A máquina de fazer cadáveres esquisitos

Espoliados de alguns seus mecanismos habituais para assinalar a transição de um ano para o seguinte - directos de recintos repletos, vox pop com perguntas a transeuntes eufóricos ("quais são os seus desejos?") -, os canais terrestres apostaram tudo nos que ainda sobraram - o primeiro bebé do ano, o primeiro mergulho do ano, etc. - e delegaram o resto à própria grelha e às escolhas de programação, que foram neste ano um triunfo da falácia da forma imitativa.

A TVI decidiu caracterizar a especificidade emocional da efeméride (um ritual de repetição periódica encarado como novidade histérica) com uma febril promoção à "estreia" de Gladiador, um filme com duas décadas tratado como uma estonteante novidade. A SIC descartou eufemismos e polvilhou a grelha da tarde de Ano Novo com sequelas e os respectivos hieróglifos da reiteração, tão eloquentes como fogo-de-artifício sobre praças desertas: Carros 3, Velocidade Furiosa 8, Mundo Jurássico: Reino Caído.

A última escolha foi particularmente feliz, pois de todas as franchises que constituem a economia de entretenimento contemporâneo, Parque Jurássico é a mais atípica e a mais honesta sobre o seu próprio estatuto. O filme que a fundou foi talvez o último ponto na triunfante sequência de Spielberg enquanto infalível criador de entretenimentos de massas (e foi também, à época, um genuíno sobressalto para as possibilidades de efeitos digitais). Tal como Tubarão, quase 20 anos antes, Parque Jurássico ajudou a consolidar o conjunto de expectativas com que se aguarda um filme-evento, e a definir os termos do seu sucesso ou insucesso. Mas a definição de termos funcionou também ao nível do texto: qualquer história (e são legião) em que tanto os protagonistas como os "monstros" têm o mesmo investimento monomaníaco nas urgências narrativas fundamentais - regressar a casa e/ou proteger a família - tem uma dívida indirecta à fórmula spielbiergiana.

O mesmo se aplica a qualquer blockbuster moderno que literaliza a sua aspiração à condição de blockbuster. O Parque Jurássico original captou o apelo do parque de diversões enquanto cenário metaforicamente apelativo (não há filósofo europeu, de França à Eslovénia, que não tenha escrito sobre a Disneylândia), e o filme vem saturado nos protocolos da visita guiada, e em imagens de merchandising. A sua eficácia como entretenimento e gerador de entretenimentos futuros reside no modo como intertextualiza três camadas ao mesmo tempo: os entretenimentos spielbiergianos clássicos, a experiência de ver os entretenimentos spielbiergianos clássicos e a experiência de fazer entretenimentos spielbiergianos clássicos. Mundo Jurássico: Reino Caído purifica esta ambição, reduzindo-a à sua operação mais básica: passa-se num mundo em que o parque temático foi concretizado (e abandonado), mas o filme é ele próprio um parque temático em que o "tema" não são dinossauros, mas sim a franchise Parque Jurássico; mostra-nos, portanto, uma sequela sobre o impulso para fazer sequelas.

O filme atravessa constantemente cenários pejados com os destroços dos filmes anteriores, sejam eles físicos (a esfera giroscópica da ante-sequela) ou visuais (uma criança a tentar esconder-se num armário cujas portas não fecham). A última meia hora do filme é um pesadelo gótico, com alusões visuais a Nosferatu (a sombra de garras estendidas a deslizar ao longo de uma parede), mas o grosso das imagens são recapitulações do que já foi devidamente testado nos parques jurássicos prévios.

O enredo é o esperado: pessoas muito ricas querem ficar ainda mais ricas; pessoas vivas não querem ficar mortas. Alguns monstros retidos em jaulas são libertados pelo acaso para encetarem uma dieta estrita de advogados, mercenários e assistentes pessoais, e assim expor os azares da classe administrativa e as superstições do planeamento.

O putativo vilão é alguém que pretende monetizar os dinossauros, vendendo-os a milionários russos e árabes manhosos. A meio do filme, Toby Jones (interpretando o papel de um excepcionalmente untuoso leiloeiro) diz o seguinte à plateia: "E agora que estamos a meio da nossa sessão... gostaríamos de oferecer um brinde aos nossos clientes com mais discernimento... vamos revelar um novo produto... uma criatura do futuro construída a partir de peças do passado."

É uma piada, no sentido em que usa a fórmula cómica de descrever exactamente aquilo que se passa em dois níveis distintos - o da história e o do filme em si. O ADN recuperado ao monstro artificial do filme anterior forma a cartografia genética do novo monstro - desenhado para ser maior, mais esperto e ter mais dentes - tal como os fragmentos dos filmes anteriores formam a arquitectura narrativa e visual do filme novo. Mas este é um "cadáver esquisito" que sabe perfeitamente aquilo que é. Tal como todas as piadas do anterior Mundo Jurássico (que chamava "activos" aos dinossauros e aludia insistentemente à necessidade de criar bichos mais ameaçadores para manter o interesse de um público facilmente aborrecido), é uma piada sobre a manufactura e comercialização de um produto e não sobre a mitologia interna da história.

É isto que separa a franchise jurássica das suas congéneres contemporâneas: total ausência de medo de ridículo. Mundo Jurássico: Reino Caído é um acto de obediência, não às convenções de um género mas à mera sequência de passos numa fórmula e à memória de quem já sabe esses passos de trás para a frente. Mas consegue dramatizar essa obediência sem se transformar na autópsia nostálgica de um cadáver cultural. Todas as franchises actuais (Star Wars, o universo Marvel) são exercícios de ansiedade permanente sobre as expectativas do público. Todas elas incluem e dramatizam os dogmas, cismas e heresias decididos nos vários concílios informais do saudosismo e da militância.

Todas usam um subestilo de humor muito específico para substituir a suspensão da descrença; um humor auto-referencial co-optado à ficção experimental que serve para reforçar a importância de um mundo inventado e a relação de dependência mútua entre o produto e o público reverente que é a condição da sua possibilidade. Mundo Jurássico não se leva a sério nem sequer como entretenimento de série B, e por isso não tem necessidade de se camuflar. Todo o seu humor é sobre si próprio enquanto produto e não enquanto história, porque a única fidelidade que deseja é a de quem o quiser comprar. É a sequela perfeita: maior, mais esperta, com mais dentes - e sem um único gene original.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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