Presidência da União Europeia: agir, mesmo

O ano de 2021 arranca sob o signo da presidência portuguesa da União Europeia (UE). O lema está escolhido e o sol feito símbolo. Pena que a preferência não tenha recaído no azul do mar, correspondente a uma impressão digital portuguesa, por exemplo, na importância da "recuperação azul", no reforço do pilar atlântico numa UE sem Reino Unido, ou na reabertura do diálogo para um acordo de comércio com os EUA, renovada a administração americana.

Mas o sol radioso também cumpre o sinal de esperança de que se faz a nossa vivência pessoal e coletiva. Se 2020 foi o ano da desesperança, que 2021 seja o ano da esperança. Não apenas vaga, mas concretizada. Que as vacinas arrumem o já longo episódio da pandemia e permitam retomar o olhar crítico e a ação construtiva para tudo o resto; é talvez o que todos mais desejamos.

Tudo o resto não é pouco, é muito, é a forma como vivemos e progredimos em sociedade. Como construímos uma sociedade justa, onde todos e cada um, mulheres e homens, jovens ou idosos, encontram e constrem o seu percurso. Como garantimos um olhar e ação humanos sobre as pessoas em situação de maior fragilidade, criamos uma cultura do cuidado, como sublinha o Papa Francisco na mensagem do dia 1 de janeiro, e asseguramos que ninguém fica esquecido.

Como integramos a dimensão ambiental e a tornamos cocriadora da nossa vivência, no respeito pela nossa casa comum e pelas gerações vindouras, não apenas de pessoas, mas de todas as espécies no respeito, na proteção e na recuperação dos ecossistemas do planeta. Como aproveitamos o salto digital a que a pandemia obrigou e o filtramos na lente do respeito pelas pessoas e do reforço dos direitos humanos, estejamos a falar de integração digital, de teletrabalho ou da miríade de trabalhos desumanos que tantas vezes o mundo digital promove tanto quanto esconde. Como garantimos que a proximidade do virtual não substitui a proximidade física, antes significa mais abertura a um mundo complexo, rico em diferenças e identidades, que queremos conhecer, compreender, respeitar e colocar em diálogo fecundo, num respeito crescente pelo imaterial e espiritual.

Só pode ser ator transformador no mundo quem antes se construiu com solidez. É também esse o mote para Portugal ao presidir à UE. Aos três desafios constantes da sobrevivência da humanidade - alimentação, água e energia - damos respostas diferentes, consoante o conhecimento de cada momento. Hoje a ciência explica-nos que todas estas necessidades só podem ser satisfeitas no respeito absoluto pelo ambiente, num equilíbrio que urge retomar, com o clima a servir de termómetro indeclinável. A Europa, responsável por parte relativamente pequena das emissões de carbono, tem estado na linha da frente na definição de políticas e na vinculação a compromissos em benefício do clima e do ambiente. Importa cumprir os roteiros adotados, do Green Deal para 2030 à neutralidade carbónica para 2050.

Ao mesmo tempo, urge demonstrar às pessoas como tudo isto pode transformar positivamente as suas vidas, não apenas no futuro mas também agora, no seu trabalho, no seu rendimento. Prescindir disso é arriscar a incompreensão e o desligamento. Garantir o sucesso dessa compreensão depende essencialmente da pedagogia nascida da prova de ação concreta e real. É preciso que todos sintam na pele os benefícios. Que a ação não se perca no slogan.

P.S.: 28 de setembro de 1974 foi o único dia que o DN não saiu. Por coincidência é o dia em que nasci. É por isso um gosto acrescido poder colaborar neste novo desafio de regresso diário ao papel. Felicito a Rosália Amorim, primeira mulher diretora do DN, e toda a sua equipa. Que seja um sucesso!

Professora da Nova School of Law. Coordenadora do mestrado em Direito e Economia do Mar

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