Verónica

Há na condenação do outro, na sua exposição, na sua pena, uma espécie de esconjuro, como se daí pudesse resultar um alívio, um desviar, uma redenção. De alguma forma, esperamos que essa sentença, essa exibida purga, nos proteja, nos conserve no lado dos que julgam, dos que ordenam.

Há aqui muito de instinto de sobrevivência, de desespero, porque enquanto for o outro, enquanto os olhos e os códigos e os cânones caírem sobre o outro, não somos nós o alvo, sobrevivemos.

Mas será ingenuidade não reconhecer a sevícia, a secreta impiedade, aquele espaço da nossa alma, na nossa consciência, que não se ocupa da caridade, do amor, que os descarta, inutiliza, e que se compraz com a fragilidade do outro, chegando a encontrar-lhe uma estética.

E nada disto é inumano, como se fosse uma espécie de degenerescência, um vício. Pelo contrário, tudo isto radica na natureza humana - o que é escancaradamente comprovável pela história, que se repete e repete.

Não é algo que tenha ficado para trás, nas fogueiras, nas guilhotinas, nos massacres, nos processos sem processo, nos holocaustos e no Holocausto. Os tempos e as leis e as filosofias apenas nos obrigaram a refinar, a sofisticar, a encontrar outra veia onde espetar a agulha, com precisão, engenho.

E é no espaço virtual, que encaramos como realidade paralela, como salvo-conduto, que se festejam e regurgitam os julgamentos, as sagradíssimas condenações, sempre justas, sempre dilacerantes.

Se a cada julgamento virtual sem provas, por malquerença, inveja, medo, se acendesse uma fogueira, daquelas antigas para as bruxas e para os infiéis, teríamos o mundo a arder em permanência, sem salvação, descontrolado, a eito.

Mas é nisto que estamos, agora que nos predispusemos à realidade paralela, porque virtual. Note-se que não há aqui qualquer desapontamento com o mundo virtual, com as redes sociais, como se as lamentasse, nostálgico. Pelo contrário, não as imagino encerradas, esquecidas - nem as quero assim.

Apenas constato que há nelas o amplíssimo e cada vez mais anónimo e discreto espaço para o atroz julgamento. E que não sabemos ainda - estamos a aprender em direto, sem código - encontrar o tempo e a lei e a filosofia para nos limitar, para nos controlar o instinto, para nos confrontar.

Vêm estas linhas a propósito de Verónica, a jovem mulher que se suicidou depois de ter percebido que jocosamente circulava pela empresa em que trabalhava um vídeo onde aparecia em práticas sexuais gravadas há cinco anos com o ex-namorado. Incapaz de aguentar a pressão e a vergonha, matou-se, incapaz de vencer.

Não conheço os contornos do caso, dramáticos pelo que se lê, e por isso quero afastar-me deles, usando-os apenas como referência, pretexto, para salientar esta predisposição humana, nossa, para não reconhecer o outro em nós, para não nos sabermos julgados a cada sentença que lançamos.

Advogado

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