Os Portuguese Kids no Bairro Alto, em Lisboa, na tourné portuguesa.

Emigração

Os comediantes que usam o humor para honrar os portugueses na América

Os Portuguese Kids são um grupo de comediantes que brinca com a comunidade portuguesa nos EUA, sobretudo os açorianos. Através do riso desconstroem preconceitos e contribuem para o novo orgulho português que se sente por todo o lado.

Quando os Portuguese Kids usam o slogan de Trump "Make America great again" num vídeo do YouTube, usam também a réplica: "Replace it with Portugal" - (substituam-na por Portugal). As coisas ainda não estão bem assim, claro. É uma piada. Mas bebe numa realidade, como todas. A reputação de Portugal nos EUA mudou e este grupo de humoristas lusodescendentes sente-o bem. Derrick DeMelo, Brian Martins e Albert Sardinha andam a fazer piadas sobre a comunidade portuguesa nos EUA há 15 anos. "Nós éramos portugueses quando isso não era cool", brinca Derrick.

Agora é. "Muitos dos que vêm agora ao nosso espetáculo dizem: espera, sou português, isso significa que tenho um pouco disto de que os outros tanto gostam", diz Brian. Os fãs no Facebook fazem questão de "ter a bandeira portuguesa no perfil. Ou dizer de onde vem a família. Isto apesar de muitos já nem sequer falarem português".

É esta a onda que surfam os Portuguese Kids. "O nosso humor sempre foi sobre isso. Somos portugueses e queremos que o mundo saiba como é espetacular", diz Derrick. A primeira vez que deram nas vistas foi com um vídeo cómico gravado na réplica das Portas da Cidade de Ponta Delgada que existe em Fall River. Uma paródia ao I"m Sexy and I Know it dos LMFAO com "I"m Portuguese and I know it". Mulheres de lenço e roupa negra dançavam hip-hop em formato rancho, e a canção brincava com os hábitos portugueses nos EUA, até com a pronúncia e as expressões misturadas do mau português e nem sempre correto americano. "Sim, trabalho dois turnos, sete dias por semana, tenho uma casa com três hipotecas, consegui dinheiro do banco... Mexe-me esse cu, mexe-me esse cu."

O vídeo foi um sucesso, com milhões de visualizações. Nos comentários, as pessoas diziam que reconheciam as suas famílias nas personagens. "Construímos a sátira sobre personagens da nossa cultura - mamãs, vovós, a vizinha coscuvilheira, isso tudo", explica Al. E nunca tiveram más interpretações, pessoas zangadas? "Nenhuma sátira existe sem de certa forma explorar os estereótipos, porque é que essa característica é o que é. E é assim em toda a comédia, seja ela cultural ou outra, ricos, pobres, portugueses, mexicanos, os tipos do sul vs. os do norte, tudo se baseia nisto. Nós trabalhamos sobre as nossas, de sermos portugueses, açorianos, luso-americanos, e esse contraste. E há uma riquíssima base de coisas para usar e fazer piadas."

Terreno movediço, que conquistaram com respeito, especialmente importante numa comunidade frágil, porque em terra alheia. "Fazemos o homem de família, que trabalha duro, que não quer aturar as porcarias dos filhos... Mas temos cuidado: nunca verão uma cena a beber e a conduzir, a ser estúpido, a bater nos miúdos. Isso seria gozar com a comunidade. Não é o que nós fazemos. Não retratamos a comunidade como homens bêbedos sem dentes. E nós temos uma responsabilidade especial, somos filhos dessas pessoas trabalhadoras que só tinham como objetivo ter uma vida melhor. Sem estupidezes."

Stoa, gamas e frisas

Depois destes anos todos, os Portuguese Kids já se sentem fiéis depositários dessa cultura. Nos seus espetáculos - e estão em Portugal para mais um, ontem, em Lisboa - há partes bilingues, partes em inglês, partes em açoriano e partes em corruptela luso-americana. A que chama stoa às lojas, gamas às pastilhas elásticas e frisas aos frigoríficos.

