Descobertos novos compostos em algas da costa portuguesa

Investigadores do Instituto Politécnico de Leiria identificaram moléculas com ação anticancro em alga vermelha. Estudo abre portas a novas investigações.

São anos de investigação, entre os mergulhos junto à costa de Peniche e nas Berlengas para recolher algas e microrganismos marinhos, e o trabalho no laboratório, naquela cidade costeira: o centro MARE-Politécnico de Leiria, que estuda as potencialidades dos recursos marinhos para aplicações em biotecnologia, nas áreas da saúde, alimentar, farmacêutica ou cosmética.

Os resultados, com novidades para contar, não podiam ser mais compensadores. Um deles é o da descoberta de dois novos compostos que foram pela primeira vez descritos no ambiente marinho. Um chama-se sphaerodactylomelol. Em relação ao outro, ainda não chegou o momento de lhe revelar o nome. Os investigadores do MARE-Politécnico de Leiria vão agora estudar as suas propriedades e potenciais aplicações em biotecnologia.

Mas outra descoberta importante é a de que duas das moléculas isoladas a partir de uma pequena alga vermelha (Sphaerococcus coronopifolius) demonstraram ter propriedades contra o cancro, o que abre agora a porta a novas investigações.

Os resultados serão apresentados nesta semana no encontro Ciência 2020, que anualmente reúne a comunidade científica nacional e que nesta edição, por causa da situação pandémica, decorre num misto de conferências presenciais e apresentações através da internet. A apresentação dos investigadores do laboratório MARE, em Peniche, será feita nesta terça-feira, justamente em formato digital.

Do mar para as aplicações na saúde

"Isolámos um conjunto de sete compostos a partir daquela macroalga vermelha e verificámos em modelos celulares de cancro humano que dois deles inibem a proliferação de esferas tumorais", conta o investigador Celso Alves, que há dez anos trabalha no MARE-Politécnico de Leiria, e que integra a equipa que está a desenvolver a pesquisa, em colaboração com grupos de outras universidades portuguesas e internacionais

Chegar a estes resultados levou, no entanto, o seu tempo, e identificar a alga certa também não aconteceu de imediato, uma vez que foi preciso recolher amostras de muitas espécies diferentes e, depois, testá-las a todas, uma a uma, e às respetivas moléculas.

"Avaliámos um total de 27 espécies de algas e dois dos compostos desta alga vermelha demonstraram ter esse efeito antitumoral", resume Celso Alves.

Numa primeira abordagem a equipa usou linhas celulares derivadas do cancro de pulmão, e os resultados foram tão positivos que o trabalho avançou a partir daí, testando outras linhas celulares de cancro de fígado e colorretal, graças a um projeto financiado em 172 mil euros pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Foi o projeto Red2Discovery, realizado em colaboração com equipas das universidades de Coimbra e de Santiago de Compostela, que terminou no ano passado. O trabalho permitiu fazer a caracterização exaustiva dos efeitos antitumorais daqueles dois compostos, testando-os em modelos celulares de cancro ainda mais complexos do que os anteriores.

Nesta altura já decorre, entretanto, o aprofundamento da investigação, agora no âmbito de um outro projeto mais vasto, o Point4Pac, que é liderado pelo Instituto de Investigação do Medicamento da Universidade de Lisboa (iMed.ULisboa), com um financiamento global de dois milhões de euros do COMPETE 2020, e cujo objetivo é acelerar o desenvolvimento de tecnologias e terapias inovadoras em cancro.

"O nosso contributo é isolar e fornecer as moléculas de origem marinha para serem avaliadas na sua ação antitumoral", esclarece o investigador do MARE-Politécnico de Leiria. E há ainda muito para estudar e testar. Desenvolver novas terapias e medicamentos é sempre trabalho para uma década, ou mais.

"Neste momento estamos a tentar compreender em detalhe como os compostos atuam, avaliando vários tipos de cancro e de células tumorais", explica Celso Alves. O caminho ainda é longo e nada está ganho à partida.

"É preciso perceber se o efeito destes compostos marinhos é superior ao de outros medicamentos já existentes. Se não for, acabará por não valer a pena produzir um novo fármaco a partir deles", diz o investigador.

Outra possibilidade é a de eles potenciarem o efeito terapêutico de fármacos já existentes em cancro. "Essa é outra das hipóteses que vamos analisar, e se houver bons resultados poderemos avançar para estudos mais complexos em modelo animal", estima.

Seja o que for que aconteça, estes são já conhecimentos novos sobre os recursos marinhos da costa portuguesa. E, nesse sentido, constituem uma base de partida para trabalhos futuros, na eventual busca de soluções para outros problemas em saúde ou em farmacologia.

"Com o nosso trabalho estamos a produzir conhecimento sobre os recursos marinhos da costa portuguesa e as suas potencialidades de aplicação em biotecnologia, algo que está ainda muito pouco explorado no nosso país", diz Celso Alves. E conclui: "Este é um património de conhecimento novo, no qual poderemos, no futuro, procurar respostas e soluções para muitos outros problemas e desafios."

Mais Notícias

Outras Notícias GMG