"Na noite eleitoral, devemos prestar atenção sobretudo aos estados do Midwest: Wisconsin, Michigan, Ohio e Pensilvânia"

Em entrevista ao DN, Luís Nuno Rodrigues, diretor do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL e historiador doutorado nos Estados Unidos, diz que as eleições americanas desta terça-feira acontecem num contexto sem precedentes de crise de saúde pública e também económica, marcado ainda pela agudização da polarização da sociedade.

Sem pedir prognósticos, a tradição americana favorece o presidente em funções? Dos três últimos, todos foram reeleitos para um segundo mandato.
Sim, por norma os presidentes nos Estados Unidos são eleitos para um segundo mandato. Neste século, George W. Bush e Barack Obama foram-no. Devem existir uns sete casos de não reeleição no século XIX, e no século XX apenas cinco. No entanto, é necessário ter em conta que os últimos presidentes que falharam a reeleição fizeram-no em momentos particularmente conturbados na história dos Estados Unidos e do mundo. Quer sob o ponto de vista político e social, como Gerald Ford (que, na verdade, não tinha sido eleito uma primeira vez) ou James Carter, nos anos de 1970; quer sob o ponto de vista económico, como foi o caso de Herbert Hoover, em 1932, e, mais recentemente, de George H. Bush. O momento que atravessamos representa, sem dúvida, um contexto histórico sem precedentes. À crise de saúde pública junta-se uma grave crise económica e de emprego e, além disso, ou por via disso, uma agudização da profunda polarização existente na sociedade norte-americana e que já vinha sendo visível há vários anos.

A economia estava com excelentes números antes da pandemia. O que poderá ser mais decisivo no resultado, a avaliação do desempenho de Donald Trump pré-covid ou a forma como lidou com o vírus?
Estava com número interessantes antes da pandemia e, aparentemente, apresentou novos sinais de recuperação nos últimos dias, mas o modo como a administração lidou com a pandemia foi, de facto, desastroso. De qualquer modo, os resultados eleitorais, nos Estados Unidos, nem sempre resultam da evolução conjuntural, de curto prazo. Em determinados estados existe uma estabilidade ao longo de décadas em termos de votação. Existem estados onde já sabemos que o Partido Republicano irá ganhar e outros em que o vencedor será o Partido Democrático. E isto é muito importante num sistema de colégio eleitoral em que as contas, no final, se fazem pelo número de grandes eleitores e não em termos de votos absolutos. Dito isto, o modo como a administração Trump lidou com a crise de covid-19 pode ser decisiva nos chamados "swing states", isto é, aqueles estados em que não existe uma maioria clara e histórica para nenhum dos partidos. Na noite eleitoral, devemos prestar atenção sobretudo aos Estados do chamado "Midwest", ou seja, Wisconsin, Michigan, Ohio e Pensilvânia. Não querendo fazer prognósticos, muito possivelmente é aí que se vão decidir estas eleições.

Joe Biden acabou por ver a sua designação pelos democratas acelerada pela pandemia. O duelo com Bernie Sanders foi evitado. Significa isto que o partido vai mais coeso para as eleições do que com Hillary Clinton em 2016?
Penso que sim. Na verdade, como sugere na sua pergunta, sabemos que em 2016 muitos apoiantes de Sanders não se reviram na candidatura de Hillary Clinton e poderão não ter votado na candidata do Partido Democrático. Biden representa também uma ala mais moderada do partido, em comparação com Sanders ou com alguns congressistas democráticos. De qualquer modo, penso que fez uma candidatura mais abrangente e procurou forjar consensos, pelo que terá capacidade de mobilizar setores do eleitorado que, porventura, não terão votado em 2016. Por exemplo, é conhecida a sua popularidade no eleitorado afro-americano, o que se pode revelar decisivo em determinados estados. A escolha de Kamala Harris para vice-presidente, para além do seu perfil de competência enquanto procuradora e senadora, também foi um sinal por parte de Biden em relação ao eleitorado feminino e afro-americano.

Nas últimas últimas sete eleições presidenciais, só uma vez (George W. Bush em 2004) o candidato do Partido Republicano venceu no voto popular. Mesmo Trump teve menos votos populares do que Hillary. Se se repetir a decisão graças unicamente a maioria no Colégio Eleitoral, pode criar-se um problema grave para a democracia americana?
O sistema eleitoral dos Estados Unidos não é uma bizarria sem sentido. Ele provém de razões históricas e sobretudo do caráter federal do país e da Constituição. Os Estados Unidos são desde a sua origem uma união de estados e, em muitas áreas do governo e do funcionamento do sistema político, a lógica estadual sobrepõe-se à lógica federal ou nacional. Os diversos estados querem estar representados no Colégio Eleitoral não apenas em função da sua dimensão e da sua densidade populacional, mas por serem estados de pleno direito da União. Por conseguinte, o Colégio Eleitoral resulta historicamente do conjunto de compromissos e de cedências que foi necessário fazer para manter a unidade política da União. Como defendeu James Madison, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, um equilíbrio constitucional entre a legitimidade baseada nos estados e a legitimidade proveniente da população, em termos absolutos. De qualquer modo, a pergunta é pertinente: uma sondagem recente do Pew Research Center indica que perto de 60% dos americanos consideram que a Constituição deveria ser revista para que o candidato com maior número de votos em termos absolutos seja o vencedor, mas não creio que essa revisão vá acontecer nos próximos tempos.

