Reinventar o Estado

Com justificados propósitos mas enfrentando na mudança dos tempos o desafio de uma racionalidade sustentável e inovadora, multiplicam-se as evidências do desânimo sobre a viabilidade do Estado e a incapacidade de assumir uma resposta eficaz às surpreendentes novidades dos factos. Por exemplo, David van Reybrouck, uma autoridade na Bélgica, escreve sobre o espaço da União Europeia um livro com o título Contra as Eleições, analisando a crítica que acompanha o tema, em todo o caso apoiado por J.M. Coetzee, que na própria capa escreve, quanto ao seu país, que, segundo parece, "a eleição de nossos governantes, com o voto popular não logrou um autêntico governo democrático: este parece ser o veredicto da história que se desenrola diante dos nossos olhos... Talvez tenha chegado o tempo para essa ideia".

Como era evidente a dolorosa consequência da "problemática dos refugiados, a crise bancária, os paraísos fiscais, as crescentes desigualdades, a questão climática na Europa e no mundo todo, e a falta de vontade geral de resolver o problema do sistema democrático ocidental", não surpreende que no Brasil, da nossa esperança, tenha sido publicado com êxito invulgar o famoso livro de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, cujo famoso capítulo é sobre "O Homem Cordial", em que se encontra esta frase no início do capítulo: "Quão pequeno, de tudo aquilo que o coração humano sofre... é a parte que reis e leis podem causar ou curar." Não é de esquecer que este comentário, que torna evidente que no continente americano, de norte a sul, não é fácil encontrar repetição de um homem cordial, um conceito que fazia esquecer qualquer conflito rácico. O que cresce de evidência é a atitude que Daniele Giglioli, professor da Universidade de Bergamo, assume intitulando o seu livro de Crítica da Vítima (2018), em que escreve: "O rancor vitimário dos vencedores é um dos fenómenos mais singulares do nosso tempo, depositado em inúmeras manifestações orais e escritas e alçado até mesmo à dignidade de filão editorial "contra a esquerda", "contra os intelectuais".

A linha que conduz da crítica às vítimas, à proposta "contra as eleições", vem lembrar regresso a modelos passados e relacionados com a última guerra mundial, valorizado por David van Reybrouck, jornalista e poeta belga, autor do livro Contra as Eleições. Talvez impressionado pelo tédio das últimas eleições para o Parlamento da União, parece relacionar tal efeito do eleitorado com um dos evidenciados relacionados factos: "Durante a maior parte dos três mil anos de história da democracia, as eleições não existiam, e os cargos eram repartidos usando uma combinação de sorteios e voluntários que se ofereciam." Este tédio contra as eleições, que se reflete na perda do eleitorado e ao mesmo tempo na multiplicação de partidos, não melhora o processo de criar uma governança para o globalismo nem impõe a autoridade que foi alicerce da utopia da ONU, parecendo que as vítimas de comportamento inquietante para Giglioli serão os responsáveis de uma evolução sem bússola, que finalmente enfrenta uma guerra global contra o género humano, na terra que foi pela ONU considerada a "casa comum dos homens".

A solidariedade mundial, sem diferenças étnicas, culturais ou religiosas, teve sobretudo expressão nos profissionais da investigação, do exercício do saber, de dedicação à prevenção e cura, se possível, da agressão em curso, médicos, enfermeiros, responsáveis pela segurança, pelo carinho, são uma espécie que assume, com gratidão de todos, uma atitude que impedirá A Chegada das Trevas, o conceito com que se notabiliza Catherine Nixey, uma académica respeitada, de quem o Sunday Times afirma: "A autora evoca de modo brilhante tudo o que se perdeu com o destino do mundo clássico."

A população que hoje está envolvida numa guerra sem passado o que espera é conseguir o saber e a devoção necessários que foram impostos por esta inesperada chegada do desastre. Não é muito útil para enfrentar os desafios adotar a "chegada das trevas", que apenas parece ter tido uma reserva de Kirkus Reviews, na capa do livro: "Uma bela história, que é sem dúvida controversa na sua visão de como as vítimas se tornaram vitimadores e de como profissões de amor se voltaram para o terror." Em grandes países, que abrem uma cooperação à agressão do poder anónimo, uma das inquietações mais surpreendentes é que esse poder seja respondido por populismos, afastados das éticas constitucionais e do direito internacional, recorrendo a verbalismos pouco exigentes.

A Carta da ONU tinha um projeto e um risco, um sonho que era o da governança global, inscreveu uma utopia, segundo os factos evidenciaram. Aquilo que aconteceu foi que se estabeleceu um globalismo de competições e hierarquias que não deu provas de assumir a submissão à justiça natural. A própria União Europeia, que chegou à última forma de ser "Luz do Mundo", dá mostras de enfraquecimento da responsabilidade igual de cada membro.

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