A utopia da ONU

É crescente o facto de que a ONU está a enfrentar dificuldades, incluindo financeiras, num tempo em que a regra do multilateralismo e cooperação parece encontrar-se em crise, substituída por uma crescente disputa de emergentes. Esta circunstância parece dar relevo à nostalgia americana do breve tempo em que se falou do "império americano", cujo declínio seria fonte de preocupação, tornando-se frequente referir o passado método de governo de Obama como visível causa dessa decadência. É evidente a falta de intervenção do Conselho de Segurança, em face da frequente violação do imperativo do "mundo único", porque os métodos de intervenção dos emergentes - EUA, China, Japão, Índia - são a causa eventual de uma arena de riscos. Analistas referem já um mundo sem bússola, destacando-se o pessimismo de Barzun: "Permitam-nos que o estado de transição seja descrito no pretérito, como se fôssemos um cronista do ano 2300 a olhar para o passado. Como fez esse sábio antigo chamado Disraeli, não podemos enganar-nos, porque estudámos o passado e é bem conhecida a nossa capacidade de revelar o futuro quando este já ocorreu."

É o que ameaça passar-se com a utopia da ONU, depois do meio século de metades europeias, que durou até à queda do Muro de Berlim. A situação foi de evolução inquietantemente desestabilizante, e não ajuda a convicção de que conseguiu uma bússola confiável, com o objetivo conhecido do recentemente absolvido presidente Trump. Talvez tenha presente a declaração de Harry S. Truman quando, em agosto de 1945, depois da Conferência de Potsdam, declarou na rádio americana: "Nós somos depois desta guerra a nação mais poderosa do mundo, talvez a mais poderosa de toda a história."

Donald Trump, avaliando o que entendeu serem debilidades de Obama, e considerando o desafio dos emergentes, proclamou, no Center for National Interest, que a regra da sua intervenção seria "America First", e na Assembleia Geral da ONU, em 23 de setembro do mesmo ano, proclamou a importância da soberania, não da cooperação. Na Revista Foreign Affairs, de janeiro de 2019, Thomas Wright referiu-o dizendo que "pela primeira vez os observadores podem identificar uma política estrangeira unificada, embora sempre incompleta, na qual a administração se adapta aos impulsos do presidente e aplica-os.

Nesta política estrangeira unificada, "a administração Trump não tem amigos permanentes, nem inimigos permanentes". Numa versão mais crítica talvez possa definir-se o modelo com a expressão de Gilles Paris, que é "le gendarme du monde, fasciné par la force". Acontece que, sendo uma herança largamente americana, a vitória da Segunda Guerra Mundial, e a organização de segurança e defesa até à queda do Muro de Berlim, nesta data a diplomacia frequentemente conclui que a comunidade transatlântica receia ver diminuída a lealdade entre a vontade dos europeus e a confiança na presidência americana.

Lembre-se que de regra anulou hoje a confiança sobre a história de Obama, respeitando o projeto de um acordo transatlântico de comércio e investimentos (TTIP), abandonou o Acordo de Paris sobre a questão climática, agravou a relação com o Irão em circunstâncias preocupantes, e, tendo sido os seus homólogos europeus a França e o Reino Unido, os EUA mostram entretanto privilegiar a aliança com a Alemanha, na discussão sobre financiamento da segurança e defesa, que nesta data vai incluir a discussão de um sério evento europeu, que é o apoio dado ao Brexit, depois da fraca política com a Coreia do Norte, a redefinição de atitude com os países da América, quer ao norte o Canadá quer os inquietantes países do sul. Subitamente, a preocupante introdução no estatuto de Jerusalém levou a uma geral e inquietante advertência, exigindo maior sabedoria e prudência. Atitudes que devem relembrar a unidade da Europa, sem acidentes do passado, e a partilha com autenticidade de um conceito estratégico europeu e atlântico comum.

Para assumir e reforçar o atlantismo, seria útil lembrar o abade Correia da Serra e Jefferson. E repensar a utopia da ONU. Foi tal definição, não obstante conservar diferenças de hierarquia militar, uma decisão de europeus que assumiam ser inevitável o globalismo, e conceder intervenção na Assembleia Geral a todas as diferentes culturas mundiais, livres de submissão colonial, cooperantes com a ocidentalização. A evolução, que vai piorando, num mundo sem bússola, parece resignar os povos a futuros que acontecem sem êxito das negociações que os ocuparam. Faltam as vozes encantatórias que anunciaram a Utopia da ONU, e reforçam-se os confrontos dos emergentes. As interdependências sem governança não reforçam a paz, nem evitam as perigosas leviandades.

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