"Há um Portugal sonhado por Sá Carneiro que ainda está por fazer"

O líder da JSD garante que Sá Carneiro continua a ser uma fonte de inspiração para os jovens portugueses e para uma geração marcada por crises sucessivas. O que impede o país de atingir o sonho do fundador do PSD de um país mais justo, com mais igualdade de oportunidades e onde cada um pudesse escolher o projeto de vida. Alexandre Poço acredita também que para o PSD voltar ao poder, mesmo com uma nova AD, terá por parceiros apenas os partidos de centro-direita moderados.

Porque decidiu a JSD assinalar as quatro décadas da morte de Sá Carneiro com o livro 40 Anos, 40 Testemunhos?
A JSD pretendia homenagear de forma especial e singular o nosso fundador, Francisco Sá Carneiro, que sempre teve um carinho e uma admiração muito grande pelos jovens do partido e sempre foi uma fonte de inspiração para a JSD. Quarenta anos da sua morte exigia da nossa parte como imperativo que assinalássemos esta data do seu trágico desaparecimento com uma iniciativa especial. Procurámos invocá-lo através de personalidades da sociedade portuguesa, muitas delas que conheceram e privaram de perto com ele, mas também personalidades que não o tendo conhecido também bebem do seu legado.

Que legado foi esse?
Há um Portugal sonhado por Sá Carneiro que ainda não está materializado, que ainda está por fazer, até que a oportunidade de igualdades seja concretizada, até conseguirmos combater todas as desigualdades sociais, económicas e territoriais. Sá Carneiro se fosse vivo estaria muito feliz pelos avanços que conseguimos, nomeadamente por o país ter uma democracia consolidada e ser um Estado de direito da UE, mas também estaria por certo infeliz, ou teria uma grande revolta, por verificar que o país em quase 50 anos depois 25 de Abril ainda não conseguiu resolver o seu problema de atraso crónico, sendo um dos países mais pobres da União Europeia. O que tem uma tradução concreta no que é a qualidade de vida das pessoas, na capacidade de um pobre subir na vida, de o país ter melhores salários e uma melhor justiça social. Nestes testemunhos que recebemos percebemos que o fundador do PSD tinha estas preocupações de um país desenvolvido, com justiça social.

Sá Carneiro viveu numa época e num país muito diferentes do Portugal atual. É fácil a um jovem fazer a aproximação às suas ideias?
Concordo, o país de Francisco Sá Carneiro em 1980 não é o de 2020. Conseguimos avanços significativos na área da educação, da saúde, nas infraestruturas, mas há outros desafios para as novas gerações, que se prendem com a instabilidade com que enfrentam a sua vida, a capacidade de singrar no mercado de trabalho, o desemprego é brutal, o combate às alterações climáticas ou o acesso à habitação. Problemas de uma geração qualificada, que tem uma formação muito superior àquela que a maior parte dos jovens em 1980 tinham, mas que ainda assim tem desafios enormes de emancipação. Basta olhar para todos os indicadores a nível europeu para se verificar que nos índices de qualidade de vida, de desenvolvimento humano, capacidade de emancipação, salários, um jovem português está incomparavelmente numa posição inferior perante outros jovens europeus. É nesse sentido que Sá Carneiro tem uma visão para as novas gerações, que conjugava liberdade com justiça social, desenvolvimento com igualdade de oportunidades, um país soberano com capacidade de avançar com as suas escolhas, mas também integrado num projeto europeu.

Com a pandemia, que desencadeou uma crise económica e social, o país ainda estará mais longe desse sonho?
Tenho 28 anos e há uma constante na minha vida e para todas as pessoas que têm menos de 35 anos que é a palavra crise. A minha geração não conheceu outra palavra, se há uma que marca a minha geração é essa. E tem uma tradução concreta nas dificuldades em arrancar com o projeto de vida. A pandemia está novamente, após uns anos em que parecia que o país se estava a afastar de um cenário de crise, a colocar a minha geração perante a dificuldade em entrar no mercado de trabalho, as famílias com dificuldade em pagar os estudos dos seus filhos no ensino superior, as dificuldades em arranjar uma casa. Corremos o risco de voltar adiar a capacidade de cada pessoa conseguir emancipar-se e autonomizar-se e fazer o seu projeto de vida, o que era a base da visão de Sá Carneiro.

Os jovens ainda tinham a escapatória da emigração. Agora todo o mundo está em crise...
O que tem de ser uma prioridade para a minha geração é conseguir ter um país onde um jovem português se quiser fazer o seu percurso de vida em Portugal consiga fazê-lo e que não sinta estar permanentemente entre a espada e a parede ou na cepa torta . Mas como é óbvio, porque somos uma geração cosmopolita, europeísta, porque temos amigos, conhecidos e antigos colegas de faculdade em todos os cantos do mundo, não somos fechados. Essa é uma marca que Sá Carneiro deixou no PSD, na JSD, de construir um Portugal de oportunidades. Uma sociedade em que não pese em que berço e onde nasci e que isso não pese e não potencie ou limite as minhas possibilidades de futuro. Portugal é um dos países da OCDE onde é mais difícil quebrar ciclos de reprodução de pobreza de geração para geração. Penso que a frase de Sá Carneiro era "Eu quero um país onde os velhos tenham presente e os jovens tenham futuro".

Sá Carneiro conseguiu concretizar o sonho de construir uma Aliança Democrática, com o CDS e o PPM. Com a atual recomposição do centro-direta em Portugal e o surgimento de partidos como o Chega de extrema-direita, será possível repetir uma AD, nomeadamente nas próximas legislativas?
Concordo, existe uma reconfiguração do espaço à direita, mas não tenho dúvidas, segundo o pensamento de Sá Carneiro e a matriz do PSD, que tem uma ambição maioritária e de ser uma alternativa de poder, de que será capaz de no espaço do centro-direita e da direita moderada, com os nossos aliados preferenciais, ter essa vocação maioritária.

Um partido como o Chega enquadra-se nos princípios defendidos por Sá Carneiro e pelo PSD?
O PSD é um partido personalista, humanista, fundador da democracia, comprometido plenamente com o Estado de direito e com a dignidade da pessoa humana, que não discrimina ninguém, que não aceita nenhuma discriminação baseada em qualquer fator de uma condição, é um partido europeísta e que não faz a política através do ressentimento e dos ódios e inimigos. Não tenho a mínima dúvida de que o PSD jamais se afastará desta matriz.

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