O passado cultural

Depois de a peste negra (1347-1352), vinda de países do Oriente, se ter propagado pela Europa, sem que a opinião dos povos conseguisse concluir se estava a ser castigado por "influências astrais ou resultado das nossas iniquidades" (Boccace, 1348), este continente que foi chamado "pequeno, aberto, bem situado", não obstante as divergências, por vezes armadas, internas, ultrapassou essas dificuldades e assumiu a ocidentalização do globo com a aventura das grandes descobertas iniciadas pelo talento do príncipe Henrique, o Navegador, que viveu entre 1394-1460.

Neste ano de 2020, sendo exato que enfrenta uma pandemia que ameaça todos os projetos destinados a dar realidade à utopia da ONU, a incerteza sobre o futuro possível lembra que retorna a fragilidade do sonho de Victor Hugo (1876) segundo o qual "il faut á l'Europe une nacionalité européenne": depois de duas Guerras Mundiais e de uma Guerra Fria que ameaçou impor duas meias Europas, durante cerca de meio século. Este ponto final da Cortina de Ferro fez correr comentários e dúvidas. Surpreendentemente, estando como que firmada a realidade do cordão de ferro, a Europa surgiu com unidade, da qual se espera que aceite, definida e consolidada, a cooperatividade dos diferentes membros da UE, aceitar que a história da ocidentalização dá, a qualquer aderente da pequena Europa, o dever de enfrentar desafios da globalização, que não conseguiu criar a articulação do "mundo único" e ter assumido que "a terra é a casa comum dos homens".

Quando muitos estadistas competentes assumiram que entramos neste século com a América Latina em desordem, com a ONU a enfrentar entre aceitação e reserva dos seus membros do multilateralismo, até que os oceanos das descobertas voltaram a sofrer ambições e perigos nem sempre legais, que os chamados emergentes, designadamente a China, desenvolvem uma competição inovadora dos quadros normativos em vigor, que a pandemia afetou severamente os projetos que têm a ONU por referência, e a União Europeia por resposta dos ocidentalistas históricos. Quando a Assembleia Geral da ONU mostrou que, sobretudo pelos EUA, a competitividade enfraquece a União com o Brexit do Reino Unido, que começa por apoiar os esforços de solidariedade dos membros, e assim exigiu atenção à Comissão, com uma nova presidente promissora, e aos Estados membros que intervenham sem hesitações, talvez não esquecendo a peste negra, para enfrentar a crise.

O esforço de resposta da unidade portuguesa, sem esquecer a debilidade de recursos, está pluralmente assumida. Mas a realidade pode tomar de exemplo a intervenção de Macron, que pede ao povo e aos órgãos de poder da França uma reflexão comum para assumir a definição de um "novo horizonte", mas a paz interna acrescenta exigências sem liderança conhecida. Por outro lado, o Governo da chanceler Angela Merkel declarou a estratégia no sentido de progressivamente participar "como último recurso" no capital das empresas "de alto valor estratégico", e tudo, segundo o ministro da Economia Peter Altmaier, porque a pandemia aparece em termos de "soberania tecnológica e económica".

Por seu lado, o diretor-geral dos Negócios Económicos e Financeiros da UE avisou, já em março, que a defesa contra o contágio brutal de covid-19 fará que a crise, então surpreendente, implicaria "uma redução do produto interno bruto de 25 pontos em 2020", enquanto o comissário da Economia, Valdis Dombrovskis, acentuou que "estamos prontos a intervir porque a epidemia ataca a sabedoria tecnológica e prevendo a económica crise geral". A peste negra, que agora lembra com a dimensão global da pandemia, é um facto que vem à memória dos responsáveis pela segurança do ataque imprevisto, sobre o qual imediatamente doutrinou, publicamente, o respeitado general Abel Cabral Couto, 94 anos, pondo em claro a citação de Clemenceau "de que a guerra é um assunto demasiado sério para ser confiado apenas aos militares".

A participação atual das forças armadas na defesa contra a liquidação de milhões de seres humanos dá relevo ao pensamento avisador de que os ataques terríveis não são apenas os dos combates com armas. Por isso a governança atual mostra uma união contra o perigo, a cujo fim o general promete estar vivo até ao ponto final. Não é de acolher, entre vários países, o que inclui o nosso, que o esforço, e acordos, de investigadores, profissionais das ciências médicas, responsáveis pela segurança, e recursos da população em crise, se manifestam da Europa aos EUA, sejam desconsiderados por ações destruindo novamente ao lado dos vivos os valores, sobretudo relacionados com a história. A história nacional não é legitimamente recebida a "benefício de inventário", mas antes enfrentando, com liberdade, a defesa dos valores que ficaram inscritos no Património Imaterial da Humanidade. Estão hoje na UNESCO.

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