"Sá Carneiro nunca quis satisfazer interesses privados ou eleitoralistas"

Francisco Sá Carneiro era um homem de convicções, tanto na sua vida pessoal como na vida política. Para o fundador do PPD/PSD os partidos só fazem sentido se servirem para melhorar a vida das pessoas. Nunca para satisfazer interesses privados ou eleitoralistas.

No preciso momento em que os partidos e a vida democrática em geral atravessam um período de grandes mudanças, interrogações e mesmo de alguma desilusão junto dos eleitores, é importante relembrar os valores e o perfil de um homem que marcou a história do país e do PSD: um homem de características únicas que influenciou a sua geração e continua a inspirar mulheres e homens do nosso tempo.

Os partidos têm de atualizar-se, mostrar que não existem para servir clientelas, ser capazes de atrair não apenas os abstencionistas em geral, mas também gente mais nova, com competência e disponível para demonstrar que está na política para lutar pelos valores essenciais da democracia.

A firmeza das suas convicções era acompanhada de um real e efetivo interesse por quem tinha ideias diferentes ou até contrárias às suas; características cada vez mais raras no espectro político português e europeu, em que os extremismos e a intolerância dominam os discursos e as ações. Por isso mesmo, foi respeitado pela maioria ao mesmo tempo que conseguiu arrastar consigo multidões que viam nele a esperança de um país mais igualitário e socialmente mais justo e mais moderno.

São estes traços de personalidade que contrastam com os políticos que apostam tudo na encenação partidária. Precisamos que as suas características continuem vivas, particularmente numa época em que mais falta fazem. Por serem mais escassas, têm mais valor e devem ser valorizadas. É por isso que esta evocação, 40 anos após a sua morte, faz todo o sentido. Com esta iniciativa, estamos a relembrar o homem e o político e estamos a dá-lo a conhecer às novas gerações.

A nossa cultura perdura no tempo, embora com ajustamentos. A nossa matriz passa de pais para filhos, de geração em geração. Por isso, as características de Francisco Sá Carneiro, como a frontalidade, a coragem e o humanismo, são aquilo que os militantes do PSD e muitos portugueses recordam e admiram. Um partido heterogéneo, que representava a classe média e a média das classes.

O que aconteceu nestes anos de democracia foi retirar um número muito significativo de pessoas e trazê-las da pobreza para a classe média. Mais de quatro décadas depois, este é um problema que deve voltar a preocupar-nos, pois sem uma classe média forte e robusta, as desigualdades vão continuar a acentuar-se.

Durante a sua curta vida política e partidária, integrou a chamada Ala Liberal entre 1969 e 1973 e fundou o PPD/PSD em 1974, no pós-25 de Abril, um partido do centro-esquerda, como o definiu na altura. Lutou contra a ditadura, pela igualdade de direitos e de oportunidades, defendeu a revisão da Constituição, a amnistia para os crimes políticos, e insurgiu-se contra a Guerra Colonial. Lançou as bases para a mudança, de forma presente, na Assembleia Nacional. Não tinha medo de dizer e de viver o que pensava, algo que nos deve inspirar muito nos dias de hoje.

A preocupação com o politicamente correto, a tendência para seguir o mainstream e a falta de coragem na gestão da coisa pública são os principais fatores que têm vindo a degradar a democracia. E se em 1974 era urgente liberalizar a democracia, hoje é urgente reformá-la.

Na liderança do partido, Francisco Sá Carneiro atacava o peso do aparelho militar e as orientações estatizantes socialistas, enquanto defendia os direitos dos trabalhadores, o interclassismo, a abertura à Europa e a liberdade de imprensa.

Entrou e saiu do partido, por vezes com estrondo, em discordância com os seus pares, com total desprendimento pelo poder, mas sempre na defesa de um país livre, alicerçado nos valores e princípios da social-democracia, onde se destacava uma agenda reformista.

Em julho de 1979, com Freitas do Amaral, do CDS, e Ribeiro Telles, do PPM, além dos Reformadores, forma a Aliança Democrática, que liderou com o objetivo de derrotar a maioria de esquerda nas eleições intercalares, após a dissolução da Assembleia da República. Conseguiu alcançar a maioria absoluta e foi chamado a formar o VI Governo Constitucional.

Ficou célebre o seu desejo de alcançar um Governo, uma maioria, um Presidente. Morre a 4 de dezembro de 1980 sem concretizar este objetivo.

Foi por causa de Sá Carneiro, da sua forma de estar na vida pública e partidária, que o jovem Rui Rio decidiu filiar-se no "partido de Sá Carneiro". Foi assim que entrei para o PPD/PSD em 1974.

* presidente do PSD

Mais Notícias

Outras Notícias GMG