Esperança em Espanha e Itália, EUA disparam, e o caso exemplar de Taiwan

Passada a barreira oficial do milhão de infetados e perto dos 60 mil mortos em termos globais, os Estados Unidos são o país com maior crescimento. Entre a dureza dos números, há sinais positivos em Espanha e Itália. Contraste entre as políticas na China e em Taiwan.

Num momento em que cerca de metade da população mundial enfrenta algum tipo de confinamento, a Organização Mundial da Saúde chama a atenção para o facto de haver cada vez mais casos de pessoas entre os 30 e os 50 anos nos cuidados intensivos e a morrer do covid-19. Há também mais autoridades a apelar para o uso de máscaras fora de casa.

Alemanha

No dia em que a chanceler Angela Merkel regressou ao seu gabinete, após um período de quarentena devido ao contacto com um médico infetado com covid-19, o governo anunciou que quem não cumprir a distância social de 1,5 metros incorre numa multa. Cabe a cada um dos governos estaduais definir o valor da multa. Em Berlim a mão é mais pesada (até 500 euros) do que, por exemplo, na Baviera. No estado com mais casos os cidadãos incumpridores podem ter de pagar 150 euros.

As medidas tomadas pelas autoridades alemãs para retardar a propagação do coronavírus começam a surtir efeito, afirmou o presidente do Instituto Robert Koch, Lothar Wieler. "Estamos a ver que a propagação do vírus está a ficar mais lenta... está a funcionar." No entanto, destacou a necessidade de manter as restrições sociais. Wieler disse que cada pessoa que tinha sido infetada com o vírus estava agora a infetar apenas outra, em média, quando anteriormente esse número tinha chegado a sete. Numa nota menos otimista, Wieler reconheceu que o número de infetados (cerca de 90 mil) e de mortos (acima de 1200) é superior ao indicado pelas autoridades de saúde. "Presumo que teremos mais mortes do que as registadas oficialmente."

Austrália

Com 10% do total de infetados oriundos de navios de cruzeiro, o governo de Scott Morrison não está disponível para que uma dúzia daqueles meios de transporte turístico aportem e cerca de 15 mil tripulantes pisem terra firme. Já fora alvo de críticas há um mês porque deixou desembarcar em Sydney 2700 passageiros do Ruby Princess quando uma das medidas de contenção em vigor era precisamente a proibição do serviço dos cruzeiros. Neste fim de semana está prevista uma operação de assistência médica por helicóptero em oito navios para verificarem os membros da tripulação. Face ao aviso das autoridades, alguns navios inverteram o rumo e outros irão fazê-lo após reabastecimento. No entanto, os capitães de outros alertam para a crise humana a bordo e recusam-se a partir.

Na Austrália, que conta 5300 casos e 28 mortes, cada estado adotou medidas, das mais estritas em vigor em Nova Gales do Sul (Sydney) às mais descomprimidas como na Austrália Meridional (Adelaide) ou no Território do Norte (Darwin).

Brasil

Uma petição assinada pelos candidatos derrotados mais votados (Fernando Haddad e Ciro Gomes) a pedir a renúncia do presidente por ser um "problema de saúde pública", manifestações de desagrado pelo país fora - os chamados panelaços - durante os discursos de Jair Bolsonaro, que até quarta-feira persistia em chamar ao novo coronavírus de "gripezinha" e "resfriadozinho" e mostrava-se contra as medidas tomadas pelos governadores e autarcas, em linha com o Ministério da Saúde e a OMS. Nesse dia, a sua alocução foi mais diplomática ao dizer que o covid-19 é "o maior desafio desta geração". Uma moderação do discurso ocorrida na sequência de uma conversa com o homólogo norte-americano, Donald Trump. "Trocámos informações sobre um problema que é mundial", reconheceu. O líder brasileiro mantém a prioridade na economia e é favorável a uma flexibilização das medidas sanitárias.

Até agora, o Brasil tem menos infetados do que Portugal, apesar de ter 21 vezes mais população.

China

Os dados oficiais apontavam na sexta-feira para 31 novos casos, totalizando 81620, e mais quatro mortos, o que perfaz 3322. Que fiabilidade têm estes dados? Há uma semana, os meios de comunicação chineses começaram a fazer contas. Uma casa mortuária em Wuhan preparou 5000 urnas em apenas dois dias para os restos mortais dos cremados - o dobro do número de óbitos anunciados naquela cidade para todo o período do surto. Contas feitas junto dos crematórios e das filas dos familiares que tiveram autorização para recolher os restos mortais das vítimas, o número real de mortos em Wuhan terá sido superior a 40 mil.

