Rui Gonçalves. Das estradas de terra batida de Vidago ao Dakar das Arábias

Piloto transmontano é conhecido como Wild Kid e tem um longo percurso no motocrosse. Vai estrear-se na mítica prova de todo-o-terreno, que começa dia 2 e termina no dia 15. O rali esteve em risco de não se realizar devido à covid-19, mas vai rodar com percurso e regras novas. Pilotos fazem homenagens a Paulo Gonçalves, o português que morreu no Dakar de 2020.

Chamam-lhe o Wild Kid (miúdo selvagem) e tem como missão acabar o Dakar 2021, que começa dia 2. Rui Gonçalves (Sherco) é um estreante, mas isso não lhe tira a ambição e a vontade de honrar o amigo Paulo Gonçalves, que perdeu a vida na edição do ano passado.

Nasceu em maio de 1985, em Vidago, e aos 16 anos já conquistava títulos nacionais no supercrosse. Foi na pista que se tornou uma lenda do paddock, apesar de desconhecido aos olhos da maioria dos portugueses.

Com o decacampeão Stefan Everts como mentor, tornou-se o primeiro piloto português a vencer uma prova do Mundial de motocrosse, no circuito de Valkensward, na Holanda, em 2009, feito que lhe valeu uma medalha de mérito desportivo atribuído pelo governo. Mas nada disto teria acontecido se não tivesse abandonado Trás-os-Montes e ido para a Bélgica para fazer carreira no motocrosse.

Depois de 17 anos a competir no Campeonato Mundial de motocrosse - com um título de vice-campeão de MX2 conquistado em 2009 -, o transmontano quer agora fazer "o melhor resultado possível" no Dakar 2021, numa modalidade completamente nova para ele.

"É uma prova única e será a minha primeira participação. É claro que o espírito de aventura sobrepõe-se numa competição como o Dakar, mas a componente competitiva é de extrema importância. É uma prova que nos desafia a todos os níveis, física e psicologicamente, todos os dias durante duas semanas sem parar", afirmou o piloto da Sherco, admitindo "alguma ansiedade" pelo início da prova, que arranca neste sábado. No total serão 4262 quilómetros cronometrados nas famosas "especiais" em dez cidades da Arábia Saudita com chegada a Jeddah no dia 15.

Para o português, "a covid-19 será sem dúvida o mote deste Dakar". "Teremos uma grande exigência no tipo de contactos que podemos fazer dado que a organização quer que a caravana do Dakar funcione como bolha para evitar contágios", indica.

Para ele é tudo novo: "Será uma mudança muito grande em relação ao que estava habituado em competições com motos, porém trata-se de uma corrida de motos, e se há coisa de que gosto é competir em cima de uma moto, ou não tivesse sido piloto no Mundial de motocrosse durante 17 anos."

"Sem a rodagem desejada", uma vez que a pandemia cancelou quase todas as provas em 2020, o piloto vai para o rali apenas com uma prova de todo-o-terreno no currículo, o Rali da Andaluzia, "que não tem dunas nem areia", por isso não serve de teste. Só em março, quando pisou as areias do deserto em Marrocos, teve noção de como a moto se comporta sobre dunas. Ia com a ideia de ficar três semanas de treino em Marrocos, mas ficou apenas uma por causa do coronavírus.

A falta de provas criou-lhe "sérias dificuldades" no treino, pois as competições semelhantes ao Dakar, como os ralis em África, foram todos cancelados: "Seriam de extrema importância para ganhar experiência, nomeadamente na navegação no deserto."

Competir no Mundial de motocrosse é um "bocadinho" diferente de competir num rali. No motocrosse a pista é sempre a mesma durante 22 voltas, enquanto no rali "o percurso é desconhecido e requer uma concentração muito elevada". Rui gosta de correr na areia e por isso tem a certeza de que vai adorar competir no rali.

Foi anunciado como piloto da Sherco no início de 2020, pelo que se pode dizer que "está há um ano à espera disto". Vai correr com o número 19, o mesmo que usou no primeiro campeonato nacional. É o português com o dorsal mais baixo e sabe que "Portugal tem tido ao longo dos anos uma presença muito forte nesta prova". Há por isso um estatuto a manter: "Temos um conjunto de pilotos com imensa rapidez e que ao longo dos anos têm imposto um ritmo rápido no Dakar. Penso que em Portugal temos condições ótimas para treinar e agora estamos numa fase em que a experiência acumulada por pilotos como Hélder Rodrigues, Rúben Faria e outros deu os seus resultados em termos práticos com a vitória no Dakar 2020 [Rúben Faria como diretor desportivo da Honda]. O todo-o-terreno é uma modalidade em que nós portugueses teremos sempre uma palavra a dizer."

O Dakar será especial também no capítulo pessoal. Rui privou desde tenra idade com Paulo Gonçalves, motard que morreu durante a prova há sensivelmente um ano, cresceu a admirá-lo. Foram colegas na Motogomes e em várias participações de Portugal no Motocross das Nações. Tinham combinado um jantar para depois do rali de 2020, mas Paulo já não voltou da Arábia Saudita com vida e "deixou um vazio enorme" na vida de Rui.

Mortes levam a mudanças: Airbag e cursos de primeiros socorros

O roteiro do Dakar 2021 é mais técnico e com menos trechos de velocidade final. O percurso intercala estradas de terra, dunas e pedras e deserto, traçado que obedece a novas regras de segurança e à necessidade de criar maior competitividade sem perder o espírito aventureiro dos concorrentes em nome próprio.

Uma das alterações diz respeito às rodas. Cada piloto vai apresentar seis rodas traseiras, nas verificações técnicas, que serão carimbadas, e é com elas que vai ter de fazer as 12 etapas. Deixa de ser permitido um piloto ceder uma roda a outro concorrente.

