O laboratório que começou com voluntários do IMM não para de crescer

Apesar de os casos terem acalmado no período do verão, cedo se percebeu que a pandemia estava para durar. E aquilo que era um trabalho voluntário de investigadores do Instituto de Medicina Molecular passou a ser algo efetivo, com trabalhadores e um espaço próprio.

Como pode um cientista perante uma pandemia ficar de braços cruzados? Não pode. Nem consegue. Quando o país confinou em meados de março, também fecharam instituições como o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM), em Lisboa. Como a maioria dos portugueses, os investigadores foram para casa, mas queriam fazer alguma coisa para ajudar de imediato a combater o novo coronavírus. E em menos de 15 dias estavam prontos para ajudar a analisar as amostras dos testes à covid-19, mesmo que o IMM não fosse um laboratório de diagnóstico, mesmo que não tivessem equipamentos para isso.

Cientistas que são, começaram a fazer manualmente o que os técnicos de laboratório fazem em máquinas. Zaragatoas para aqui, tubos para ali, extração de ácido ribonucleico, tudo era feito à mão. Durante o confinamento, chegaram a ser 120 os voluntários no novo "laboratório" do IMM.

"Se a técnica é o que fazemos normalmente, usando um reagente para biologia molecular, se eu trabalho com a malária e consigo detetar os parasitas da malária num fígado, que é uma agulha num palheiro, também havemos conseguir detetar o vírus", pensou Vanessa Zuzarte Luís, 42 anos, a investigadora do IMM então desafiada a fazer qualquer coisa por Maria Manuel Mota e que agora coordena o novo Centro de Diagnóstico Molecular Covid-19 do IMM.

Apesar de os casos terem acalmado no período do verão, cedo se percebeu que a pandemia estava para durar. E aquilo que era um trabalho voluntário de investigadores do IMM passou a ser algo efetivo, com trabalhadores e um espaço próprio. Vanessa Zuzarte Luís acabou por arrumar durante algum tempo a investigação da malária para coordenar o Centro de Diagnóstico Molecular, que funciona no Estádio Universitário, no Centro de Medicina Desportiva da Universidade de Lisboa.

"Se se cumprir a intenção de não voltarmos a fechar o país, a pandemia não abranda"

Foram já contratados quatro técnicos de laboratório e o volume de amostras que começaram a chegar nos últimos dias - o número de novas infeções não para de aumentar e chegou aos 4656 casos e 40 mortes nas últimas 24 horas - já dita a necessidade de contratar mais um e até de juntar mais máquinas às que entretanto foram compradas.

"Se se cumprir a intenção de não voltarmos a fechar o país, a pandemia não abranda. Na primeira fase reduzimos e controlámos, porque estávamos todos em casa. O facto de continuarmos a nossa vida profissional e familiar leva a que haja cada vez mais contactos, pelo que a situação ainda vai piorar", diz.

O número de amostras que analisam revelam essa mesma subida: se no período mais calmo da pandemia chegou a ser de 250 por semana, agora há dias em que são 900. E o número de resultados positivos segue a curva - ainda nesta semana, a equipa chegou a pensar que haveria erro numa das placas de amostras analisadas, dado o número elevado de presença do novo coronavírus. Mas não havia, eram mesmo casos positivos. Nesta última quinta-feira, o centro tinha atingido um recorde: 125 positivos em 770 testes.

As dificuldades e a falta de materiais

Mas mesmo para quem é cientista, houve dificuldades para encetar este projeto. Começou com a falta de máquinas e a demora que advinha do facto de terem de fazer os testes PCR todos manualmente. Mas em março, quando deitaram mãos à obra, uns a deslocarem-se por turnos ao laboratório que criaram no IMM, outros em casa a fazer as tarefas burocráticas de inserir os resultados dos testes nas plataformas, foi preciso criar protocolos e manuais de procedimento - era importante que quem fazia a recolha das amostras com as zaragatoas no terreno mantivesse todos os protocolos de segurança e higiene.

Estávamos em março, a Organização Mundial da Saúde tinha declarado o estado de pandemia. Depois da China, o vírus já atacava em força a Europa, nomeadamente a Itália e a Espanha. E faltava quase tudo. As notícias falavam da dramática falta de ventiladores, da impossibilidade de as empresas fornecerem máscaras e outros materiais de proteção individual... E, para fazer os testes, os cientistas do IMM depararam-se com a falta de um material básico, os reagentes.

"Havia uma grande escassez de reagentes, estava tudo esgotado e não chegavam a Portugal. Era uma altura em que faltava tudo, no mundo inteiro. Ainda por cima, a pandemia chegou mais tarde a Portugal e, nessa altura, os recursos já estavam esgotados."

A necessidade aguça o engenho e resignarem-se estava fora de questão. Contactaram uma empresa portuguesa, a Nyztec, que acedeu a colaborar e ir fabricar reagentes. O IMM deixou assim de depender desse material vindo do estrangeiro.

A ligação ao Hospital de Santa Maria levou a que a primeira colaboração tenha sido com este hospital, nomeadamente quando houve dois surtos em enfermarias e a quantidade de amostras para o laboratório do hospital analisar aumentou muito. Mas rapidamente se percebeu que a capacidade do IMM ia muito além do que ajudar o Santa Maria, que, aliás, também tem os seus meios.

