Inspiração de Alfa Semedo evitou o haraquiri do Benfica em Atenas

Encarnados chegaram ao 2-0 em apenas 15 minutos, mas expulsão de Rúben Dias antes do intervalo quase deitava tudo a perder. Valeu a entrada em cena de um herói improvável

O regresso do Benfica às vitórias na Liga dos Campeões fez-se em tons de epopeia, num jogo carregado de emoções fortes, de acontecimentos contraditórios, com a tragédia a ameaçar sobrepor-se em grande parte da narrativa, mas resolvido de forma épica por um herói improvável.

O palco foi a Atenas de Homero e o protagonista principal um jovem guineense em estreia no principal palco do futebol europeu de clubes. Alfa Semedo de seu nome. Entrado em jogo aos 62 minutos, numa altura em que o Benfica era uma nau à deriva, o médio resgatado ao Moreirense estudou o cenário durante dez minutos e lançou-se à aventura pelo meio campo contrário, onde nenhum benfiquista entrava há bastante tempo.

O que se viu então foi um momento de inspiração que ficará para sempre na vitrina da carreira do guineense: Alfa Semedo pegou na bola e correu pelo meio-campo do AEK fora - por entre adversários incrédulos face à sua iniciativa - até resolver rematar à baliza desde fora da área (sem que se vislumbrasse outra solução, diga-se). A bola encaminhou-se, rasteira, para junto do poste direito, aninhando-se nas redes. Em noite de estreia na prova, o médio tornou-se o primeiro futebolista da Guiné-Bissau a marcar na Champions e devolveu o Benfica às vitórias, 595 dias depois, colocando um ponto final numa série de oito derrotas consecutivas na competição.

A vitória por 3-2, sobre o AEK de Atenas, deixa a equipa de Rui Vitória no terceiro lugar do grupo E, um ponto atrás de Bayern de Munique e Ajax - que empataram na Alemanha a 1-1.

Mas esse foi "apenas" o desfecho épico. Para trás, na partida, houve um carrossel de acontecimentos que voltaram a colocar em causa a capacidade deste Benfica em gerir os jogos mais importantes, mesmo depois de os dominar. Foi o que aconteceu de forma gritante esta terça-feira, no Olímpico de Atenas.

Dois golos de vantagem em 15 minutos

O Benfica teve uma entrada formidável em cena, descobrindo rapidamente as fragilidades do setor recuado do AEK, onde figura um tal de Chygrynskiy, que o futebol conhece sobretudo por ter sido um flop histórico do Barcelona. Seferovic (o avançado que já esta épcoa passou de dispensável a titular de novo) abriu o marcador aos seis minutos, na recarga a um excelente remate de Gedson (que voltou ao onze, tal como Salvio), após boa jogada de Grimaldo e Rafa Silva pela esquerda. Grimaldo ampliou a vantagem aos 15', num raro golo de cabeça a responder, ao segundo poste, a uma bola cruzada por Pizzi desde a direita e que sobrevoou livremente a área dos gregos.

Num quarto de hora, o Benfica parecia ter o assunto arrumado. Como muitas vezes acontece a esta equipa de Rui Vitória, isso não passava de uma ilusão que se foi desfazendo à medida que o jogo ia deixando alguns sinais de alerta, como o foram as primeiras incursões do AEK pelas costas das laterais encarnadas, sobretudo explorando o espaço atrás de André Almeida. Os gregos avisaram uma e outra vez, e o Benfica tremia mais e mais a cada uma delas.

Até que Rúben Dias, que já tinha visto um primeiro cartão amarelo logo aos nove minutos, por parar um contra-ataque, cometeu mais uma entrada imprudente sobre o argentino Ponce e deixou as águias com apenas dez jogadores em campo ainda antes do intervalo.

Benfica à deriva

O haraquiri encarnado continuou no arranque da segunda parte, com uma postura completamente equivocada em campo. Sem capacidade para reter bola com 10, a equipa de Rui Vitória também não foi capaz de encontrar solução para parar a fórmula simples, mas eficaz, que o AEK usou para criar superioridade no último terço do campo, explorando constantemente situações de desequilíbrio nas alas para colocar os seus laterais nas costas dos laterais do Benfica.

