A maioria razoável

Irresistible é fraco enquanto filme, esporadicamente engraçado enquanto comédia e profundamente desinteressante enquanto sátira política. Poderia passar despercebido.

Há uma fórmula de anedota transversal a várias culturas, uma variação dupla sobre o "peixe fora de água" e o "as coisas afinal não eram bem assim!", que tipicamente envolve um sofisticado "senhor da cidade" (seja Nova Iorque, Londres ou Lisboa) a interagir com "gentes simples do campo" (seja o Midwest, Yorkshire ou o Alentejo), e a ver-se comicamente ludibriado quando a sua sofisticação não lhe permite detectar a superior esperteza dos locais. A mais impressionante proeza de Irresistible, um filme optimisticamente promovido como "sátira política", e disponível na Amazon Prime desde o início do mês, é conseguir espremer esta fórmula para lá dos limites da anedota de 20 segundos, transformando-a num enredo de 141 minutos.

A história começa no rescaldo da eleição de Trump em 2016 com o protagonista, um dos estrategas (fictícios) da campanha derrotada, na cama, debaixo de um cobertor, de uma ressaca e de um telemóvel que não pára de tocar, enquanto vários televisores resumem o evento chocante que acabou de ocorrer. O estratega é arrancado ao seu torpor por um vídeo viral: numa assembleia municipal em Pequena Cidade, estado da Parvónia, um homem aproxima-se do microfone e comete um discurso apaixonado contra uma lei que vai prejudicar imigrantes ilegais. A retórica usada (moralista mas progressista) e a pessoa que a usa (viúvo, veterano de guerra) são imediatamente identificadas pelo estratega como aquilo que a sua profissão o treinou para identificar: símbolos para vender a um eleitorado hipotético. O estratega viaja até à Parvónia, onde não há queijo mozzarella nem passwords de wi-fi, e convence o viúvo viral a candidatar-se ao cargo de mayor. O seu súbito interesse desperta o súbito interesse do partido rival, representado por uma loura estratega republicana com quem o moreno estratega democrata troca insultos e lambidelas no rosto. Entre ambos, o que seria uma mera eleição para presidente da Junta é transformado numa corrida eleitoral simbólica, com cobertura nacional e financiada por dezenas de milhões de dólares pouco higiénicos.

O filme é fraco enquanto filme, apenas esporadicamente engraçado enquanto comédia e profundamente desinteressante enquanto sátira política. O mais provável seria passar despercebido se não fossem as cinco palavras que se podem ler durante os créditos iniciais: "Escrito e realizado por Jon Stewart". Esta circunstância é a principal responsável pela criação de um fenómeno que de vez em quando acontece: as críticas ao filme, sobretudo na imprensa americana, têm sido bastante mais interessantes do que o filme em si. Não sendo todas uniformemente negativas, muitas delas transmitem duas curiosas ideias centrais - mais do que ser um filme medíocre, Irresistible é "uma desilusão"; mais do que ser uma sátira inócua, Irresistible "não é útil", ou "surge no momento errado".

Passaram cinco anos desde que Jon Stewart deixou de apresentar o Daily Show, e essa distância por vezes parece separar não apenas cinco anos de calendário, mas dois mundos diferentes, mas uma das coisas que não mudaram foi algo que ele contribuiu decisivamente para construir: um estilo de imaginação política que se habituou a encarar uma certa subcategoria de comediante - o apresentador de programas nocturnos que combinam informação, opinião e entretenimento - como uma mistura de cientista (trabalhando metodicamente para nos apresentar os factos) e figura messiânica (perfurando os véus das ilusões para revelar a Verdade). Durante 15 anos, e para muita gente, Jon Stewart foi a voz da Razão, ou pelo menos da razoabilidade - como depois foram John Oliver ou Samantha Bee. Quando figuras elevadas a esta dimensão de expectativas se revelam pontualmente tão falíveis ou equivocadas como qualquer outra pessoa que ganha a vida a dizer coisas na televisão, é natural que a resposta seja falar em "desilusão".