Apesar de ter a presidência e a maioria no Senado, o Partido Republicano deveria estar preocupado com a sua falta de apelo junto das minorias, que estão a ganhar peso no eleitorado e votam claramente nos democratas?
Sim, essa é uma tendência que se deverá confirmar no dia 3 de novembro. Aquilo que tem sido a tradição nos últimos anos é o voto das minorias pender claramente para o Partido Democrático, mesmo com algumas exceções, como é o caso da Florida, onde o voto latino é tradicionalmente republicano, por razões históricas. As tensões e os conflitos dos últimos meses, sobretudo depois da morte de George Floyd, pareciam ter confirmado ainda mais esta tendência. Mas existem estudos recentes que consideram que a chave das eleições pode estar na capacidade de o Partido Democrático recuperar significativamente noutros segmentos que lhe fugiram em 2016, nomeadamente entre a população branca feminina e entre os não licenciados. Uma vez mais, temos de ter em conta as especificidades dos diversos estados e o facto de, na verdade, se desenrolarem cinco dezenas de eleições diferentes e serem esses múltiplos resultados a decidir a composição do colégio eleitoral.

Trump, mesmo que seja derrotado, já marcou o futuro dos Estados Unidos através da nomeação de juízes conservadores para o Supremo Tribunal?
Durante este seu mandato, Donald Trump nomeou três juízes para o Supremo Tribunal: Neil Gorsuch, Brett Kavanaugh e, mais recentemente, Amy Coney Barrett. São três juízes num órgão que tem apenas nove, sendo certo que outros três tinham também sido nomeados por presidentes republicanos. Por conseguinte, o Supremo Tribunal tem agora uma clara maioria conservadora, e essa situação terá certamente reflexos nos próximos anos. Desde logo, porque o Supremo Tribunal poderá, em última análise, resolver disputas em torno dos resultados eleitorais, como o fez em 2000, na eleição Bush vs. Gore. E nestes últimos dias, já com Amy Coney Barrett, tem estado particularmente ativo na tomada de decisões relacionadas com o ato eleitoral. Depois, porque a maioria no Supremo Tribunal pode abrir caminho para decisões conservadoras em áreas como a interrupção voluntária da gravidez, a questão do direito de posse de armas ou a tão desejada - pelos republicanos - revogação do chamado Obamacare de 2010.

Em relação à política externa, sobretudo o choque com a China, é de prever que as grandes linhas se manterão ganhe quem ganhar?
As grandes linhas vão manter-se, como diz. A disputa entre os Estados Unidos e a China pela hegemonia no sistema internacional é uma realidade de longo prazo e irá certamente continuar. Vivemos num período de transição, que só não sabemos quanto tempo demorará. Da mesma maneira que, entre o final do século XIX e meados do século XX, de uma forma gradual, os Estados Unidos substituíram a Inglaterra enquanto centro do sistema. E esta tinha derrotado a França no início do século XIX. Atualmente, se bem que os Estados Unidos ainda mantenham em primazia em muitas áreas, a verdade é que a China tem vindo a afirmar-se cada vez mais e a funcionar como um verdadeiro challenger à hegemonia norte-americana. Veja-se, por exemplo, o que se está a passar em torno da tecnologia 5G. Nem Biden nem Trump, seja quem for o vencedor, conseguirá escapar a essa tendência de fundo, e a política externa do próximo presidente norte-americano terá necessariamente que se centrar nas relações com a China e na região da Ásia-Pacífico.

Barack Obama, de quem Biden foi vice-presidente, visitou muito mais a Ásia do que a Europa. Também foi o primeiro a exigir 2% do PIB investidos em defesa aos parceiros da NATO. Trump foi ainda mais além nas críticas aos europeus. Como vê o futuro das relações entre os dois lados do Atlântico? Depende do vencedor? Portugal, que não foi sequer visitado por Trump, tem algo a esperar mais de Biden?
Numa perspetiva histórica, podemos afirmar que as relações transatlânticas desde o final da Segunda Guerra Mundial têm sido de crises sucessivas. Mesmo durante a Guerra Fria, em que existia uma ameaça comum - a União Soviética -, a relação entre os dois lados do Atlântico passou por sérios sobressaltos, como a saída da França da estrutura militar da NATO, a crise nas relações transatlânticas na primeira metade dos anos de 1970, com o afirmar progressivo da integração europeia, ou a instalação dos mísseis nucleares, já na década de 1980. Depois da Guerra Fria, com o desaparecimento da ameaça soviética e o momento unipolar norte-americano, as crises continuaram, e disso foi exemplo o grande cisma transatlântico na sequência da intervenção dos Estados Unidos no Iraque, em 2003. Por conseguinte, a atual crise nas relações transatlânticas tem de ser entendida também no longo prazo, mesmo admitindo que a administração Trump contribuiu fortemente para as agudizar, com as frequentes declarações e ações do presidente a motivarem um ressentimento profundo nos aliados europeus. Estou em crer que se Joe Biden ganhar as eleições, uma das suas primeiras preocupações será quebrar o clima de gelo que se instalou entre os dois lados do Atlântico. Portugal, fazendo parte da União Europeia e dispondo desse valoroso trunfo que é a Base das Lajes, não será exceção. Mas, repito, a Ásia deverá continuar a ser o centro das preocupações em Washington no futuro próximo.

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