Carminho: "Amália não vendia limões mas vinho. Espero que as crianças não fiquem chocadas"

Amália nasceu há exatamente 100 anos mas só foi registada no dia 23. É por aí que Carminho começa o seu livro para os leitores mais jovens sobre a maior fadista portuguesa.

Amália - Já Sei Quem És é o título de um livro sobre Amália Rodrigues que a fadista Carminho acaba de publicar, com ilustrações de Tiago Albuquerque. Os leitores a que se destina são as crianças e contém uma mensagem muito clara: "Quero inspirar as crianças a sonharem e lutarem por serem aquilo que desejam e não desistirem apesar das dificuldades. A Amália é um bom exemplo disso, pois nasce numa família com bastantes dificuldades, tinha as suas próprias limitações e, no entanto, superou-se e com determinação acabou por ficar para a história da forma que a conhecemos."

Para Carminho, continua-se a perguntar como se leva o fado às crianças: "Dizem que é uma coisa pesada e difícil e eu quero desmitificar isso. O fado é uma cultura como outra qualquer, o rock ou a pintura, e há sempre um caminho que começa pelo passo simples. No caso de Amália, é contar a sua história." E é isso que faz, começando por referir a verdadeira data de nascimento de Amália, o dia 1 de julho de 1920 e não o dia 23 em que foi registada.

Abre-se o álbum colorido e percebe-se o que a fadista propõe: "Escolhi factos que fossem marcantes para uma criança e mostrar que Amália também foi uma menina que, na vida e no livro, começa a cantar muito cedo e no fim foi capaz de realizar o seu sonho e ser uma das vozes de sempre do seu país e do mundo. "

O álbum tem a particularidade de o texto ser sempre em estrofes de seis versos, sextilhas, e deste modo ir relatando a vida de Amália. Uma 'biografia' que Carminho sabe de cor, pois além de ter conhecido a fadista quando tinha 12 anos, é uma das referências para a vida profissional que escolheu: "Há muitos anos que sei coisas sobre ela e até tive uma pequena convivência pessoal através dos meus pais, porque conheci-a pessoalmente na casa de fados dele, o Embuçado, e por histórias pessoais de quem foi contemporâneo dela."

O desafio era grande para Carminho, que não é autora habitual de livros infantis: "Foi uma proposta da editora Joana Gonçalves que me surpreendeu porque era uma coisa que nunca tinha feito, mas fiquei logo tentada a aceitar." Assim foi, e a biografia de Amália para os mais novos começou a formar-se no seu pensamento e, pouco depois, já decidira ser num formato de escrita de sextilhas que tinha a ver com o fado: "Essa linguagem diria de imediato sobre o que a Amália representou como ninguém e em que me revejo. Era levar às crianças mais informação e ao mesmo tempo tornava-se um desafio porque contar em versos que têm de rimar dá menos espaço de liberdade para fazer a história".

Apesar de saber bem quem foi Amália, Carminho decidiu investigar a sua biografada: "Nunca se conhece o suficiente de uma pessoa e tive de fazer bastante investigação." A opção foi, em vez de regressar às biografias existentes, ler as afirmações que existem na primeira pessoa: "Foi nas próprias declarações de Amália que se centrou o meu trabalho, de modo a contar uma história que considero ser mais credível. Nestas grandes figuras existe sempre a tentação de se inventarem muitas histórias e de se acrescentarem muitos contos. Para ser fidedigna, li muitas entrevistas dela e acabei por aprender muito com esta investigação e encontrar vários pormenores que desconhecia."

Carminho não nega que os grandes especialistas em Amália que escreveram sobre ela sejam também uma grande fonte de informação: "Ao fazer a minha pesquisa sobre o que disse, confrontei-me com situações mais precisas." Dá um exemplo: "Todos dizem que a Amália em jovem vendia limões, mas isso não é verdade. Ela negou-o e dizia que as pessoas insistiam em afirmar isso, no entanto o que vendia era vinho. Esta particularidade não iria alterar em muito a sua história, mas era importante para Amália essa verdade e tornou-se fundamental para mim referir isso e ser fiel. Fiquei na dúvida se punha a referência a vender vinho, mas era a verdade e achei que as crianças não ficariam incomodadas. Afinal, vender vinho não é beber vinho. Espero que não fiquem chocadas que Amália não vendesse limões mas vinho."

Houve outras hesitações face a pormenores da vida de Amália? Para Carminho não havia interesse em "entrar em polémicas como a da ligação ao Estado Novo ou ao comunismo, que são importantes do ponto de vista histórico mas num livro destes só causariam confusão." Daí que tivesse escolhido os "episódios marcantes da sua vida e que lhe permitiram dar um passo em frente na carreira. Senti que podia contar muitas outras histórias porque as crianças não conhecem bem Amália, mas não cabiam só num livro." e Acaba por confessar: "Acabei por aprender muito sobre Amália também."

Entre as ambições de Carminho com o livro Já Sei Quem És está também a de justificar a ideia de que a poesia e a cultura do fado pode chegar às crianças de uma forma natural: "Eu aprendi a cantar fado ao mesmo tempo que aprendi a falar num percurso natural, mas com o passar do tempo apercebi-me de que o fado não era tão unânime nem tão querido pelas pessoas da minha geração. Ao cantar fado tornava-me uma pessoa marginal e que não era cool ou interessante para eles e essa reação causou-me alguma ansiedade em pequena e fez-me enfrentar alguns desafios."

Quanto ao aparecimento de "novas Amálias" no panorama do fado em Portugal, Carminho é muito direta: "Não existem 'novas Amálias', ela é só uma. Esse é um título usado pela necessidade de engavetar as pessoas e de, eventualmente, criar uma polémica de competitividade. Não há 'duas Amálias' sequer, só existe uma e todos os outros têm os seus percursos e ainda iremos saber com o tempo se serão pertinentes. Além de que é injusto serem consideradas 'novas amálias', porque ficam presas a uma referência."

Amália - Já sei quem és

Texto de Carminho e ilustrações de Tiago Albuquerque

Editora Nuvem de Letras

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