Testagem maciça em lares

E é então que começa a testagem em massa nos lares. Assim, um dos primeiros "clientes" do laboratório do IMM acabou por ser o Ministério do Trabalho e da Segurança Social, a que se juntou depois a GNR, além de uma forte parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa. Nessa altura foram realizados nove mil testes em lares - uma espécie de batismo de fogo que os preparou para o que se seguiria e, certamente, para o que ainda está para vir se a escalada de infeções não for travada. Neste sábado, o Governo vai anunciar novas medidas de restrição dado o aumento de casos que, nos últimos dias, tem sido mais significativo sobretudo na região Norte e, seguidamente, na Área Metropolitana de Lisboa.

O Instituto de Medicina Molecular reabriu em maio e a task force de voluntários que se tinham armado em okupas de vários espaços do IMM - "pilhámos os laboratórios, precisávamos de material, tudo o que vinha de fora não recebíamos e o estado de emergência vale tudo", diz Vanessa Zuzarte Luís - mudou-se para o laboratório da Faculdade de Medicina.

Passada a primeira vaga da pandemia, o aumento do número de infeções no país acalmou. "Passámos a fase mais crítica. Mas perguntávamos o que íamos fazer como cientistas, fechávamos as portas? Percebemos que não ia ficar por ali, que o vírus ia de férias, mas voltava", diz a coordenadora.

E a direção do IMM decidiu criar o centro, investir em equipamentos, arranjar sponsors, contratar uma equipa. A 1 de julho, a equipa estava a trabalhar e no início de setembro mudava-se para o novo espaço, no Estádio Universitário, onde trabalham oito pessoas, porque há também uma equipa dedicada à serologia.

Na primeira fase, no pico da curva pandémica, 850 amostras diárias foi o máximo que o Centro de Diagnóstico Molecular Covid-19 do IMM analisou. Os números mantiveram-se altos em abril, maio e até ao início de junho. Em agosto - com o país a tentar a normalidade de ir a banhos - chegaram a ter apenas 250 amostras semanais. Mas em setembro começou a escalar, e nas últimas duas semanas "tem sido uma loucura", com dias de 900 amostras analisadas. Além das amostras recolhidas no drive thru da Cruz Vermelha, chegam as da GNR e a da nova fase de testagem preventiva que está a decorrer em lares.

Mas se mexer em tubos, placas e plaquetas para descobrir a existência de um vírus é coisa que não assusta cientistas, já a burocracia que está associada a todo o processo é diferente. Por isso, foi preciso destacar uma pessoa para tratar desta parte logística, que não é de somenos. É preciso contactar com os parceiros para saber quantas amostras chegam e quando, é preciso saber quantas zaragatoas mandar para os testes do dia seguinte, é preciso dar conta dos resultados a médicos e delegados de saúde, é preciso introduzir os dados no Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica.

A mulher da comunicação e da logística

Essa pessoa é Rita Rua Ferreira, 33 anos, que também era investigadora do IMM mas que estava com dúvidas sobre o que queria fazer da sua vida depois de terminado o doutoramento em Estrasburgo. "Acho que sou melhor a apoiar os cientistas do que como cientista."

Pode parecer estranho que quem investiu numa formação e estava a fazer investigação na área da produção de vasos sanguíneos (angiogénese) prefira os contactos, a gestão e a organização de um laboratório de diagnóstico. Mas não é. É assim que se sente bem, enquanto houver pandemia é isso que fará, depois logo se vê. O telefone de Rita não para de tocar. Mas não são só os parceiros que lhe ligam. Nesta manhã já tinha recebido uma chamada particular, de uma funcionária de um lar que estava bastante ansiosa porque, ao contrário dos colegas, não tinha recebido o resultado do teste, porque teve de ser repetido. Rita descansou-a: "Estava negativo."

Este à-vontade de Rita com a logística e os contactos deixam perceber que é a pessoa certa a função. E Vanessa Luís lembra como foi no início, quando tudo isto era uma novidade para todos. "Como cientistas estamos habituados ao laboratório. Não estávamos era treinados para receber telefonemas da senhora enfermeira a perguntar o que fazer com a zaragatoa ou a perguntas "o que faço com o teste positivo?"."

Com as previsões de que o número de infeções por covid-19 irá continuar a crescer, o Centro de Diagnóstico Molecular Covid-19 prepara-se para contratar mais um elemento e comprar mais uma máquina - ao todo têm capacidade para fazer 1500 análises diárias. Desde que as amostras ali dão entrada, em seis/doze horas já têm resultado, dependendo do número de amostras que há para analisar. O processo em si demora quatro horas.

A previsão é que nos próximos dois anos Vanessa Zuzarte Luís esteja a coordenar este centro. "Esperamos que venha a vacina rapidamente. Mas mesmo que tenha êxito e seja eficaz, até chegar a toda a população vai levar muito tempo. Isto apanha-me na fase final do meu projeto, e não deixo de sentir algum amargo de boca porque se acontecesse três meses mais tarde tinha conseguido fechar." Mas há uma máxima que segue. "Aprendi há muitos anos a trabalhar a prioridade e a urgência."

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