"Hoje a relação entre Portugal e os EUA vai muito além dos livros de História, além das Lajes"

Pela segunda vez em Portugal, Kristin M. Kane conversou com o DN enquanto aguarda a nomeação de um novo embaixador. A encarregada de negócios dos EUA fala dos desafios da Administração Biden, da importância da relação com os parceiros e aliados, de Kamala Harris mas também dos portugueses e da experiência como voluntária na Guiné-Conacri.

Estes meses de Administração Biden foram marcados pela luta contra a covid. Neste momento, é o grande desafio do novo presidente dos EUA?
É um desafio global e para os EUA também. O presidente Biden tem estado focado na população americana e em fornecer-lhe vacinas. Anunciou recentemente que cumpriu o objetivo inicial de cem milhões de vacinas e já disse que quer chegar aos 200 milhões nos primeiros cem dias. Também estamos focados em termos globais. Comprometemo-nos com quatro mil milhões de dólares para o Covax. O presidente Biden recebeu os chefes do Estado do Quad - Índia, Austrália e Japão, além de EUA - e chegaram a acordo para distribuir mil milhões de vacinas através da ASEAN para países da região. Além disso temos olhado para os nossos vizinhos e já distribuímos vacinas pelo México e Canadá. Não queremos deixar ninguém para trás.

A recuperação da economia também é uma prioridade...
Esta é uma área em que o presidente Biden tem procurado aplicar o slogan Build Back Better. E para "reconstruir melhor", é preciso fazê-lo com os parceiros e aliados. Como Portugal. Há muitas áreas em que EUA e Europa podem trabalhar na recuperação económica. Só para dar alguns exemplos: o nosso país concentra-se no empreendedorismo e inovação e sabemos que Portugal também. Ficámos felizes de ver na semana passada que Portugal registou o seu quarto unicórnio [empresas com avaliação superior a mil milhões de dólares] com a Feedzai, cujo líder é português e participou no programa Fulbright, de intercâmbio com os EUA. A empresa tornou-se um sucesso muito graças a esta colaboração e com financiamento americano. É exemplo de uma parceria que gerou empregos dos dois lados do Atlântico.

Falou de parceiros e aliados, mas este foi um início tenso para a política externa da nova administração. Biden chamou "criminoso" a Putin, houve um encontro difícil entre responsáveis americanos e chineses no Alasca. Depois da América First de Donald Trump, o que esperar da América de Biden em relação a China e Rússia?
Já foram divulgadas indicações sobre a nossa estratégia de segurança nacional, o secretário de Estado, Antony Blinken, já fez discursos importantes, como um recente em Bruxelas em que se focou nos aliados e parceiros. A relação transatlântica, a parceria com países europeus como Portugal, está no âmago disso. É assim que vamos fazer a nossa política externa. Quanto ao encontro entre responsáveis americanos e chineses em Anchorage, foi muito importante acontecer apenas depois de falarmos com os nossos parceiros e aliados. Blinken ligou ao ministro Augusto Santos Silva logo nos primeiros dias da Administração. Também participou no conselho dos Negócios Estrangeiros da União Europeia. Temos falado com os parceiros e aliados sobre a forma como queremos trabalhar com a China. O nosso secretário da Defesa também já deu passos nesse sentido. Há mais aspetos, claro. As alterações climáticas são uma questão urgente na qual estamos focados e Portugal também. Solidificar o compromisso com a democracia é muito importante. O presidente Biden já anunciou que quer receber uma cimeira da democracia no final do ano. Como diz o secretário Blinken, queremos ser "humildes mas confiantes" porque temos uma democracia com mais de 240 anos e queremos reafirmar o compromisso com o predomínio da democracia sobre a autocracia, com os direitos humanos e com a luta contra a corrupção. Há muitos elementos, mas todos se enquadram na ideia de trabalharmos com os nossos parceiros e aliados.

Os EUA têm estado mais virados para a Ásia do que para a Europa. Podemos esperar agora uma América mais centrada na relação transatlântica, na NATO, que foi foco de tensão com Trump?
A nossa parceria com os países europeus e as democracias na Ásia - Japão, Coreia do Sul, Índia - é extremamente importante. Quando olhamos para as nossas economias em conjunto estamos a falar de 60% da economia mundial. Por isso percebemos que ao trabalhar com os nossos aliados, apresentamos uma frente muito mais forte perante os desafios comuns. Isto é essencial também na NATO, no que se refere a desafios de segurança. Os nossos secretários de Estado e da Defesa participaram nos encontros da NATO e reafirmaram o nosso compromisso com a Aliança e o artigo 5. Podemos esperar bastante da relação entre os EUA e a Europa e entre EUA e NATO.

