Os filmes que gravamos

Quando começámos a dizer "gravação" em vez de "filmagem"? As palavras que usamos para falar dos filmes e do cinema refletem o triunfo de um novo paradigma audiovisual.

Neste tempo saturado de imagens, a precisão das palavras tornou-se um valor essencial, uma espécie de derradeira fortaleza de um mundo em que dizer, falar e escrever não eram atividades submetidas às velocidades do universo virtual. E tanto mais quanto a quotidiana decomposição da língua (portuguesa, neste caso), para lá dos disparates que normaliza, se tornou uma espécie de moda. Exemplo? Apenas um, entre uma infinidade de possíveis: é surpreendente ouvir a proliferação de comentários a jogos de futebol, tanto em rádio como em televisão, que integram a palavra "veleidade" como se a sua significação fosse "dar hipótese de resposta" a um adversário. Diz-se: "A defesa não dá veleidades aos atacantes..."

A saga continua, sem emenda visível (isto é, audível). O que está em causa, entenda-se, não é o saber "mais" ou saber "menos", nem sequer o humilde reconhecimento de que todos cometemos erros com as palavras que usamos. O que está em causa é o triunfo de uma cultura, não da diferença, mas da indiferença, a ponto de desvalorizar as palavras e a riqueza possível dos seus arranjos. Mais um exemplo: a tenebrosa proliferação de verbos no tempo infinito. Cada vez que um repórter começa uma frase por "dizer que estamos aqui no estádio..." ou "lembrar que o jogo está quase a começar...", cada vez que isso passa para o éter da comunicação, a língua portuguesa morre um pouco mais.

Qual a objetividade de tudo isto? Zero. Faço mesmo questão em não iludir o leitor sobre a radical subjetividade da minha argumentação. Aliás, poderia ser de outro modo? Por razões de formação e gosto, sou mesmo sensível a um outro fenómeno, para lá da semântica e da sintaxe, que se generalizou no mundo do audiovisual. Em boa verdade, nem sequer se pode classificar como um "erro". Para utilizar uma expressão que, com maior ou menor pertinência, entrou na gíria social e política, o fenómeno é outro: uma mudança de paradigma.

Assim, quando se aborda o trabalho cinematográfico, há duas palavras que têm vindo a ser reduzidas a uma dramática fraqueza discursiva. São elas: filmar e rodar; ou ainda: filmagem e rodagem. Agora, os filmes são "gravados". E confesso a minha perturbação afetiva quando ouço dizer, por exemplo, que E Tudo o Vento Levou foi gravado em 1939...

Que aconteceu? Aquilo que podemos chamar uma ocupação do território cinematográfico por uma linguagem com raízes televisivas. Grava-se um programa, porque não se gravará um filme?... Mas essa explicação só pode atrair aquele lugar-comum segundo o qual os críticos de cinema gostam de "culpar" a televisão de tudo e mais alguma coisa. De facto, não é uma questão de "culpas". Há mesmo quem, diligentemente, pelo menos desde 1975 (seguindo as experiências revolucionárias de Jean-Luc Godard), não desista de escrever sobre os muitos, por vezes fascinantes, cruzamentos e cumplicidades de cinema e televisão.

O que aconteceu, creio, é de outra natureza. E não será estranho ao facto de termos passado a utilizar um objeto como o telemóvel que, de facto, tendo começado como "natural" instrumento de comunicação sonora, acabou por se transformar - impondo uma nova cultura visual - em máquina de gravação (dando origem, por perverso contraste, a uma expressão há poucas décadas impensável: "telefone fixo").

Gravação de quê? Pois bem, como sabemos, de sons e imagens. Não questiono, muito longe disso, as infinitas possibilidades informativas e artísticas que assim se abriram. Outro exemplo? Sou grande entusiasta do filme Unsane/Distúrbio (2018), com Claire Foy, que Steven Soderbergh realizou com um... iPhone 7 Plus. O que está cruelmente debilitado é o amor cinéfilo que a noção de filmagem e rodagem pode envolver.

Filmar é qualquer coisa que remete para uma ideia de trabalho, de composição do espaço, de gestão do tempo, enfim, para algum conceito de narrativa. Gravar tende a ser apenas a banalidade democrática de podermos carregar num botão do telemóvel, acabando por disseminar o registo obtido pelas nossas paisagens digitais. Somos todos "culpados" de o fazer, consagrando um novo e, a meu ver, ilusório ecumenismo das imagens. Eu até, confesso, gravei o filme de Soderbergh.

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