Enterrar os mortos e cuidar dos vivos

Numa entrevista recente, a propósito dos erros médicos no SNS e de qual deve ser a reação do Estado aos mesmos, a ministra da Saúde disse, a dada altura, que era necessário enterrar os mortos e cuidar dos vivos. A frase é manifestamente infeliz, aplicada que foi aos erros médicos e à suas consequências, e isso até foi aparentemente reconhecido pela ministra na própria entrevista.

Sendo uma frase manifestamente infeliz e pouco propositada, não é de espantar que a estação de televisão a tenha destacado em rodapé, e muito menos é de espantar que, segundos depois, as redes sociais se tenham dedicado a espalhar a fotografia desse momento e desse rodapé, acompanhada de comentários muito críticos, próprios de quem se ressente de uma frieza absurda perante um erro médico.

Sucede que essa frase, como sucede com a maioria das frases polémicas e infelizes dos políticos, tinha um contexto. A frase será infeliz, mas quem viu a entrevista sabe que não foi apenas isso que a ministra disse e sabe que a conclusão da entrevista, a propósito do erro médico, não foi propriamente a de que esta não queria saber do erro e que tínhamos era de trabalhar para os restantes que não morreram.

Esperei pelas reações indignadas dos partidos da nossa esquerda, que nunca quiseram saber dos contextos. Nunca quiseram saber o que quis Passos dizer com "piegas". Nem quiseram contextualizar o suposto repto de Passos à emigração. Nem quiseram perceber o que Calvão da Silva quis dizer com "fúria demoníaca". Assim como não lhes interessou contextualizar a esperança de Cristas pela vinda da chuva.

Debalde. Calados, ausentes, omissos. O contexto, claro. A ministra não o disse no mau sentido, claro. É de má-fé citar essa frase sem as anteriores, claro.

Tudo isso certo, tudo isso válido, mas tudo isso aplicável aos políticos de direita que ainda são perseguidos pelas descontextualizadas frases que alguns escolheram para adornar a sua oposição. Cristas, por exemplo, em todas as épocas de fogos é confrontada com a sua frase sobre ter fé que chova, quando a sua frase foi dita a propósito de uma seca, circunstância que altera o sentido da frase, o que nunca impediu quem dela se serviu para propósitos políticos.

Como é evidente, se a ministra da Saúde fosse de direita, não haveria cá contexto nem lógica: seria lida literalmente, acusada de uma inadmissível frieza perante o sofrimento. Junte-se a isso as situações de colapso do SNS e podemos imaginar as indignações, os artigos, as manifestações, os cordões humanos contra a ministra. Lembram-se de dirigentes de esquerda a acusar o governo de Passos e Portas de mortes concretas no SNS? Caladinhos, agora, silenciando o seu amor à saúde e às pessoas, porque é um amor partidário, muito relativo.
Não é de espantar que haja muita gente que só pondera vir para a política através da porta esquerda. Poupa-nos de tanta coisa...

Advogado e vice-presidente do CDS

Mais Notícias

Outras Notícias GMG