E no meio do vírus, surgem abençoados testes às palavras

Pouco a pouco vamo-nos dando conta, o mal não é o confinamento, é mesmo o covid-19. Os jornais e as redes sociais, também com lentidão, vão repercutindo essa perceção. Os lamentos espúrios (a palavra é essa, sinaliza o que não é legítimo nem deve ser perfilhado), os "ai, que incómodo!" - e o incómodo é o fim de semana sem Bairro Alto, é o perder o sol da primavera, são tretas... - estão a ser derrotados pela consciência paulatina da tragédia.

A grande maioria dá conta da tragédia só de ouvido, mas alguns já por experiência sofrida. E a grande maioria começa a suspeitar que ao "só de ouvido" tem de acrescentar outras palavras: "Por enquanto..." A frase batida "pode fazer-se humor sobre tudo, não se pode é com toda a gente" tem hoje uma variante: "Podemo-nos queixar de tudo, mas não de incómodos." É que hoje há filhos que levam o pai às urgências sabendo que ele será incinerado sem que eles voltem a vê-lo.

Esta tragédia - rara na nossa memória (fazemos dois séculos de povo sem invasões nem guerra civil, e isso talvez tenha moldado a nossa bonomia) - traz pelo menos uma vantagem (se ouso abusar da palavra): começamos a respeitar as palavras. Nesta semana, houve por cá uma comoção com estas palavras simples: "nós os velhos".

Conhecem o enquadramento. Ramalho Eanes, envelhecido pelos 85 anos e a barba rala e branca, foi entrevistado sobre isto tudo. Foi na tevê e às palavras juntava-se a expressão de quem as dizia. Então, ele disse que isto, a tragédia, é de todos, novos e velhos, e os velhos podem ajudar evocando o que já passaram. E mais, em caso de infeção, os velhos podem oferecer o seu ventilador ao homem do lado, "o homem com mulher e filhos". Dito isto, acabou a frase, pegou no copo de água e bebeu. Eu estava a ver a cara de um homem limpo.

O pico dramático da atual tragédia é a famigerada escolha: quem vai morrer? Não como nas guerras, nos planos genéricos de ataque: avança o batalhão X... Nem como nos orçamentos dos governos: quem se lixa são os da profissão Y... Como sabemos pelos testemunhos de médicos italianos, agora as vítimas não são vagas. Agora é uma escolha entre duas pessoas, frágeis e entubadas, duas caras, quatro olhos, duas respirações ansiosas. Este? Ou aquele?
Eanes tem mulher e filhos, mas sabíamos que o papel em que ele se colocava era o de "nós, os velhos": ele estava a dizer que ele, e ergueu o dedo indicador em afirmação, se sacrificava. Que frase tão perigosa, tão no fio da navalha do presunçoso e do ridículo... Sim, sê-lo-ia, ontem, na Antiguidade, de fevereiro de 2020 e para trás, antes de conhecermos o covid-19. Hoje somos outros. Mais preparados para o valor autêntico das palavras. E nessa autenticidade entra, muito, quem as diz. Pensei: se fosse um dos meus a estar numa cama do hospital, eu queria que na do lado estivesse o Eanes.

Acontece ainda que estes malditos dias presentes, além de nos clarificarem as palavras, passam rasteiras a quem por sistema abusa delas. As situações-limite, sabe-se há muito, tanta história o diz, e a boa literatura ainda mais, expõem os sacripantas. Não sei se repararam, o tremendista André Ventura tem atravessado um certo eclipse.

Extraordinário que aquele que da política só se ilustrou pelos mais ordinários exageros, chegada a mais tremenda das situações, calou-se-lhe a lábia, ou quase. Num tweet de André Ventura, nesta semana, isto: "Libertam-se os presos e os bons portugueses ficam presos em casa." E isto: "E no final ainda compramos material de proteção à China."

Num país despreocupado, estas boutades de um aldrabão dariam alguma polémica. Hoje, a exigência que a gravidade vivida nos dá às palavras, cito a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, no seu texto publicado nesta edição do DN: "Um Estado decente não abandona os seus cidadãos, mesmo os presos." Tão bom, palavras que iluminam. Estado decente. Presos são cidadãos. Quem diria que gente angustiada, como estamos todos um pouco, ainda reserva lugar para palavras que nos lavam por inteiro.

E quanto a "comprarmos material de proteção à China", deixo a resposta para o idiota. Não devemos comprar, é?

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