"Nós somos literalmente a conexão para a versão dos nossos pais do mundo deles", diz Al. "Não a nossa versão. Mas a deles. E se não escarafuncharmos, e procurarmos isso, isso perde-se. As nossas crianças não sabem falar português, não querem saber das festas, dos conjuntos dos ranchos. Isso acabou-se. Havia momentos na nossa vida em que queríamos passar para a sombra e desaparecer. Quando as nossas mães iam despedir-se de nós à camioneta da escola, em português: " Bye, bye, filhinho, se te oferecerem tabaco não aceites"... [risos] Mas agora a ideia é conservar isso tudo."

Até porque há muito que se pode perder, no curso geracional. A maior parte desses pais imigrantes não tinham ficado com muita vontade de ser portugueses, nem transmitir isso aos filhos. Nos lugares portugueses da América, sobretudo na Nova Inglaterra, área de Boston e afins, era mais vulgar quererem desaparecer na paisagem, americanizando nomes - (quantos Manuéis passaram a ser Manny?) -, adotando bonés de baseball, calções de futebol americano, tudo para condizer com a cultura local. Mesmo na cidade de Fall River, ou Fall Rrriva, a "meca luso-americana", como eles gostam de chamar-lhe.

"Eu só descobri o Azorean Refugee Act do Kennedy de 1958 (enquanto senador do Massachusetts), quando fui a um museu na Califórnia", conta Derrick. "Disse à minha mãe: porque é que não me contaste que tinham vindo para aqui por causa do Kennedy? Eu nem sabia que havia uma comunidade enorme na Califórnia."

Tudo isso, e o facto de estarem completamente envolvidos na comunidade, fê-los perceber melhor essa geração. "A vida dos nossos pais era sobre a necessidade", diz Al. "E nas cabeças deles eles tinham abandonado esse mundo. Que bem fazia ensinar-nos? Onde é que isto te vai levar? Aprendes o que precisas de aprender na escola, a mamã e o papa estarão no trabalho, a trabalhar duro, e depois vens para casa, cozinho o jantar, lava-se a louça e era isto. Sobrevivência dia a dia. E ganhar uns dólares."

Das piadas em criança à TV

Toda esta história dos Portuguese Kids começou de forma bastante amadora. Al, Derrick e Brian eram amigos do mesmo bairro de Fall River. "Sabes aquela conversa do "é preciso uma aldeia"? (It takes a village). "Assim éramos nós, em crianças. Toda a gente conhecia as nossas mães e os nossos pais em Fall River. Crescemos a fazer-nos rir uns aos outros", diz Al. Quando foram para a universidade conseguiram um programa de sketches numa TV local. Chamava-se Ludicrous Speed e, segundo eles, era péssimo. "Mas começámos a fazer coisas portuguesas - como uma família americana lidava com uma situação, comparando como uma família portuguesa lidava com a mesma situação. E as pessoas começaram a reconhecer-nos na rua por isso."

E foi uma epifania. Estava ali um nicho que ninguém tinha explorado. Começaram a testar piadas no YouTube. E houve aquela série de coincidências a que, bem alinhadas, costumam chamar-se sorte.

"Estivemos sempre no lugar certo na hora certa. Sermos da geração que somos, quando a internet começou, o YouTube... Foi mesmo estranho, quando estávamos a postos para o passo seguinte, o mundo estava pronto para que o fizéssemos", diz Al.

Aprenderam a profissionalizar-se no Improv Asylum, um "teatro-escola" em Boston - cidade que faz parte do roteiro nobre de teatro dos EUA. Faziam vídeos e espetáculos ao vivo, stand-up e peças. "Um ano, duas noites por semana, conduzíamos mais de uma hora, até Boston, depois dos nossos trabalhos. Chamavam-nos os Fall River Boys ou os Portuguese Boys. E achavam graça à nossa seriedade com as coisas." Começaram a subir a palcos e acabaram a marcar tantos shows que já não era possível continuarem a ser o bancário (Derrick), o cuidador (Bryan) e o professo (Al) - ainda para mais tendo em conta que na América só há 15 dias de férias pagas.