Como que a dar razão aos críticos, Pequim mudou na quarta-feira o critério de contagem de infetados, incluindo pela primeira vez os assintomáticos. Segundo a Time , é a oitava classificação diferente que os chineses dão ao covid-19. Esta alteração foi introduzida depois de se saber que a CIA está há semanas a avisar a Casa Branca que os dados não têm relação com a realidade. A este propósito a senadora norte-americana Martha McSally pediu a demissão do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Ghebreyesus, por "encobrir a China".

Espanha

A Espanha tinha na sexta-feira 117 710 casos confirmados e 10 935 mortes por coronavírus e na quinta e sexta-feira o número de mortos bateu o lúgubre recorde de mais de 900. Além disso é o segundo país com o maior número de novos infetados diários, a seguir aos EUA. Mas nem tudo são más notícias. Após quase três semanas de confinamento e de um surto especialmente grave em Madrid, o país está prestes a atingir um dos primeiros objetivos das autoridades de saúde: que a chamada taxa R0 atinja o valor 1, ou seja, que uma pessoa infetada não transmita o vírus a mais do que uma pessoa. Neste momento o valor é de 1,05, quando no início da pandemia era de oito. As autoridades aconselham agora os cidadãos a usar máscara.

Estados Unidos

Depois de o mayor de Nova Iorque, Bill de Blasio, ter aconselhado os cidadãos a usarem máscaras ou lenços fora de casa, a administração Trump pondera uma recomendação semelhante, tendo previsto para os próximos dias novidades a esse respeito por parte do Centro de Controlo de Doenças. No entanto, a coordenadora da equipa da Casa Branca para o coronavírus, Deborah Birx, não se mostrou muito entusiasmada, tendo dito que a lavagem de mãos e a distância social são as melhores prevenções: "Os olhos não estão na máscara. Se se toca nas coisas e nos olhos, está-se a expor igualmente."

O país que lidera em número de casos (mais de um quarto de milhão) e cujos indicadores estão longe do famoso achatamento da curva é também notícia em relação às máscaras, mas por desvio de carregamentos. Ou, como disse o ministro do Interior da cidade-estado de Berlim, Andreas Geisel, tratou-se de um ato de "pirataria moderna", em referência à encomenda produzida na China por uma empresa dos EUA que tinha como destino a polícia da capital alemã. Paris também se queixou de situação semelhante.

Itália

O país com mais mortos registados, quase 15 mil, recebeu na quinta-feira um pedido de desculpas da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pela ausência de resposta inicial de Bruxelas. O primeiro-ministro Giuseppe Conte respondeu na mesma publicação, o La Repubblica , para pedir "ambição, unidade e coragem" e a emissão de títulos de dívida europeia, mas quer Von der Leyen quer os líderes da Alemanha, Países Baixos, Finlândia e Áustria mantêm-se contra. No terreno, continuam a registar-se mais de 700 mortes por dia, deixando os serviços funerários sem resposta em Milão e Bérgamo. Ainda assim, o responsável pela saúde da região mais afetada, a Lombardia, Giulio Gallera, mostra-se otimista: "Os nossos hospitais começam a respirar."

Singapura

Considerado um modelo na resposta ao surto do novo coronavírus, com um rastreamento dos casos e taxas de testes recorde por habitante, no início do mês passado a cidade-estado tinha pouco mais de cem infeções. O aumento para mil casos é explicado pelo regresso de habitantes do Reino Unido e dos EUA e levou as autoridades a encerrarem os locais de diversão noturna e proibirem ajuntamentos com mais de dez pessoas.

Suécia

O país nórdico é um caso à parte: as escolas primárias permanecem abertas, assim como os restaurantes e os ginásios. "Cada um é responsável pelo seu próprio bem-estar, pelos seus vizinhos e pela sua própria comunidade local. Isto aplica-se numa situação normal, e aplica-se numa situação de crise", resumiu a ministra dos Negócios Estrangeiros, Anne Linde, que refutou as acusações de descuido. Os próximos dias dirão se a estratégia é para manter. No espaço de uma semana o número de infetados duplicou e é agora superior a 6 mil e o de mortos mais do que triplicou (passou os 350).

Taiwan

Na ilha Formosa há pela primeira vez uma presidente. Chama-se Tsai Ing-Wen e cumpre desde janeiro o segundo mandato. Como vice-presidente tem Chen Chien-Jen, nada menos que um herói nacional. É um epidemiologista que, em 2003, perante o surto da SARS, foi nomeado ministro da Saúde e tomou medidas rigorosas de forma a conter aquele coronavírus. Taiwan, ou a República da China, não sendo um estado reconhecido pelas Nações Unidas, não pertence à Organização Mundial de Saúde, pelo que teve de desenvolver políticas próprias.

É com esta experiência bem-sucedida que os formosinos têm aplacado o covid-19. Há 348 casos e cinco mortes a lamentar. Todos os níveis escolares mantêm-se em atividade normal, mas com o reforço de medidas, como as proteções individuais nas carteiras das escolas. Também nos transportes públicos passa a ser obrigatório o uso de máscaras.

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