Janeiras

Não que isso faça delas defensoras do aquecimento global, mas as portuguesas são as mulheres do mundo que mais se queixam do frio. Não é na Gronelândia nem nas noites frias da savana, é em Lisboa, Tomar, continente e ilhas, que mais se sofre com o frio, basta andar por aí de ouvidos abertos. É um sofrimento genuíno, que as portuguesas não são fingideiras, são queixas intrínsecas de quem sofre mais com o frio do que um lagarto na neve, amazonas da reação climática.

Ainda hoje, duas no metro, de meia-idade, confiantes, atrativas na sua morenice madura, falaram das camadas de roupa que traziam, e trazer é o verbo a usar quando se fala de camadas de roupa que se trazem, só trago isto por baixo, vês, disse ela, e mostrava, e eu pudicamente não olhei, mas sei o que ela estava a fazer porque é um gesto que já vi muitas vezes fazerem, que é inclinar para trás a mão esquerda dobrada pelo pulso, e puxar um pouco da camisola interior para mostrá-la na sua suavidade (cheiraria a corpo e amaciador já, ou só a amaciador ainda?), e quando terminou o gesto olhou para mim para ver se eu tinha olhado, mas eu já tinha dito que não, mas ela não sabia, ou sabia e olhou na mesma, talvez sabendo que gosto muito de pulsos e de camisolas interiores. Talvez tivesse ficado a pensar que tinha visto pela visão periférica. Mas não, não vi nada, mas sei o que fizeste, e tu sabes que eu sei, apesar de teres preferido que eu tivesse olhado. E só trazia aquilo - que presumo ser a morna, macia e cheirosa camisola interior, com aquele toque real de já ter sido usada e lavada vezes que contam - e mais o que trazia por cima à vista, porque o comboio vem sempre muito quente e mesmo que a gente se dispa logo que entre, mesmo assim é muito calor, e depois a gente anda sempre constipada quando sai para a rua.

E quando disse que se despia toda logo que entrava no comboio voltou a cruzar o olhar com o meu, e aí como já não se tratava de olhar para uma peça de roupa interior a deslizar pelo antebraço admito que não deixou de haver uma sincronicidade levemente marota, mas apenas muito leve, porque a amiga estava ao lado, e a carruagem cheia, e tudo o resto que passa na cabeça quando se cruza mesmo mais ao de leve a mais grossa linha; e talvez por isso, e porque já tinha falado em se despir, e tinha mostrado a roupa interior, sentiu necessidade de trazer respeito à coisa e contou do marido, um chato, mas com voz de elogio, um chato sinónimo de o meu é melhor do que o teu, e o tal marido um chato, na noite de fim de ano, só quis andar a entrar e a sair, e depois constiparam-se, imenso calor dentro dos sítios e um frio enorme na rua. Não reagi ao marido querer sempre andar a entrar e a sair porque tenho quase a certeza de que não viu nisso, ela, uma segunda leitura, que a maior parte das mulheres são muito alheias à brejeirice hermenêutica; a outra não comentou isso do marido dela, mas fez questão de ripostar logo que tinha passado a noite em vários sítios com uma amiga, só as duas, o que nas regras não escritas do xadrez das relações humanas, do olho por olho do campeonato de umas vidas contra as outras, que existe mesmo, e se calhar até mais, em contextos de consideração, amizade e respeito mútuos, significa esse marido pode ser só teu, e ser um chato-querido, cheio de iniciativa e de genica, e vontade de entra e sai, mas eu estive com uma amiga, só as duas, e tu sabes o que isso pode significar, o espetro da possibilidade livre de culpa, que tu por vezes imaginas mas não confessas e eu tive e tenho, o teu marido palhacito contra a minha liberdade infinita, e continuou, chegámos ao carro no fim da noite e o número já era seis, e quando saímos era dez.

Calculo que chamasse número aos graus, e isto nunca tinha ouvido eu, chamar número aos graus, e queria ter perguntado se era mesmo, mas não podia, porque isso era cruzar a linha, e podiam depois ter conversas menos carregadas de sentidos. Mas logo depois saiu a dos números e que tinha ido com a amiga, e fiquei eu e a do marido, a da camisola interior. Instalou-se um silêncio entre nós, daqueles como quando esfriam as coisas, e acabei por sair eu primeiro, sair para o frio de janeiro, para a luz mais bela e auspiciosa dos últimos janeiros.

Advogado

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