Ronaldo e uma Velha Senhora italiana: vai ser uma história de amor?

Os desafios, os recordes e o que fica para trás. Ronaldo chegou a Itália

Heptacampeã em título, dona e (Velha) senhora do calcio, no top 10 dos clubes de futebol mais ricos do mundo, a Juventus é de longe o grande clube italiano. Ao monopólio interno só lhe tem faltado, nos últimos anos, acrescentar a conquista da Europa, onde tem esbarrado sobretudo no maior poder de atração que outros gigantes de outras ligas europeias têm exercido sobre as principais estrelas do futebol mundial.

Aos 33 anos, Cristiano Ronaldo sente-se "empurrado" do Real Madrid pela despiedada presidência de Florentino Pérez, que vê na juventude criativa de Neymar um glamour irresistível e quer dar já ao brasileiro os comandos (no relvado) do Real do futuro, recusando premiar a longevidade e os resultados do português com mais uma melhoria substancial de salário. Ronaldo já percebeu o filme, mas ainda sente ter futebol para dar e vender ao mais alto nível europeu, não estando disposto a abdicar do trono de principal figura da sua equipa.

Feitas as apresentações, está fácil de perceber que Juventus e Cristiano Ronaldo teriam tudo para se dar bem nesta altura das respetivas vidas. Olhemos para os efeitos que uma mudança de CR7 para Itália pode implicar.

O último desafio para Ronaldo?

Depois de se tornar um dos melhores do mundo no Manchester United e de se consagrar como uma referência histórica do futebol no Real Madrid - ganhando títulos nacionais e europeus e prémios de melhor do mundo em cada um deles -, Cristiano Ronaldo pode reforçar o seu legado ao alargar até Itália a sua carreira de sucesso.

A Juventus é a opção menos arriscada no que toca a aumentar a coleção de títulos coletivos, pois monopoliza os principais troféus do futebol italiano nos últimos anos - além do recorde de sete campeonatos consecutivos, juntou-lhes nos últimos quatro também a Coppa de Itália. Isto é, uma 'tetradobradinha', desde que o atual treinador, Massimiliano Allegri, sucedeu a Antonio Conte.

A nível individual, Cristiano tem o desafio de triunfar num dos países e campeonatos historicamente mais exigentes para os avançados. Itália ganhou a fama de ser a Meca do pensamento tático e a pátria do catenaccio. E se a arte de bem defender já conheceu melhores dias na "bota da Europa" - as médias de golos marcados por jogo na Serie A italiana aproximaram-se, nas últimas temporadas, às das outras ligas que compõem as Big Five - esta não deixa de lançar um ar desafiador a quem tem por missão fazer golos.

Para Cristiano Ronaldo, ser capaz de, aos 34 anos (que completa em fevereiro), juntar um título de melhor marcador em Itália aos que colecionou em Espanha e Inglaterra, por exemplo, seria mais uma prova de um fora-de-série intemporal.

Novo fôlego para a Serie A

Os tempos de sedução do campeonato italiano ficaram perdidos no século passado, numas décadas de 1980 e 1990 em que os clubes transalpinos impunham o rigor tático na Europa e atraíam as grandes figuras do futebol mundial, de Maradona a Van Basten, Matthaus, Batistuta ou Rui Costa, entre tantos outros. A viragem do milénio trouxe novas paisagens ao futebol europeu, com Inglaterra e Espanha a assumirem-se como os principais mercados de atração para as estrelas da bola.

A Serie A começou a definhar e os clubes italianos começaram a sofrer na Europa. A última equipa italiana a ganhar a Liga dos Campeões foi o Inter de Mourinho, em 2010. Por isso, Itália, que em 1999 era o país que liderava o ranking da UEFA nas competições europeias de clubes, está agora apenas como o terceiro melhor campeonato, depois de sido mesmo remetido para o quarto lugar ao longo dos últimos oito anos - atrás de Espanha, Inglaterra e Alemanha.

Atrair uma figura como Cristiano Ronaldo, cinco vezes Bola de Ouro, atual melhor do mundo em título, é um trunfo promocional como há muito a Serie A não consegue ter

Atrair uma figura como Cristiano Ronaldo, cinco vezes Bola de Ouro, atual melhor do mundo em título, é um trunfo promocional como há muito a Serie A não consegue ter. Ainda para mais num ano em que a própria seleção italiana falhou pela primeira vez em 60 anos a presença num campeonato do mundo de futebol.

