'Radioativo': a ciência e o amor de Marie Curie, a mulher que ganhou dois Nobel

Protagonizado por Rosamund Pike, Radioativo é um olhar biográfico, romântico e didático sobre a cientista pioneira Marie Curie, vencedora de dois Prémios Nobel. Chega nesta quinta-feira às salas e é assinado por outra mulher, Marjane Satrapi.

Foi com Persépolis que ficámos a conhecer a franco-iraniana Marjane Satrapi. Nessa banda desenhada autobiográfica, levada ao grande ecrã em 2007 num formato de animação (nomeado para o Óscar) que retratava o crescimento, no contexto da Revolução Islâmica, de uma jovem sonhadora e sem papas na língua, estão os sinais que tornam natural a escolha do argumento de Radioativo, o seu mais recente filme. Afinal, estamos a falar do biopic de uma mulher icónica, espírito livre, ambicioso e revolucionário: Marie Curie, nascida Maria Skłodowska, é alguém que espantou a comunidade científica e o mundo com descobertas que continuam a fazer refletir sobre as escolhas éticas da humanidade.

Não destoando do gosto da realizadora pelas histórias de quadradinhos, que também ela escreve e ilustra, o filme é a adaptação de uma novela gráfica de Lauren Redniss sobre Marie e o seu marido, Pierre Curie. Rosamund Pike veste aqui a pele da protagonista, impulsiva e frágil, ao lado de Sam Riley, um sereno Pierre, primeiro fascinado pela mente brilhante dessa polaca que desenvolvia em França as suas experiências pouco ortodoxas, e logo depois perdido de amores por ela; a mulher com quem veio a casar-se e a estabelecer uma parceria científica de sucesso. Dito de outra maneira, a história do casal Curie traduz-se na conjugação direta da paixão romântica com a paixão partilhada pela ciência. Uma química perfeita.

Ora, Radioativo não podia deixar de tirar partido desse imaginário ardente, entre a epifania das leis do coração e o entusiasmo no trabalho de laboratório, para expor a biografia de Madame Curie, desde as suas desavenças com os vetustos académicos da Universidade de Paris aos dois Prémios Nobel: o primeiro, o da Física, conquistado em 1903, relativo à descoberta da radioatividade (galardão que a princípio o Comité Nobel queria conceder apenas a Pierre Curie, e só a creditou por insistência do próprio); o segundo, ol da Química, atribuído em 1911, pela descoberta dos elementos rádio e polónio.

Pelo meio, o filme faz uma síntese, mais ou menos convencional, dos pontos fulcrais e conhecidos do percurso íntimo de Marie, a começar pelo instante "mágico" em que se cruzou com Pierre, passando pelo nascimento das duas filhas, a morte trágica do marido, o posterior affaire com um homem casado, que feriu momentaneamente o seu prestígio, até ao serviço que prestou durante a Primeira Guerra Mundial, com a montagem de unidades móveis de raios X. A exposição permanente à radiação, tanto na pesquisa laboratorial como nestes hospitais de campanha, foi a causa da sua morte, aos 66 anos.

Além do retrato biográfico, Marjane Satrapi filma ainda as repercussões históricas das descobertas de Marie - o bombardeamento de Hiroxima, os testes de armas nucleares, o acidente de Chernobyl, mas também, por outro lado, o tratamento de radioterapia para o cancro - que servem como contraponto de reflexão para o espectador. Este estilo didático, que vai interrompendo a narrativa numa espécie de questionamento da ética humana e científica, é um traço original que baralha as coordenadas temporais para fazer ecoar o aviso que Pierre Curie tinha deixado sobre os perigos da radioatividade. Porém, Satrapi não consegue ser mais do que ilustrativa, como se se limitasse a passar uns breves diapositivos numa aula sobre o uso maligno e benéfico da energia nuclear.

Embora sejam percetíveis os esforços para tornar Radioativo um biopic minimamente rebelde, dando ênfase à postura espontânea da excelente Rosamund Pike, "a mulher entre os homens" da comunidade científica, e jogando com a própria beleza gráfica do universo laboratorial, Satrapi não arrisca nem desarruma o suficiente para fazer deste olhar algo mais do que um panfleto curioso e informativo sobre uma figura maior. Resta a genuína empatia pela imigrante polaca cujo brilhantismo não se deixou intimidar pela maioria masculina na sala.

** Com interesse

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