Juventudes partidárias. Quatro líderes, um primeiro-ministro e 14 membros do governo

Mais de metade dos antigos líderes da Juventude Socialista chegou a funções governativas. Juventude social-democrata tem o único caso de um ex-presidente que chegou a primeiro-ministro.

A Juventude Social-Democrata tem, desde a passada semana, um novo presidente - aos 28 anos, Alexandre Poço sucede no cargo a Margarida Balseiro Lopes. Terá pela frente, como adversários políticos diretos, Maria Begonha, líder da Juventude Socialista (JS) e, durante os próximos meses, Francisco Mota, o líder interino da Juventude Popular que substituiu no cargo Francisco Rodrigues dos Santos - que em janeiro último saiu diretamente da presidência da jota para a liderança do CDS. Uma passagem que será efémera, uma vez que Francisco Mota já atingiu o limite de idade e não poderá candidatar-se ao cargo no próximo congresso da Juventude Centrista, que decorrerá no final do ano.

Já a Juventude Comunista é dirigida de forma coletiva pela direção nacional, enquanto o Bloco de Esquerda não tem uma estrutura autónoma de juventude.

Quem são os atuais líderes das juventudes partidárias? Maria Begonha, de 31 anos, foi eleita secretária-geral da Juventude Socialista em 2018, numa eleição polémica, entre incorreções no currículo e acusações de irregularidades. Natural de Lisboa, entrou na política na concelhia da JS da capital, liderou a distrital, integrou os órgãos nacionais da juventude partidária. Conotada com a ala mais à esquerda do partido, Begonha continua uma linha de sucessão que leva já quase duas décadas - prova disso foi a sessão de apresentação da candidatura, que contou com os últimos cinco secretários-gerais da JS, todos os que assumiram o cargo desde a liderança de Pedro Nuno Santos (2004/2008), e todos próximos do atual ministro.

Já Francisco Mota, de 31 anos, natural de Braga, licenciado em História pela Universidade do Porto, foi durante treze anos presidente da Juventude Popular de Braga. Era vice-presidente de Francisco Rodrigues dos Santos (e pertence agora à direção nacional do partido) e um crítico da anterior direção liderada por Assunção Cristas).

Considerando o historial dos 43 nomes que assumiram a liderança das juventudes partidárias desde 1974-75, Maria Begonha e Alexandre Poço têm boas hipóteses de vir a assumir, daqui a alguns anos, um cargo governativo. Foi o que aconteceu com 14 dos ex-líderes das jotas, JP incluída - uma percentagem de 32,5%. Mas a probabilidade é bastante maior entre os jovens socialistas: oito dos 13 líderes da JS (61,5%) vieram a ter funções executivas, na maior parte dos casos como secretários de Estado, mas também como ministros (caso de António José Seguro e de Pedro Nuno Santos). Números que só consideram os líderes das jotas: António Costa, por exemplo, também teve um papel de destaque na JS, embora nunca tenha assumido a liderança da organização, um caso comum entre muitos dos atuais dirigentes do partido.

No PSD, quatro ex-líderes das jotas também assumiram cargos no governo, mas é entre os sociais-democratas que está o único caso de um presidente de uma juventude partidária que chegou a primeiro-ministro: Pedro Passos Coelho. Também há carreiras políticas de sinal contrário no PSD: Daniel Fangueiro, que liderou os jovens sociais-democratas entre 2005 e 2007, abandonou a vida política, dedicando-se a uma carreira empresarial. Jorge Nuno Sá, que ocupou o mesmo cargo entre 2002 e 2005, deixou o partido em rutura com Passos Coelho.

Já o CDS conta um ministro e um secretário de Estado no currículo dos ex-líderes da JP: Pedro Mota Soares e João Almeida.

Das fileiras das juventudes partidárias saíram até hoje quatro líderes partidários - Manuel Monteiro (CDS), António José Seguro (PS), Pedro Passos Coelho (PSD) e Francisco Rodrigues dos Santos (CDS). Mas este último é um caso inédito na história das jotas: foi a primeira vez que um líder em funções de uma organização de juventude saltou diretamente para a liderança do próprio partido.

Ao lado, à frente ou contra os respetivos partidos

Se as organizações juvenis se posicionam habitualmente ao lado dos seus partidos, puxando por temas mais próximos dos jovens, com claro destaque para o sistema de ensino, momentos houve em que as jotas entraram em colisão frontal com as direções partidárias. Foi o caso de Pedro Passos Coelho, que alinhou com os protestos dos estudantes contra as propinas durante o segundo governo liderado por Cavaco Silva.

Mas a principal história de antagonismo entre uma organização de juventude e a direção nacional do partido remonta aos anos 1990, quando o então líder da Juventude Socialista, Sérgio Sousa Pinto, lançou para o debate político o que viria a ficar conhecido como "temas fraturantes", da legalização do consumo de drogas ao reconhecimento das uniões de facto entre casais do mesmo sexo, mas sobretudo a despenalização do aborto. À frente do PS e do país estava António Guterres, católico, conservador nos costumes, e a agenda dos jovens socialistas abriu uma guerra com o primeiro-ministro. Os jovens socialistas ainda conseguiram aprovar na Assembleia da República, à segunda tentativa, uma lei que descriminalizava a interrupção voluntária da gravidez - a 4 de fevereiro de 1998 o projeto que despenalizava o aborto por vontade da mulher até às dez semanas foi aprovado na generalidade por uma diferença de nove votos. Mas a vitória dos jovens socialistas durou pouco: no dia seguinte Guterres e o então líder do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciavam um acordo para a realização de um referendo que viria a saldar-se pela vitória do não. Só em 2007, depois de um novo referendo, a lei viria a ser aprovada.

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