E agora, PSD?

O partido mostra-se incapaz de ter uma linha programática sólida e compreensível para o eleitorado. O seu esvaziamento de quadros, a sua incapacidade de recrutamento, o seu ziguezague ideológico em função das lideranças (Durão e Passos; Ferreira Leite e Rui Rio), deixa-o numa terra de ninguém que tem conduzido a uma constante erosão de votos, sobretudo nos grandes centros urbanos.

Rui Rio contribuiu decisivamente para a estrondosa derrota do PSD nas eleições de domingo. As posições que tomou em relação aos passes sociais e à recuperação do tempo de carreira dos professores foram erros tão graves que teriam sempre consequências também graves por serem próximas de eleições e por darem a ideia de que a liderança estava num ziguezague estratégico.

Um partido que está a definhar eleitoralmente nos grandes centros urbanos, sobretudo nos distritos de Lisboa e Porto, ir contra uma medida que ajuda muito a classe média desses locais é uma inconsciência que se aproxima de suicídio; pré-aprovar uma proposta que aumenta a despesa pública fixa e ainda para mais privilegia uma classe que sofreu menos do que as outras com a crise é absolutamente incompreensível para um líder conhecido como rigoroso nas contas e um partido cuja base de apoio detesta privilégios de certos extratos da função pública.

Estas decisões são em primeiro lugar erradas, mas têm ainda a enorme desvantagem de deixar o eleitor tradicional do PSD (já para não falar dos outros) confuso. Não tinha Rio prometido que iria apoiar as boas medidas viessem de onde viessem (e assim o fez até há pouco tempo)? Que não ia fazer oposição bota-abaixista?

Foram estes óbvios erros a razão da derrota do PSD nestas eleições e serão a razão para outra quase certa nas de outubro? Ajudaram, mas é evidente que não decisivos. Com Montenegro ou Passos Coelho, estes resultados e os do futuro próximo seriam melhores ? Obviamente que não. Ganhar eleições a um partido - com ou sem razão - que as pessoas veem como responsável pela estabilidade social, descida do desemprego, pela reposição de alguns rendimentos, pelas contas certas e por uma carga fiscal que castiga mais indireta do que diretamente. Serão precisos muitos mais family-gates e incêndios para pôr em causa o resto.

Mas há uma enorme diferença entre perder eleições por razões que podem ser vistas como conjunturais (recuperação económica global, baixa dos juros, continuação do boom turístico, etc.) e ter 22% dos votos expressos e aparecerem sondagens credíveis que mantêm esse número para as legislativas.

Há sinais negativos e estruturais. A contínua descida do PSD nas autárquicas já devia ter feito tocar os sinos da Lapa a rebate. O partido está fora do poder nas principais câmaras e basta um olhar minimamente atento para perceber que assim vai continuar. Nem há candidatos credíveis nem os últimos resultados eleitorais fazem prever que algo mude, bem pelo contrário.

O problema do PSD, porém, é bem profundo e vem de trás.

O partido mostra-se incapaz de ter uma linha programática sólida e compreensível para o eleitorado. O seu esvaziamento de quadros, a sua incapacidade de recrutamento, o seu ziguezague ideológico em função das lideranças (Durão e Passos; Ferreira Leite e Rui Rio) deixa-o numa terra de ninguém que tem conduzido a uma constante erosão de votos, sobretudo nos grandes centros urbanos.
Mesmo quando há um aparente traçar de linha, de programa entendível, percebe-se que é algo colado a cuspo e sem qualquer tipo de consistência.

O caso de Passos Coelho é um bom exemplo. O PSD chega ao poder por força de um acontecimento extraordinário e não havia ideia nenhuma. Em termos programáticos foi salvo pelo programa de ajustamento. Não foi em vão que Passos Coelho falou em ir além da troika. Era o plano que havia, se não houvesse aquele não havia mais nenhum. As reformas estruturais não passaram de cortes cegos de salários e pensões e de um enorme aumento de impostos.

Veio Rui Rio. Compreendendo que o troikismo (que já se percebeu pelas últimas intervenções que Passos ainda não esqueceu) não conseguiria fazer o PSD sair de um bunker eleitoral que nunca mais lhe permitiria chegar ao poder, decidiu, e bem, posicionar o partido no seu espaço natural e histórico: ao centro. Cometeu, porém, dois erros de palmatória: não cortou cerce com o passado próximo que não permitiria sequer sonhar-se com um regresso ao governo e em momentos-chave deixou que a tática desse cabo da estratégia (vide passes e professores). Essa falha estratégica teve, em larga medida, origem na vontade de não indispor algumas pessoas no partido (sobretudo no grupo parlamentar). Do que Rio se esqueceu é de que essa ala não quer saber do tipo de oposição que se faz, quer simplesmente outro tipo de partido. Sem cortar com o passado, terá sempre um fantasma a pairar e não conseguirá construir uma alternativa que fale de futuro e não traga o passado constantemente para a discussão. E, claro, é fundamental ter algo que se assemelhe minimamente a uma alternativa a este governo. Bem sei que Centeno secou boa parte da estratégia, mas há vida para além do défice e terá de haver ideias. Faltarão pessoas que as desenvolvam, e esse é talvez o maior problema.

O facto é que as tendências que sempre conviveram no PSD já não são conciliáveis. Foram cavadas trincheiras demasiado fundas. A presença delas no mesmo partido antes fazia somar, agora diminui.

Rui Rio tem de uma vez por todas de clarificar o caminho e definir as pessoas com quem conta. Já teve duas oportunidades para o fazer e não o fez. É muito simples: ou provoca um verdadeiro cisma e tenta aproveitar a boa base que ainda tem ou será o homem que vai pregar o último prego num partido essencial para a nossa democracia. Só depois de essa clarificação ser feita se pode pensar em estruturar ideias e tentar captar quadros.

Mais, nesta altura só uma ação deste tipo pode mostrar aos eleitores que há uma linha clara.
As próximas eleições não são vencíveis, mas há que desenhar uma estratégia que mostre ao país que existe uma alternativa clara que permita crescer nas autárquicas e preparar o futuro.

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