Complexos e contraditórios: humanos?

Os italianos foram, talvez, os primeiros a dar o exemplo. Forçados a ficar em casa, por causa do novo coronavírus, passaram a entoar canções nas suas varandas, como forma de partilharem entre eles a necessidade de manterem o ânimo e a coragem, assim como o espírito de solidariedade e entreajuda. Rapidamente, manifestações idênticas se espalharam um pouco em todo o mundo.

Juntemos a isso os pequenos gestos do dia-a-dia, como os vizinhos que se oferecem para comprar mantimentos àqueles impossibilitados de fazê-lo, ou as diferentes iniciativas, quer de indivíduos quer de instituições (universidades, empresas e tantas outras), com o objetivo de encontrar soluções rápidas e baratas para enfrentar o inimigo invisível que a todos nos desafia neste início de século, e a conclusão só pode ser uma: felizmente, nesta "estação sombria" que vivemos, são numerosos os exemplos que nos fazem manter a fé na humanidade.
Como poeta que sou, não esqueço a arte, em geral, e a poesia em particular. Em vários países, artistas e poetas uniram-se, disponibilizando as suas obras em diferentes plataformas digitais, de forma gratuita, e criando, igualmente, canções, textos e outras peças artísticas, como forma de resistência ao insidioso vírus que - não o duvidemos sequer por um instante - ameaça o nosso futuro, pelo menos como todos o imaginávamos há apenas quatro meses.

A arte tem, de facto, esse dom extraordinário: quando, confrontados com um perigo fundamental, nos damos conta da nossa lamentável finitude, tem o condão de recordar-nos que, afinal, só ela pode eternizar-nos. Amanhã, quando alguém ler, escutar ou puder ver o que os artistas criaram (vão criar) nestes tempos inesperados e perturbadores, saberão como nós enfrentámos e vencemos esta nova peste. Desse modo, entenderão melhor aquilo em que se tiverem, entretanto, tornado.

Além da arte, a ciência. Por isso, pobres dos minúsculos seres que, hoje, desprezam as vozes dos cientistas e/ou dizem que não precisam de poesia!

Entretanto, ao lado das centenas, se não milhares de exemplos de solidariedade, coragem, inovação, criatividade e generosidade que têm ocorrido, a maioria deles sem publicidade, neste primeiro trimestre do ano, também não faltam aqueles que não nos deixam esquecer: somos ignorantes, preconceituosos, egoístas, ambiciosos, elitistas, insensíveis e, muitas vezes, criminosos.

Os exemplos estão igualmente aí, das manifestações de racismo antichinês que ainda perduram um pouco por todo o lado à descarada especulação comercial e/ou aproveitamento económico, passando pela estigmatização de certos grupos (estrangeiros, idosos ou indivíduos de determinada cor da pele) ou tentativas de politização barata, seja no plano interno seja no plano externo e geopolítico.

Entre tais exemplos, chocaram-me particularmente, nos últimos dias, três factos. O primeiro foi a declaração do vice-governador do Texas, que é contrário (ou já deixou de ser?) ao isolamento, segundo a qual os velhos norte-americanos "estão dispostos a morrer para salvar a economia do país". A frase, insensível e cruel, não tem nada que ver, para dar um exemplo caro aos leitores portugueses, com o posicionamento do ex-Presidente Ramalho Eanes, quando este disse que os idosos com mais de 85 anos deveriam, se necessário, oferecer o ventilador ao homem com mulher e filhos. Compará-las, eventualmente, é não perceber nada do que é a humanidade.

Os outros dois factos que me chocaram nos últimos dias foram o apedrejamento de uma ambulância que transportava um grupo velhos de um lar da terceira idade em Portugal, os quais estavam a ser transferidos para um hospital, e a colocação de um grupo de sem-abrigo num parque de estacionamento (aberto) em Los Angeles, supostamente para serem "protegidos". Se o diabo existisse e lhe fosse dado a escolher, estou certo de que, entre esses dois repugnantes exemplos, o mesmo escolheria ambos.

A verdade é que tudo isso é simplesmente humano. A reação das diferentes sociedades e indivíduos à atual pandemia do covid-19 confirma algo que os jacobinos de todos os tipos e quadrantes, bem ou mal-intencionados, jamais deveriam esquecer: os seres humanos são complexos e contraditórios.

Mas, como é óbvio, o reconhecimento de que a natureza humana é complexa e contraditória não nos deve exonerar de, em cada momento, fazermos a escolha moral certa. A capacidade de escolha é outra característica humana de que não devemos abdicar jamais, seja em que circunstâncias forem.
Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista
ÁFRICA 21

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