Sísifo

As crises são tempos de ruturas e de adaptações. Tempos de recomeços da vida, promovidos pelo divino ou pelo acaso. Rompendo velhas normalidades, tradicionais dinâmicas, sempre forçando as pesarosas rotinas e visando o avanço humano.

O evolucionismo dirá que impera a adaptação. Não fica quem é mais forte ou maior, fica quem se adapta melhor, quem tem maior resiliência, para usar o termo do momento. Mas, se isso é uma verdade das espécies, pode ser tratado pela sociedade, pela sua organização e pelas suas estruturas.

O tempo tem mostrado que, mesmo quando as crises são globais, as suas repercussões são profundamente desiguais. Mais: são mais desiguais onde já havia desigualdades, reforçando-as.
Só que a adaptação não é um processo exclusivamente natural. É, sobretudo, um processo social, onde o modelo de sociedade intervém como inibidor ou como catalisador. Os impactos diferenciados da crise decorrem das estruturas existentes, das opções históricas e políticas. Esta crise em concreto, uma crise pandémica, mostrou que as lideranças contam, que os modelos de organização social fazem a diferença. Temos respostas públicas, de um Estado organizado e solidário, pulverizando nos territórios o poder de intervenção. Igualmente privadas, com organizações empresariais ou outras, assentes na responsabilidade social e num projeto coletivo de sociedade inclusiva. E respostas mistas, com a experiência histórica da economia social a relembrar as suas enormes potencialidades.

Portugal vive este processo, uma pandemia que impõe total arrojo para superarmos os desafios sociais, com a força de um país extraordinário e que resiste aos desafios de quase 900 anos de história.

A resiliência não é uma abstração. São pessoas concretas, governantes, empresários, trabalhadores mais ou menos qualificados, gente comum que luta diariamente pelos filhos e pelo presente, à procura de um futuro. Fazem a nossa história, transformam o presente num passado digno, com o suor nos rostos, um suor que dissimula as gotas que brotam dos olhos.

Também aqui recomeçamos. Recomeça o DN, fazendo do novo ano uma nova energia. Nesta esperança de recomeço de ano, de vida e de projetos, sentimos a força de Portugal e das suas pessoas. E sentimos a inspiração das palavras de Torga:
Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

(Miguel Torga, "Sísifo", Diário XIII)

Presidente da Câmara Municipal de Gaia e da Área Metropolitana do Porto

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