O mundo como ele é

Num estudo de opinião realizado em 2017 pela Ipsos e pela Fundação Gates, que entrevistou pessoas em 28 países, 52% das pessoas afirmaram que a proporção da população mundial que vive em extrema pobreza aumentou nos últimos 20 anos. Ou seja, a maioria pensa que a pobreza está a aumentar quando, de facto, está a suceder o oposto. E pior, estas pessoas identificam os últimos 20 anos, precisamente a vintena em que a pobreza mais e mais rapidamente desceu, como sendo anos de aumento de pobreza.

A verdade é que temos hoje o número mais baixo de sempre em pobreza extrema. Se tivermos em conta os sete anos de 2008 a 2015, o número é impressionante: em média, 192 000 pessoas saem por dia da pobreza extrema.

Não é só na pobreza que as nossas perceções estão erradas. Veja-se o caso da mortalidade infantil.

Em cada mil crianças nascidas em 1960, uma média de 108 morria antes de perfazer 5 anos. Em 2011, esse número caiu para 28. Na África subsariana, uma em cada quatro crianças morreu no início dos anos 60 - hoje é menos de uma em cada dez. A mortalidade infantil está hoje abaixo dos 4% - uma taxa dez vezes menor do que há dois séculos, e constitui um dos maiores êxitos da humanidade.

Ora, quando perguntados se nos últimos 20 anos a taxa de mortalidade infantil nas regiões em desenvolvimento aumentou ou diminuiu, apenas 39% dos inquiridos responderam que a mortalidade está em queda. Ou seja, perante um dos maiores êxitos da humanidade, o mundo acha que a mortalidade está na mesma ou a aumentar.

Como é possível haver um desacerto tão grande entre a nossa perceção e a realidade?

Com perceções tão erradas, não admira que, noutro estudo, desta feita do YouGov, em 2015, a esmagadora maioria dos inquiridos tenha respondido que o mundo estava a piorar e não a melhorar. Menos de 10% dos inquiridos na Austrália, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Singapura, Estados Unidos, Noruega, Finlândia ou Dinamarca, tudo países desenvolvidos, acham que o mundo está a melhorar.

A verdade é que o estado do mundo não aparece nos jornais. Ninguém noticia que hoje saíram 192 000 pessoas da pobreza extrema, por exemplo. Ninguém noticia o quanto estamos mais ricos hoje. E é pena, porque são factos, e o jornalismo é feito de factos, e os sucessos do mundo global também são factos. Dizer o que está bem não implica ignorar o que está mal, nem implica aderir a qualquer agenda política: é apenas relatar a verdade.

Como recorda Steven Pinker numa entrevista que tenho citado várias vezes, uma das funções do jornalismo é a de prestação de contas: do que funciona bem e do que funciona mal. E exemplifica: lembramo-nos das imagens dos anos 70 de crianças africanas com barrigas inchadas, mas não as temos das crianças africanas de hoje que já tomam o pequeno-almoço, vão à escola e arranjam trabalho. Não as vemos porquê, se são verdade?

Queremos evitar o populismo? Talvez fosse bom noticiar o mundo como ele é. É uma boa resolução de ano novo.

Advogado

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