Médicos querem mudança de critérios para incluir todos os idosos na primeira fase de vacinação

Em Portugal morreram já 6972 pessoas com o novo coronavírus e 80% têm 70 ou mais anos. Número de idosos representa 14,4% dos doentes, mas só serão vacinados na segunda fase. Ordem dos Médicos contesta.

Portugal optou por vacinar contra a covid-19 , em primeiro lugar, os profissionais de saúde, das forças da ordem, residentes em lares ou nos cuidados continuados e doentes graves.

A decisão não tem sido pacífica e, ontem, a Ordem dos Médicos (OM) sublinhou que sempre defendeu dois critérios: a idade e o estado de saúde. Isto num dia em que o país registou mais 66 mortes , reforçando a taxa de mortalidade entre a população mais idosa. O grupo dos 70 e mais anos não é o mais infetado, mas é de longe o que tem mais vítimas mortais entre os quase sete mil óbitos no país. Por isso, os médicos defendem a reformulação do Programa de Vacinação.

O plano atual é vacinar, nesta primeira fase, os residentes em lares, etapa que começa na segunda-feira nos 25 concelhos com risco extremamente elevado de propagação da covid-19. O início da vacinação, faz no domingo uma semana, começou pelos profissionais de saúde, um critério seguido por muitos outros países europeus. Já a Espanha, a França, a Bélgica, a Alemanha, a Croácia e a República Checa deram prioridade à idade, tendo em conta a elevada taxa de mortalidade entre os mais velhos nesta pandemia.

6972 Mortes, 68% são de pessoas com 80 e mais anos e 20% entre 70 e 79.


Os últimos dados da Direção-Geral da Saúde (DGS), ontem divulgados, indicam 6972 mortes devido à covid-19 (3623 homens e 3349 mulheres) nas 24 horas anteriores. E 4717 são de pessoas com 80 e mais anos. Nas últimas 24 horas, o Norte - que tem o maior número de óbitos (3222) - registou mais 28 vítimas mortais. Também foi a norte que mais pessoas testaram positivo: 2745. Lisboa e Vale do Tejo teve mais 23 mortes (2415 no total) e mais 2131 infetados.

O bastonário da OM disse ao DN que sempre defendeu os critérios da idade e da gravidade da doença como fatores de prioridade, contestando que o Plano de Vacinação siga as indicações da Ordem, como "tem sido referido no calor do debate político". Esclarece Miguel Guimarães: "Os profissionais de saúde são um grupo que deve ser vacinado porque estão a tratar de nós e também têm de proteger os utentes. Mas o que sempre defendemos é que a vacinação deveria ter em conta a redução da mortalidade, da morbilidade e da sobrecarga dos serviços de saúde, e isso com base em dois fatores prioritários: idade e a gravidade da doença."

420 629 infetados, 8% têm 80 ou mais anos e 6,4% entre 70 e 79.


Acrescenta que essa posição foi transmitida no parecer entregue a 21 de dezembro à task force que coordena a vacinação contra a covid-19, dirigida por Francisco Ramos. Nesse parecer os médicos salientam que a taxa de letalidade varia entre 0,3%, na faixa dos 50 aos 59 anos, e 13,6%, no grupo acima dos 80 e mais anos. Miguel Guimarães defende que este mesmo critério deveria ser aplicado aos profissionais de saúde. Reivindica a reformulação da programação inicial, que critica: "Não é um plano, são os hospitais que gerem a vacinação."

O médico de família Rui Nogueira é da mesma opinião, também concordando com a prioridade dada aos profissionais de saúde.

"O plano deveria ser revisto e não chegam três fases, ou então deveria haver várias etapas. Na prática, é o que está a acontecer, mas deveria ser mais estruturado. Estão a vacinar os profissionais de saúde e, no dia 4, avançam para os lares, que é onde tem havido muitos surtos da doença. Agora, a esmagadora maioria dos idosos não estão em lares e deveria ser dada prioridade, pelo menos, aos com mais de 80."

1,7 milhões Residentes com 70 ou mais anos de idade. Vivem 94 mil em lares


O relatório da Carta Social de 2018, o último, indica que há 94 067 residentes em lares, distribuídos por 1704 unidades apoiadas pela Segurança Social e 717 equipamentos privados. Estamos a falar das estruturas legais, pois existem muitos outras residências ilegais que não estão quantificados, o que também se reflete na vacinação.

O grupo com 65 ou mais anos, considerado pelo Instituto Nacional de Estatística a população idosa, soma 2 280 424 pessoas, que serão vacinadas na segunda fase, estando previstos 1,8 milhões de vacinas. A este grupo juntam-se 900 mil da faixa dos 50 a 64 anos com determinadas patologias. Curiosamente, no simulador do governo para os cidadãos saberem qual é a sua fase (https://covid19estamoson.gov.pt/simualacao-fase-vacinacao/) não surge a segunda fase para os 65 e mais anos. Ao escrever um ano de nascimento de há 80 anos, a resposta obtida é que a vacinação será na terceira fase, quando entra toda a população e que está programada para abril.

Mas o problema maior, diz Rui Nogueira, é não haver vacinas para as necessidades. "Nesta primeira fase, estão previstas 950 mil, mas faltam 230 mil, não há capacidade mundial para produzir mais. Há 70 mil vacinas para os centros de saúde, o que dá uma média de 70 por cada um. Haverá muitos profissionais de saúde e pessoas com as doenças indicadas como prioritárias que vão passar para abril. Há notícias de que se está a aumentar a produção e a aprovação de outras vacinas, mas não há nada concreto."

Nesta fase, estão previstas 400 mil vacinas para os mais de 50 anos com doenças graves, como insuficiência cardíaca ou doença respiratória crónica; 300 mil para profissionais de saúde envolvidos na prestação de cuidados a doentes e forças da ordem; 250 para funcionários e residentes em lares ou em cuidados continuados.

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