Nos melhores anos no Daily Show, o grande mérito do programa foi traduzir para um formato mais popular o tipo de crítica mediática que só se costumava encontrar em currículos universitários: mostrar, através de sobrecarga de exemplos e justaposição cómica, como grande parte daquilo a que chamamos "cobertura informativa" ou "ciclos noticiosos", longe de serem forças impessoais, como a meteorologia, são criações humanas, feitas de códigos, hábitos conscientes, maneirismos inconscientes, erros e patetice. Mas porque o principal alvo eram ciclos noticiosos sobre o processo democrático ou eleitoral, também ajudou (talvez inadvertidamente) a cristalizar uma identidade política tremendamente apelativa e fácil de adoptar como postura passiva: ver a política como teatro, feito de fórmula, e pose, e repetição - algo intrinsecamente ridículo assim que os códigos se tornam aparentes. O apelo desta postura é óbvio, é comprovado pela facilidade com que alguns dos seus elementos foram exportados para realidades tão distintas da americana. (O generalizado tique online de reduzir algumas interacções na Assembleia da República a vídeos de 50 segundos em que alguém ARRASA o seu interlocutor tem os segmentos do Daily Show no seu genoma, mesmo que não o saiba).

Além de elidir o facto de haver coisas piores na politica que o ridículo (nomeadamente aquilo que acontece quando alguns actores políticos deixam de ter medo do ridículo), o principal defeito desta abordagem é reconfigurar o sentido de "razoabilidade", transformando a moderação num fetiche retórico, independente do seu conteúdo. Se a máxima prioridade política é não estar do lado dos ridículos, e se essa fluência nos códigos da política e da informação tornaram tão fácil detectar o ridículo, torna-se apelativo imaginar uma maioria secreta de pessoas razoáveis e cheias de senso comum que, se calhar, até concordam sobre as soluções correctas para muitos problemas. Tudo isto tem o potencial para degenerar na maior mentira que qualquer pessoa minimamente interessada no processo político pode contar a si própria: tenho imensa razão, e toda a gente razoável concorda comigo; o resto é apenas maluquice, e teatro na televisão.

É algo que Irresistible faz, de forma deliberada e sistemática: separar as condições materiais da política e a imagem dessas condições projectada pelo aparato constituído por cadeias de televisão, ciclos noticiosos, consultores políticos e comentadores, ignorando as primeiras e posicionando a segunda como o local da sua intervenção. Era algo que funcionava muito melhor no Daily Show do que num filme, em que a mesma postura pode mais facilmente ser interpretada como condescendência, inépcia narrativa, ou até desonestidade, em vez de humildade pragmática.

O que o enredo faz é adoptar o velho espantalho da pura objectividade jornalística (algo que nunca existiu nem deve existir): condenar os "dois lados", não pelo seu conteúdo ideológico, mas por serem ambos cúmplices na cínica instrumentalização da ideologia. Uma crítica que só faz sentido se se acreditar implicitamente na existência de uma realidade exterior a esses filtros, habitada (supõe-se) por pessoas que não vêem televisão, ou pelo menos não lhe ligam grande importância. Na realidade do filme funciona, não porque ninguém veja televisão, mas porque todos os habitantes da Pequena Cidade pensam da mesma maneira: todos, sem excepção; ninguém liga ao "ruído" e portanto ninguém discorda sobre nada importante. Longe de ser uma "desilusão" vinda de Jon Stewart, é mais ou menos o que ele sempre acreditou ser o objectivo derradeiro da política, quando vista de forma razoável: milhões de pessoas a descobrirem que têm as mesmas opiniões e, sendo assim, zero motivos para se chatearem. É teoricamente possível alguém acreditar nisso e fazer uma boa sátira política, mas será sempre uma sátira involuntária.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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