Temos assistido à crise na fronteira com o México, com a chegada de mais migrantes para entrar nos EUA. O presidente Biden disse " não venham", será suficiente?
Os EUA são há muito um país de imigrantes e tencionamos continuar abertos à imigração. Mas tem de ser legal e segura. Ninguém quer que estas pessoas sintam que têm de fazer um longo caminho perigoso, ou mandar os filhos sozinhos até à fronteira. A Administração Biden nomeou um enviado especial para as questões da fronteira sul, a antiga diplomata e secretária de estado adjunta para a região, Roberta Jacobson. Também nomeou um ex-colega meu que trabalhou na embaixada aqui em Lisboa, Ricardo Zúñiga, representante especial para os países do triângulo norte da América Central [Guatemala, Honduras e El Salvador] e encarregou a vice-presidente, Kamala Harris, de supervisionar estes assuntos. Mas aquilo em que estamos empenhados é lidar com a raiz do problema: como garantirmos que nos países da América Central as condições de vida melhoram para que estas pessoas não tenham de fazer a viagem até à fronteira com os EUA.

"A forma como nós diplomatas agimos também deve ser em representação desses ideais [de representatividade], procurando assegurar que nos parecemos com o que os EUA são."

O que significou para si a eleição de Kamala Harris como vice - a primeira mulher, primeira asiática e primeira afro-americana?
Quando vemos Kamala Harris no palco mundial, significa tanto para as raparigas e mulheres americanas. Quer sejam afro-americanas, como a nossa vice-presidente se considera, quer sejam filhas de imigrantes, como ela é, tendo origens na Ásia. A atual Administração está empenhada em garantir essa representatividade. É importante a nossa política externa representar os nossos ideais. A forma como nós diplomatas agimos também deve ser em representação desses ideais, procurando assegurar que nos parecemos com o que os EUA são. Não só porque é a forma correta de agir, ou porque a representatividade é boa, mas porque é o mais inteligente. Quanto mais diversidade, de pessoas e opiniões, melhores soluções e mais inovação.

A própria Kristin tem uma família multirracial, o seu marido e filhas vieram para Portugal? Sei que é a sua segunda vez no nosso país...
Sim, agora tenho metade da família aqui. A nossa filha mais velha está na universidade nos EUA e o meu marido está a trabalhar no nosso consulado em Frankfurt. Ele vai e vem.

Foi fácil adaptarem-se? Sobretudo da primeira vez?
Quando vivemos cá da primeira vez as crianças eram pequenas. Foi entre 2004 e 2006. Tinha uma recém-nascida e uma com dois anos e meio. Andaram as duas no infantário da embaixada. Foram tempos fantásticos. Fomos sempre tratados muito bem. E agora também. Posso dar um exemplo recente. A minha filha veio cá nas férias e fomos dar um passeio de bicicleta. Mal começámos a pedalar percebemos que a corrente tinha saltado. Parámos e em segundos um senhor mais velho - em plena pandemia, todos de máscara - veio logo ajudar. E como não conseguia, voltou ao carro buscar umas ferramentas. Eu vivo no Restelo, perto da Avenida Torre de Belém, é uma zona movimentada num sábado de manhã. Seria de pensar que a maioria das pessoas não teria tempo para ajudar duas desconhecidas. Virei-me para a minha filha Sophia e disse: "isto é o que torna Portugal especial". É mesmo.

Trabalhou em Brasil, Moçambique, no Senegal, Nigéria, em Paris. São as pessoas que tornam Portugal diferente?
São as relações. Nunca vi este tipo de relações pessoais em mais nenhum lado. São fortes aqui no continente, mas também na Madeira e sobretudo nos Açores de onde vem uma grande parte dos 1,5 milhões de americanos de ascendência portuguesa. Quando estamos nos Açores, ouvimos falar inglês, há referências à emigração para os EUA. Quem vive na Terceira cresceu com americanos estacionados na base das Lajes. Mas também no continente se sente a ligação à América. Portugal foi um dos primeiros países a reconhecer a independência dos EUA, o nosso consulado nos Açores é o mais antigo em funcionamento contínuo... é uma relação pessoal muito especial. O que é impressionante é que nos 15 ou 16 anos que passaram desde a minha primeira estada, Lisboa mudou muito, mas uma parte boa disso é que mais americanos descobriram Portugal. E antes da pandemia, o número de estudantes americanos disparara. Tivemos oportunidade de falar com turistas e estudantes e todos tiveram experiências fantásticas. E quando voltaram a casa falaram de Portugal, alimentando essa relação.