O fator segurança também entra na equação. Depois das duas mortes em 2020, a organização introduziu novas regras. Além da obrigatoriedade do uso de airbag (instalado num colete e com GPS para ser localizável em segundos), haverá mais waypoints nas zonas perigosas de modo a reduzir a velocidade dos pilotos, obrigados a fazer um curso de primeiros socorros.

A distribuição do roadbook (percurso mapeado) em papel será feita apenas vinte minutos antes do início de cada uma das etapas, ao contrário da edição passada. A ideia é dar mais competitividade à corrida, uma vez que as equipas com mais argumentos financeiros costumavam estudar o percurso com recurso a drones e GPS, ganhando assim vantagem em relação aos pilotos em nome individual.

As zonas mais perigosas serão precedidas de um sinal sonoro a 200 metros e a velocidade passa a ser limitada a 90 km/h. A paragem de 15 minutos será reservada para reabastecimento e repouso, permanecendo o Dakar Experience, que no ano passado permitiu a 22 equipas continuar em prova apesar de desclassificadas por uma ou outra razão. É uma forma de manter vivo o espírito idealizado por Thierry Sabine, o pai do Dakar.

Covid-19 e lesões encurtam contingente português

A 43.ª edição do Rali Dakar arranca a sério no dia 3 de janeiro em Jeddah e vai contar com um contingente de 15 pilotos e navegadores portugueses e um diretor desportivo. Além da estreia de Rui Gonçalves na equipa oficial da Sherco, Alexandre Azinhais (KTM), Sebastian Buhler (Hero), que corre com licença alemã, e Joaquim Rodrigues (Hero) completam o lote de motards presentes. O cunhado de Speedy Gonçalves decidiu "voltar ao Dakar para honrar o amigo e livrar-se dos traumas que teve com ele naquele deserto: "Estou a tentar deixar o Paulo feliz e quero deixá-lo orgulhoso."

Este Dakar ficará ainda marcado por uma ausência de peso. Mário Patrão (KTM) fraturou o fémur no início deste mês e não participará. Também Pedro Bianchi Prata não irá à Arábia Saudita. O piloto de Marco de Canaveses esteve envolvido em dois projetos, que acabaram por não ir para a frente devido a dificuldades económicas provocadas pela pandemia e o obrigaram a interromper uma série de 15 participações seguidas.

Já Ruben Faria volta a comandar a equipa da Honda, que irá defender o título conquistado em 2020 pelo norte-americano Ricky Brabec. A KTM, a Yamaha, a Hero e a Sherco vão tentar impedir a Honda de arrecadar a segunda vitória seguida.

Nos automóveis, a covid-19 impediu Manuel Porém de navegar o irmão Ricardo, antigo campeão nacional de todo-o-terreno, num Borgward, tendo sido substituído por Jorge Monteiro, que foi o seu navegador na estreia, em 2019. Já o navegador Filipe Palmeiro vai acompanhar o lituano Benediktas Vanagas num Toyota. Uma troca de última hora ligou mais um lituano a um português: Gintas Petrus e José Marques (Optimus/Petrus Kombucha Team) são uma nova dupla. Já Paulo Fiúza, que no ano passado navegou com Stéphane Peterhansel, vai com Vaidotas Zala.

Nos camiões, José Martins (Iveco) como piloto, Nuno Fojo (Man) como copiloto do espanhol Alberto Herrero e Armando Loureiro como copiloto de Jordi Iniesta (Man). Nos SSV, participam Rui Miguel Carneiro/Filipe Serra (MMP) e Lourenço Rosa/Joaquim Dias (Can-Am).

Loeb desafia os Minis e os Toyotas

Os participantes do Rali Dakar 2021 foram testados à covid-19 antes de chegarem à Arábia Saudita e passaram por uma miniquarentena de 48 horas.

A pandemia levou a Arábia Saudita a fechar as fronteiras deixando o mítico rali em risco. A organização garantiu voos alternativos de forma a ajudar os pilotos a chegar a tempo da prova, mas pode haver quem não consiga contornar a pesada logística. As grandes equipas programaram chegar à Arábia no início de dezembro em voos privados e por lá ficaram até ao início do novo Ano.

Foi o caso de Carlos Sainz (Mini), o campeão em título e um dos candidatos ao triunfo nos carros, categoria que tem 16 estreantes. Stefan Peterhansel (Mini), recordista de vitórias no Dakar, Nasser Al-Attiyah (Toyota ), Giniel de Villiers (Toyota) e Nani Roma (BRX Prodrive), com Sébastien Loeb (BRX Prodrive) sempre à espreita, são os outros candidatos.

O francês é uma lenda dos ralis. Participou entre 2016 e 2019, tendo conseguido um 2.º e um 3.º lugar, o que lhe abriu o apetite para tentar a vitória futura. Depois de quatro anos com o Peugeot, Loeb vai em 2021 estrear um novo carro, o BRX Hunter produzido pela Prodrive, segundo especificações do piloto e com características especiais para o traçado dos ralis. A carroçaria em fibra foi desenhada por Ian Callum, o mesmo que esculpiu alguns dos Jaguares mais elegantes e com o motor à frente e ao centro para equilibrar o carro nos saltos.

Mas há uma mulher a tentar fazer história no rali. A espanhola Cristina Gutiérrez foi a mais bem classificada entre as pilotos nas duas últimas edições e aponta a ficar entre o top 20 neste ano. Correr o Dakar já é uma vitória para ela, uma vez que há dois meses tinha perdido os patrocinadores devido à pandemia e estava sem equipa até receber um convite da Red Bull para poder participar.

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