O sueco Hult, então, foi um verdadeiro diabo à solta pela esquerda. E foi ele quem descobriu Klonaridis para o primeiro golo do avançado grego, aos 53'. Onze minutos depois, Klonaridis bisaria na partida, em mais um lance que explorou o espaço nas costas de André Almeida, desta vez pelo ar, com Oikonomou a fazer um primeiro desvio de cabeça, ao segundo poste, para a zona da pequena área, onde o atacante do AEK surgiu a antecipar-se a toda a gente. Em menos de vinte minutos, os gregos anulavam a vantagem do Benfica.

Klonaridis bisou para os gregos no espaço de onze minutos, na segunda parte

O hat-trick de Klonaridis só não surgiu porque Odisseas Vlachodimos foi um gigante na baliza das águias. Já tinha tido uma defesa absolutamente providencial na primeira parte, a remate de Bakasetas, perto do intervalo, e voltou a ser decisivo na segunda parte, sobretudo no período em que o resto da equipa encarnada era uma embarcação à deriva, incapaz de parar as ofensivas do AEK. Valeu, repita-se, Vlachodimos, com um punhado de belas defesas, como aquela que evitou então o terceiro golo de Klonaridis, aos 73', quando o guardião do Benfica saiu de forma corajosa aos pés do avançado.

O fim da série negativa

Rui Vitória já tinha refeito a dupla de centrais com a entrada de Lema para jogar ao lado do compatriota Conti (ambos os argentinos em estreia na Champions), sacrificando Salvio ao intervalo, e reforçara mais ainda a zona central do meio-campo, com Alfa Semedo no lugar de Pizzi. E foi o jovem guineense entrado aos 62 minutos quem deu um pontapé certeiro no jogo, numa altura em que já só Vlachodimos parecia reagir, entre os benfiquistas.

Na sequência da intervenção do guarda-redes aos pés de Klonaridis, Alfa Semedo encheu-se de coragem e vestiu a pele de Ulisses nesta Odisseia encarnada. A partir dali (74'), o AEK já não voltou a ter o mesmo fôlego. E o Benfica assentou as ideias, conseguindo sair da Grécia com uma importante vitória para as contas deste grupo E e, sobretudo, para afastar o peso da série negativa na Europa, em vésperas de clássico no campeonato (FC Porto, na Luz, domingo)

Ficha de jogo

Jogo no estádio Olímpico Spyros Louis, em Atenas.

AEK Atenas -- Benfica, 2-3.

Ao intervalo: 0-2.

Marcadores:

0-1, Seferovic, 06 minutos.

0-2, Grimaudo, 15.

1-2, Klonaridis, 53.

2-2, Klonaridis, 63.

2-3, Alfa Semedo, 74.

Equipas:

- AEK Atenas: Barkas, Bakakis, Oikonomou (Cosic, 68), Hult, Chygrynskiy, André Simões (Rodrigo Galo, 79), Galanopoulas, Bakasetas, Klonaridis, Mantalos e Ponce (Giakoumakis, 60).

(Suplentes: Lambropoulos, Giakoumakis, Gianniotas, Rodrigo Galo, Cosic, Tsintotas e Erik Moran).

Treinador: Marinos Ouzonides.

- Benfica: Vlachodimos, André Almeida, Rúben Dias, Conti, Grimaldo, Fejsa, Gedson, Pizzi (Alfa Semedo, 62), Salvio (Lema, 46), Rafa (Cervi, 84) e Seferovic.

(Suplentes: Svilar, Lema, Alfa Semedo, Castillo, Zivkovic, Cervi e Jonas).

Treinador: Rui Vitória.

Árbitro: Orel Grinfeld, Israel.

Ação disciplinar: cartão amarelo para Rúben Dias (08 e 45+4), Ponce (34), Bakasetas (40), André Almeida (79) e Grimaldo (90+3). Cartão vermelho, por acumulação de amarelos, para Rúben Dias (45+4).

Figura

Vlachodimos. Se Alfa Semedo foi o herói improvável, o guarda-redes greco-alemão foi quem permitiu ao guineense ainda ter palco para brilhar após 74 minutos de jogo. Não tivessem sido as várias intervenções decisivas do guardião do Benfica e o resultado já estaria completamente comprometido nessa altura. Excelente a sair dos postes perante a sucessão de vezes em que avançados gregos apareceram isolados ou em boa posição de marcar, Vlachodimos voltou a deixar uma forte boa impressão de que o Benfica terá resolvido a questão da baliza, depois da traumática época passada nesse capítulo.

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