratégia de Trump, que acusou os governadores estaduais de serem fracos e ameaça pôr o exército nas ruas contra os manifestantes. "Trump contava que a economia estivesse pujante" quando se apresentasse às eleições de novembro, mas a covid-19 "veio deitar tudo abaixo" - agora Trump quer "desviar as atenções do desastre que foi a sua gestão da pandemia" e não hesita deitar lenha sobre a fogueira: "Está a tentar capitalizar isto no seu eleitorado. É por isso que se vem apresentar como o presidente da law and order [lei e ordem]". O resultado foi esta "nova atmosfera de uma amplitude nunca vista desde os anos 1960".

Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda, vê na estratégia de Trump uma "espécie de alinhamento de tropas", para "tentar fugir à gestão danosa que fez da pandemia e à quebra de popularidade". Não é uma solução nova - é a "permanente fórmula divisiva" que tem usado - mas "neste momento está a levar isto muito além".

"Trump ultrapassou todos os limites. Isto é brincar com o fogo"

"Trump ultrapassou todos os limites, isto é brincar com o fogo, é perfeitamente inaceitável numa sociedade que tem um racismo enraizado e que é muito propícia a conflitos." "Isto é tocar mesmo nas feridas mais abertas da sociedade americana", acrescenta a eurodeputada, antecipando que a estratégia do presidente norte-americano pode vir a ultrapassá-lo: "É possível que isto lhe saia das mãos."

Nos anos 1960 ganhou Nixon. E agora?

Na década de 1960, numa altura em que vários estados ainda mantinham leis de segregação racial, o movimento pelos direitos civis dos negros americanos foi ganhando terreno, em parte pela voz de Martin Luther King Jr. Mas o assassinato do ativista e líder do movimento, em 1968, lançou os EUA numa onda de protestos que se estendeu a todo o país e se prolongou por mais de um mês, com um saldo de dezenas de mortos, mais de 2000 feridos e 15 mil detidos.

Nesse ano, também havia eleições presidenciais nos Estados Unidos, que viriam a dar a vitória ao candidato conservador republicano, Richard Nixon, um defensor da "lei e ordem" que Trump também cita agora. Um augúrio para novembro?

"Há grandes hipóteses de isto ser um ponto de viragem e de termos passado o momento em que Trump podia ser reeleito"

Ana Gomes acredita que não. "Penso que não se pode fazer essa comparação, há uma série de fatores que não permitem essa comparação. Os Estados Unidos de hoje são muito diferentes dos EUA dessa altura", diz a antiga embaixadora, que aponta para uma situação contrária: "Há grandes hipóteses de isto ser um ponto de viragem e de termos passado o momento em que Trump podia ser reeleito. As probabilidades de o Partido Republicano o deixar cair são crescentes."

Também Tiago Moreira de Sá sublinha as diferenças de contexto relativamente ao final da década de 60, com enfoque num ponto em particular - ao contrário do que sucede agora "Nixon não era o presidente, era o challenger" e ganhou as eleições "por uma pequena margem". O ponto é outro, defende: "As próximas eleições vão ser decididas pela capacidade que cada um dos lados tiver de levar os seus eleitores a votar. O que é que nós sabemos? Que este tipo de acontecimentos, com o presidente a prometer lei e ordem, é música celestial para os seus apoiantes, tenderá a reforçar a tendência de ir votar em novembro." A "grande incógnita" está do outro lado, está em saber se o descontentamento que agora se sente nas ruas se traduz no ato de ir votar: "Se o o grupo que seguramente não vota no Trump for votar em massa - essa é a grande incógnita - Trump pode perder as eleições."

As ruas da América vistas da União Europeia

Os protestos nos Estados Unidos e a reação musculada de Trump têm suscitado a atenção e a crítica - ou mesmo o silêncio pesado - da comunidade internacional. Josep Borrell, Alto Representante da União Europeia para a Política Externa, veio dizer-se "em choque perante o abuso de poder" que resultou na morte de George Floyd. "Trata-se de um abuso de poder e isto tem de ser enfatizado. Tem de ser combatido, nos Estados Unidos e em toda parte", afirmou o chefe da diplomacia europeia, que deixou também expresso o apoio da UE ao "direito de manifestação pacífico".

"Achei uma reacão fraca, era o mínimo que podia dizer", defende Ana Gomes. Marisa Matias também sublinha que dificilmente se podem esperar reações contundentes, na medida em que o alto representante da UE "joga sempre com os conflitos de interesses entre os Estados membros - "mas é importante e não se deve desvalorizar o facto de se ter colocado ao lado deste movimento. Estranho era que não tivesse escolhido um lado, nestas circunstâncias não se pode ficar a meio, tem que se fazer uma escolha clara". Mais uma pedra no sapato entre a UE e o presidente norte-americano? "Felizmente os países são mais que os seus presidentes".

Para Tiago Moreira de Sá a União Europeia "fez bem em dizer o que disse, fez bem em condenar e ter uma visão clara. Também tem a ver com a sua matriz, com a sua mundivisão. Quem não se mantém fiel aos seus princípios e não os defende não é respeitado por ninguém, acho que a UE fez bem". Dentro de um princípio genérico de cautela: "Se Trump for reeleito será, como é agora, o presidente dos Estados Unidos. É preciso a UE - ou qualquer país - encontre forma de falar e negociar com os Estados Unidos".

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