"Seria de pensar que a maioria das pessoas não teria tempo para ajudar duas desconhecidas. Virei-me para a minha filha Sophia e disse: "isto é o que torna Portugal especial"."

É natural da Califórnia onde terá tido contacto com a comunidade portuguesa. A imagem de Portugal hoje é muito diferente da que havia há uns anos?
É difícil para mim falar da imagem de Portugal como um todo. A Califórnia é o estado mais populoso, 40 milhões, temos muitos americanos de origem portuguesa, mas também muitos asiáticos. Já para não falar nos hispânicos. Fomos o primeiro estado a ter uma maioria de população não-branca. Não queria falar em clichês, mas a presença da comunidade portuguesa é sem dúvida profunda. Há alguns eleitos de origem portuguesa na Câmara dos Representantes, alguns da Califórnia. Há cerca de um ano, quando fui a casa houve uma parada cultural portuguesa na minha terra, Monterey. Vieram pessoas de toda a Central Valley, uma zona agrícola, e da zona de San José, muito populosa. A parada não acabava nunca. E havia imensa gente a assistir.

Como disse, a relação entre Portugal e os EUA é forte e antiga. Da amizade entre Thomas Jefferson e o abade Correia da Serra aos Pais Fundadores a brindar à assinatura da Declaração de Independência com vinha Madeira. Mas há também sinais recentes desta presença portuguesa nos EUA, como o facto de o comandante do porta-aviões USS Theodore Roosevelt, o almirante Doug Veríssimo, ser neto de açorianos. Portugal saiu dos livros de história e passou a ser um país que conta na atualidade, muito além da base das Lajes?
Quanto à base das Lajes é importante saber que também contribuiu para o desenvolvimento da ilha Terceira e dos Açores. Ainda hoje emprega 400 pessoas contribuindo para a economia local. Além do aeroporto militar, fornece também um aeroporto comercial importante. Mas voltando à ideia que os americanos têm de Portugal, evoluiu muito. Os americanos que viajam para cá ou trabalham cá, por exemplo diplomatas, sabem da profunda amizade que nos liga a Portugal. Sabemos que Portugal foi membro fundador da NATO, das conversas entre Frank Carlucci e Mário Soares nesta residência nos primeiros anos da democracia portuguesa. Lemos nos livros de História sobre os Descobrimentos. Se tivéssemos tido esta conversa há 15 anos, diria que era isso: "sim, conhecemos os Descobrimentos dos livros da escola". Mas hoje é a inovação, é ter ouvido falar da Feedzai. Ou da Colquímica, a empresa portuguesa que acaba de investir na Carolina do Norte e está a trabalhar com a 3M, uma das nossas grandes empresas agora envolvida na luta contra a covid porque produz máscaras. Hoje interagimos com Portugal de uma forma muito mais sofisticada, através de empresas que podem estar em Silicon Valley ou na Carolina do Norte. Vai além dos livros de História, vai além das Lajes, é uma relação mais abrangente.

Foi voluntária no Peace Corps na Guiné-Conacri de 1996 a 1998. Como é que essa experiência moldou a sua forma de ver o mundo?
Moldou totalmente a forma como vejo o mundo. Só tinha estado algumas vezes no estrangeiro antes e nunca em África. Como era falante de francês disseram que ia para a Guiné-Conacri. Na altura lembro-me de o embaixador dos EUA ter vindo falar connosco e ter dito: "vocês voluntários vão ser embaixadores dos EUA junto destas comunidades muito mais do que eu, sentado na residência em Conacri". E foi verdade. Eu era a única ocidental na minha aldeia e num raio de quilómetros. Vivi ao nível da população local e a Guiné é um país extremamente pobre. Tinha cerca de 150 dólares por mês. Esta é uma parte central do programa: os voluntários têm de viver com o orçamento da população local. Não havia água corrente, nem eletricidade. Vinha um carro por dia que percorria 45 quilómetros até à cidade mais próxima mas muitas vezes demorava oito horas através das montanhas. A minha melhor amiga na aldeia só tinha feito a primária. Mas falava seis línguas - as quatro locais da Guiné, francês que aprendeu na escola e estava a aprender inglês comigo. Era tão inteligente apesar de muita gente a ver apenas como uma aldeã. Mandámos a primeira rapariga da aldeia para a universidade. E com um financiamento que consegui, construímos uma escola numa aldeia ainda mais remota. Até então as raparigas dessa aldeia não iam à escola porque as famílias, muçulmanas e muito conservadoras, não queriam que elas viessem para a nossa aldeia viver com familiares. Foi uma experiência fantástica e importante em tantos aspetos, mas sobretudo aprendi a respeitar a dignidade de qualquer pessoa, independentemente do seu estatuto económico.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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