A política esconde-se atrás de um incêndio

O que está a acontecer na Austrália parece ter sido encomendado por um demiurgo estranho que nos quisesse mostrar o que pode passar-se se tudo se passar como não deve. Como aqueles miúdos das orelhas de burro colocados ao canto da sala. Como uma pena exemplar dada por um tribunal para evitar mais crimes. E, neste caso, retorcidamente aplicada. À hora de publicação deste artigo havia uma povoação de mais de quatro mil pessoas encurraladas entre o fogo e o mar. E muitas outras foram obrigadas a sair das suas casas, deixando-as à mais que certa destruição pelo fogo.

O lugar das vítimas e o desespero para as salvar fará que nestes dias, na Austrália, se esqueça, e bem, tudo o que levou a esta situação. Um terço da população australiana está a ser afetada, de uma maneira ou doutra. E a sua totalidade terá na boca o credo, e no coração o aperto de quem vê o seu modo de vida ameaçado.

Tudo isto não fez que a Austrália ardesse, obviamente, mas fez que fizesse parte de um sistema que propicia as circunstâncias para esses fogos.

Na verdade aquilo que as chamas e a tragédia estão a esconder primeiro é a política. A política a sério, que tem efeitos na vida, mesmo quando nem sempre esses efeitos são escrutinados como deviam. Facto: a Austrália é dos países que mais têm lutado - institucionalmente - contra as medidas de prevenção às mudanças do clima. O seu governo, conservador, assobia para o lado e nega que haja qualquer tipo de problema. Nega até a emergência climática, apoiado por uma imprensa sensacionalista e, também ela, conservadora - já lá iremos.

"Desde 1996 que todos os sucessivos governos conservadores australianos lutam, com sucesso, para subverter os acordos internacionais sobre o clima em defesa das indústrias fósseis locais. Hoje o país é o maior exportador mundial de carvão e gás. E recentemente estava na posição 57 de 57 países em ação pelo clima." Tudo isto denunciava o escritor Richard Flanagan num texto no jornal americano The New York Times.

Tudo isto não fez que a Austrália ardesse, obviamente, mas fez que fizesse parte de um sistema que propicia as circunstâncias para esses fogos. E que tem de ser seriamente questionado, abordado, olhado de frente.

O problema é quem questiona. Também aí, a política. É que a própria imprensa tem estado sob forte ataque, na Austrália. Em outubro do ano passado, cobriram-se de negro as primeiras páginas dos jornais independentes para protestar contra uma nova legislação que impedia a denúncia de situações de corrupção e não dava qualquer proteção aos "denunciantes" permitindo ao Estado fazer raides em redações e prender jornalistas nessa base (como, de facto, aconteceu). O governo tem sido apoiado por uma imprensa também ela conservadora e também ela negacionista climática - 60% do mercado é dominado pelos títulos news corp de Rupert Murdoch.

Também isto é política, no sentido cívico do termo. Uma imprensa com medo é uma imprensa frágil. O contrário do que precisa a luta contra os interesses instalados, os que vivem da não mudança do estado das coisas - o que, no caso da Austrália, significa, por exemplo, a indústria do carvão, altamente poluente.

E, no final da política, a floresta. A floresta muito semelhante à portuguesa no seu tipo original, muito densa, muito seca, autêntico barril de pólvora à espera do rastilho do aquecimento global, dos invernos cheios de chuva e da seca que se lhes segue normalmente. A floresta desordenada e não tratada. A floresta que torna os fogos inapagáveis, desde que assumam certa proporção - com fenómenos próprios dentro do fogo, como o tão famoso downburst. Parece uma história que conhecemos, e que podemos vir a ter de ouvir mais uma vez.

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