A decisão não foi tão fácil de tomar como parece hoje. Não havia exemplos a seguir. "Não havia para onde olhar, ninguém. Não somos um café, não vendemos pastéis de nata, não podíamos copiar formatos." Acabaram num modelo muito específico de humor, o humor luso-americano em tournée. Pelos EUA - de costa a costa -, Canadá, e outros lugares onde há portugueses - até à Austrália já foram. E diversificaram o negócio. Já vendem pastéis de nata, sim - porque entretanto abriram uma bem-sucedida loja online de produtos portugueses (de galos de Barcelos a linguiça, passando por aventais bordados), com resultados na ordem dos seis dígitos que ajudam a manter a atividade do grupo.

Foi neste sentido que começaram também a fazer tours temáticos a Portugal - com a agência Sagres -, aproveitando a curiosidade dos lusodescendentes pelo regresso às suas origens. Acabaram de estar com 40 lusodescendentes numa destas viagens em Portugal. "Muitos chegam até nós porque se querem reconectar com a sua cultura. É uma espécie de "deixa-me agarrar a isto antes que desapareça"", diz Brian. "De certa forma a comunidade está a crescer connosco. Temos imensa gente que nos segue de todos os lugares do mundo. E que se encontra nos nossos shows." Ainda recentemente isso aconteceu em Austin - cidade do Texas sem aparente conexão lusófona e onde as plateias esgotaram.

As experiências dos espetáculos em Portugal são sempre diferentes. No início, contam, tinham algum receio das reações, sobretudo nos Açores. "Antigamente eles chamavam às pessoas como os meus pais turistas - porque vinham de fora. E era duro, porque na América não eram aceites, era-lhes dito que fossem para Portugal de volta, e quando chegavam a Portugal diziam que não eram portugueses, que eram turistas. Ou Green Horns (cornos verdes, uma ofensa nos EUA, que está entre o novato e o bimbo). Pessoas da minha família, homens de negócios, bem na vida, contaram-me que quando vinham aos Açores não gostavam. Na América sentiam-se outsiders, porque tinham uma pronúncia, chamavam-lhes portogee, pork chop. E quando chegavam a Portugal, eh, és amaricano, és turista."

Mas, também nos Açores, e em Portugal em geral, muita coisa mudou. E não foram apenas as autoestradas. "As famílias estão muito mais conectadas do que estavam. Antigamente costumávamos gravar cassetes para as nossas famílias: "Olá, prima, beijinhos..." E mandávamos pelo correio. Tirávamos fotografias durante um dia inteiro, com roupas novas... para mostrar... Isto faz muita diferença em relação aos nossos fãs. Porque eles agora aproximam-se, partilham os nossos vídeos e todos juntos riem-se. E nos Açores foi o primeiro lugar onde nos sentimos verdadeiramente famosos quando um tipo parou o carro à nossa frente, na Ribeira Grande, para tirar uma fotografia connosco", conta Derrick.

Racismo a céu aberto

Derrick, Al e Brian sempre trabalharam no registo de unir as pessoas e as comunidades, mas deparam-se agora com a situação de viver numa América dividida. "A questão da imigração voltou a estar quente", diz Derrick. "Muito do racismo está a céu aberto, agora. Por exemplo: não falar inglês é malvisto. As pessoas sentem-se mais à vontade para acusar alguém: és americano, falas inglês! Há vídeos sobre isto, sobretudo na comunidade hispânica. Eu falo com a minha mãe em português!!! Isso podia acontecer comigo!!! Só não acontece porque estou na minha bolha de Fall River, Massachusetts."

Derrick não gosta de falar sobre estes assuntos politicamente engajados - até porque as divisões chegaram aos fãs dos Portuguese Kids. "Pessoas cujos pais chegaram a este país fantástico esquecem-se de que eles já ouviram o que os atuais imigrantes ouvem: sai deste país. Essas pessoas costumam responder que os pais 'chegaram da forma correta'. E eu digo-lhes: sabem como era fácil para os portugueses virem para a América nesses tempos? Era fácil. As coisas mudaram, as leis mudaram. E as pessoas esquecem isso."

Os Portuguese Kids não esqueceram. Por isso homenageiam esses tempos difíceis com uma das formas mais carinhosas de o fazer: rindo. E no à-vontade e naturalidade com que lidaram com todas estas questões complexas, na ausência do preconceito, na homenagem, terão feito muito por uma comunidade lutadora e frágil, tantas vezes menosprezada e que tanta história construiu. A história dos portugueses na América que marcou o mundo como o conhecemos.

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