Ronaldo pode abrir portas ao interesse de outras estrelas e espicaçar para um maior investimento os principais concorrentes da Juventus, como o Nápoles - que nesta época terá a curiosidade de ser treinado por Carlo Ancelotti, ex-treinador de Ronaldo no Real Madrid.

A Champions, claro

Para a Juventus, Cristiano Ronaldo significa o que lhe tem faltado nos últimos anos: a capacidade para ganhar a Liga dos Campeões - que o avançado português ganhou por quatro vezes em Madrid, três delas consecutivas nos últimos três anos e em dois deles com a Juventus como vítima pelo percurso.

Em 2017, a Velha Senhora caiu perante Ronaldo e companhia na final, por 4-1. Homem do jogo? CR7, com dois golos. Na época passada, o confronto deu-se mais cedo, nos quartos-de-final, com o mesmo desfecho. Vitória para o Real Madrid, graças a um contundente 3-0 em Turim, na primeira mão, num jogo em que brilhou (quem? quem?...) Cristiano Ronaldo.

Mais dois golos do português, um deles num pontapé de bicicleta para a história, que deixou rendidos até os adeptos da Juventus, que aplaudiram em pé o avançado do Real Madrid. Se a Velha Senhora é, hoje, opção que seja para Cristiano, esse momento de empatia, que o jogador agradeceu logo em campo, terá o seu peso.

Cristiano Ronaldo não só ganhou as últimas três edições da Liga dos Campeões, como é o rei individual da prova. O jogador que mais golos marcou (121), o que mais títulos de melhor goleador conseguiu (sete, entre os quais os últimos seis! - repartiu o de 2014/15 com Messi e Neymar).

Se alguém pode "ensinar" a Juventus a voltar aos títulos de campeão europeu, é Ronaldo. E, fazendo-o, o português acrescentaria mais um feito histórico ao currículo: igualar Seedorf (Ajax, Real Madrid e AC Milan) como únicos jogadores a ganhar a Champions por três clubes diferentes.

O império Fiat e o dinheiro dos Agnelli

Fundamental para viabilizar uma mudança de Cristiano Ronaldo para a Juventus é, naturalmente, o poderio financeiro de um clube suportado desde 1923 pelo império da família Agnelli, dona da Fiat.

Atualmente, a Juventus é detida em 60% pela Exor, holding com sede na Holanda e liderada pela família Agnelli, que engloba a Fiat, Chrysler e Ferrari, entre outras empresas, como a Economist Group, da área dos media. Segundo a revista Fortune, é o grupo económico com maior volume de vendas em Itália e o 20.º no mundo, com uma capitalização estimada em mais de 20 mil milhões de dólares.

O clube de Turim é o único emblema italiano entre os dez clubes mais ricos de mundo

Isso alimenta naturalmente a ambição da Juventus em chegar ao topo da Europa e faz com que o clube de Turim consiga ser o único emblema italiano entre os dez clubes mais ricos de mundo, segundo a última lista anual divulgada pela consultora Delloite, com receitas superiores a 400 milhões de euros.

Uma robustez financeira que torna possível oferecer 30 milhões de euros anuais a Cristiano Ronaldo e acenar ao Real com 100 milhões pelo capitão da seleção portuguesa - o que lhe permitiria bater mais um recorde mundial de transferências, para um jogador com mais de 30 anos.

A rotura com Florentino

Para trás fica uma era insuperável no Real Madrid, onde Cristiano Ronaldo se tornou o melhor goleador da história do clube, pulverizando marcas de nomes lendários como Raúl ou Di Stefano.

Foram 450 golos em 438 jogos pelos merengues, numa incrível média de mais de um golo por jogo ao longo das nove temporadas que passou no Santiago Bernabéu.

Uma era coroada com quatro Bolas de Ouro, quatro Ligas dos Campeões, três campeonatos do mundo de clubes, duas ligas espanholas e um sem fim mais de feitos e recordes que tornaram este um dos mais felizes casamentos da história. Os 94 milhões de euros que o Real Madrid pagou ao Manchester United em 2009 - recorde mundial na altura - ficaram mais do que rentabilizados.

Agora, os interesses de Cristiano Ronaldo e de Florentino Perez deixaram de encaixar. O presidente empresário deixou-se encantar por outro mais jovem.

Sentindo-se traído - Florentino regateou a promessa de aumento salarial -, magoado, com o fisco à perna, Cristiano pode procurar a felicidade noutro lugar. E talvez a encontre nos braços de uma Velha Senhora do futebol.

* com Isaura Almeida

**Este texto foi inicialmente publicado no dia 7 de julho e atualizado com a confirmação oficial da contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus

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