Exclusivo A História irónica

Em Janeiro de 1998, quando rebentou o escândalo, Monica refugiou-se em casa da mãe. Na televisão, o Presidente jurava ao país que nunca tivera relações sexuais com "essa mulher, Miss Lewinski". E, para fugir das bocas do mundo, essa mulher, Miss Lewinski, permaneceu algumas semanas enclausurada no apartamento materno, enquanto lá fora dezenas de repórteres acampavam no passeio e milhões de pessoas discutiam o que de oral se passara numa Casa que ainda dizem ser Branca. Que o apartamento da mãe de Monica Lewinski ficava num dos seis edifícios que integram o complexo Watergate é apenas mais uma ironia, das muitas em que a História é fértil. Vários famosos moraram lá, de Plácido Domingo a Mstislav Rostropovich, passando por Robert McNamara, Condoleezza Rice ou Alan Greenspan. Ah, e Elizabeth Taylor, claro, quando esteve casada com John Warner, o seu sexto mas não último marido.
Menos famosa, mas não menos influente nas ironias da História, outra moradora do complexo Watergate foi Rose Mary Woods, secretária pessoal de Richard Nixon durante toda a vida, muito antes sequer de este chegar à Casa que ainda dizem ser Branca. Rose trabalhava com ele desde 1951, e permaneceu-lhe fiel até ao fim, contra tudo e todos. Acompanhou-o até à Califórnia após Nixon ter resignado, metendo-se num helicóptero e deixando para sempre aquela Casa, que ainda dizem ser Branca. Por ele mentira descaradamente sobre a destruição das gravações secretas que Nixon fazia das conversas que tinha no Salão Oval, exactamente no mesmo lugar em que, anos depois, Bill Clinton e Monica Lewinski também manteriam conversas de bem funda oralidade. Que o escândalo Watergate tenha sido espoletado por um informador secreto com o nome de código "Garganta Funda" é apenas outra ironia, das muitas em que a História é fértil. Não foi Nixon, note-se, quem começou a gravar secretamente as conversas no Salão Oval, prática começada por Roosevelt em 1940. Mas seria o desastrado depoimento de Rose Mary Woods perante um grande júri em 1974, em que garantiu a pés juntos ter apagado inadvertidamente dezoito minutos de conversas essenciais do caso Watergate, que retirou o pouco que restava da credibilidade do Presidente, precipitando a sua queda. Que a primeira intrusão criminosa no complexo Watergate tenha sido um furto de jóias em 1965, e que esse furto tenha sido cometido no apartamento de Rose Mary Woods, é apenas mais uma ironia, das muitas em que a História é fértil.

A ironia maior talvez resida, porém, no facto de o complexo Watergate ter sido desenhado por um fascista. Luigi Moretti nasceu em Roma na via Napoleone III, num apartamento onde morou praticamente toda a vida. Filho natural de um engenheiro - e também arquitecto - de origens belgas, Moretti licenciou-se com brilho na Escola de Arquitectura de Roma. Em 1933, pouco depois de se formar, conheceu Renato Ricci, presidente da Opera Nazionale Balilla, a organização paramilitar de juventude fascista, que serviria de inspiração e modelo à nossa Mocidade Portuguesa. Ricci nomeou-o director técnico dos Balillas e, nessa qualidade, Luigi Moretti concebeu diversos centros da juventude mussoliniana. Em 1937, desenhou o Fórum Mussolini (mais tarde denominado Fórum Itálico), grandioso complexo desportivo de Roma que deveria albergar as Olimpíadas de 1940, com as quais o Duce sonhava ultrapassar em fausto e glória os Jogos de Berlim de 1936. Considerado um dos mais importantes arquitectos italianos do século XX - e, sem dúvida, um dos maiores arquitectos do período fascista -, Moretti participou no concurso para a construção do Palazzo Littorio (ou Casa del Fascio) e concebeu vários edifícios da famosa EUR, acrónimo de Esposizione Universale Roma, planeada para marcar com pompa os vinte anos do regime. Contudo, e à semelhança do que ocorrera com as Olimpíadas de 1940, o deflagrar da 2.ª Guerra deitaria por terra o sonho da Exposição Universal de Roma. Moretti foi também autor de várias casas de hierarcas do fascismo, entre as quais a de Ettore Mutti, o todo-poderoso e impetuoso secretário do Partido Nacional Fascista, caído em desgraça em 1940 e assassinado em 1943, naquele que foi um dos maiores mistérios do período fascista, sobre o qual pairam ainda hoje as mais desvairadas teorias. No seu Segredos de Roma, Corrado Augias recorda-se de brincar em criança nas imediações da casa de Ettore Mutti, na Porta San Sebastiano, de onde viu sair uma fila ordeira de cidadãos romanos que se entregavam, com metódico afinco, a pilhar os despojos da residência do prócere fascista tombado em desgraça - e ceifado à bala no pinhal de Fregene. Edificada junto à Porta Ápia, na Muralha Aureliana, a casa concebida por Luigi Moretti primava pela discrição, sendo lá que Ettore Mutti recebia as suas muitas amantes, entre outros encontros políticos. A moradia de Moretti não ofendia o espaço envolvente, antiquíssimo, e, à parte um ou outro mosaico com a efígie de Mussolini, pouco parecia ser a residência de um fascista concebida por outro fascista. O arquitecto era um homem culto, um bibliófilo apaixonado, conhecedor profundo da história antiga, respeitador do passado e das suas formas. Em 1942, mergulhou numa prudente obscuridade, o que não o salvaria de em 1945 ser detido por colaboracionismo e preso por um breve período na cadeia de San Victor. Logo no final de 1945, abriu novo ateliê de arquitectura e, graças às suas relações no sector imobiliário e no Vaticano, deu redobrado impulso à carreira, assinando inúmeros projectos de hotéis e blocos de apartamentos, além de moradias para magnatas e até a aldeia olímpica dos Jogos de Roma de 1960. Fundou uma revista da especialidade, abriu uma galeria de arte, teve papel activo no planeamento urbano de vários bairros romanos, recebeu vários e prestigiosos prémios. Desenhou edifícios pelo mundo fora, do Canadá ao Koweit, de França à Argélia. Em 1962, concebeu o complexo Watergate, em Washington D.C., onde, dez anos depois, um grupo de meliantes seria apanhado a vasculhar a sede do comité nacional do Partido Democrata. Luigi Walter Moretti morreu em 1973, vítima de enfarte, aos 66 anos, quando velejava no seu barco ao largo da ilha de Capraia.

Os historiadores ainda hoje não se entendem sobre a origem do nome "Watergate", mas o facto é que, devido às tropelias de um Presidente e à aselhice da sua fiel secretária, o sufixo "gate" passou a designar tudo quanto é escandaloso, vil ou corrupto. "Monicagate", "Lewinskygate", "Sexgate" são alguns dos nomes do caso que envolveu Bill Clinton e a estagiária de uma Casa que ainda dizem ser Branca. Também entre nós a política e o futebol têm gerado um sem-fim de "gates", tantos que seria fastidioso enumerá-los. Diz-se, e é verdade, que o Watergate marcou um ponto de viragem nas relações dos americanos com a política e que a confiança dos cidadãos no poder nunca mais foi a mesma. É dessa falta de confiança, diariamente alimentada por sucessivos "gates" e escândalos, que surgem os líderes e os populismos contemporâneos, que muitos não hesitam em apelidar de fascistas. Que tudo tenha começado num edifício concebido por um fascista é mais uma ironia da História, das muitas em que a História é fértil.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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