Seis portugueses do team Obama (e mais um)

O ex-presidente americano vem ao Porto no dia 6 para uma conferência sobre alterações climáticas. Mas ao longo dos anos rodeou-se de portugueses - do fotógrafo ao presidente da sua fundação. E até o cão.

Nascidas em França, criadas nos EUA e cidadãs americanas desde os 14 e os 17 anos, Natália e Cidália Luís começaram a ajudar os pais ainda adolescentes na empresa de construção que estes criaram em 1985 no estado do Maryland. Carregavam ferramentas, faziam orçamentos, aprenderam a negociar. Mulheres num mundo de homens, em 2008 assumiram oficialmente a liderança da empresa e hoje dão emprego a 300 a 500 pessoas, dependendo da época.

Uma história de sucesso que em 2013 levou Barack Obama homenageou como exemplo do sonho americano. O presidente, que no próximo dia 6 vem ao Porto para uma conferência sobre alterações climáticas, conhecera as irmãs num encontro com empresários na Casa Branca e decidiu ir até à M Luis Construction para um discurso.

No estaleiro de Rockville cumprimentou as empreiteiras, saudou os pais - Manuel e Albertina, nascidos em aldeias vizinhas e descritos pelas filhas como "o filósofo" e a "serial entrepreneur" - e nem esqueceu uma palavra para as crianças. "Foi espetacular!, contou Natália ao DN em janeiro. Sentada ao lado da irmã no hotel Four Seasons de Georgetown, bairro de Washington onde ambas vivem, Cidália concorda que "foi muito bom, num país com a dimensão dos EUA, sermos reconhecidos por um presidente em funções".

Diante dos empregados da M. Luis Construction, Obama saudou "uma história sobre o que a América representa. Começas. Se calhar não tens muito, mas estás disponível para trabalhar arduamente e para esperar. As oportunidades existem e és capaz de dar uma vida melhor à tua família, aos teus filhos, aos teus netos".

De férias em Portugal, Natália e Cidália garantem estar "entusiasmadas e honradas" com a vinda de Obama ao Porto. E lembram que Portugal e EUA são "amigos, aliados e vizinhos separados por um oceano há séculos". Recordando - tal como o presidente Marcelo Rebelo de Sousa no encontro na Casa Branca com Donald Trump - o brinde que os Pais Fundadores dos EUA fizeram com vinho Madeira na assinatura da Declaração de Independência em 1776, as empreiteiras garantem que os dois países continuam parceiros económicos e estratégicos fundamentais.

Já em janeiro, Natália e Cidália não escondiam a admiração por Obama. Mas isso não as impede de condenar quem agora só critica o seu sucessor. Natália nem hesitou em aceitar um convite de Donald Trump para a Casa Branca. "Tenho pena de o presidente não ter um filtro melhor. Mas é uma pessoa generosa", garante, recordando a bolsa que recebeu dele no ano entre o liceu e a faculdade e o facto de ter "mais mulheres nas suas empresas do que a média nos EUA e lhes pagar o mesmo que aos homens".

O açoriano cuja lente captou Obama

Pete Souza conheceu Barack Obama em 2005 quando este acabava de tomar posse como senador do Illinois. Filho de um queniano e de uma americana branca do Kansas, o advogado acabava de se consagrar como a estrela em ascensão dos democratas com um discurso na convenção do Partido que confirmou a nomeação de John Kerry como candidato às presidenciais.

Foi para o Chicago Tribune que o neto de açoriano acompanhou o primeiro ano de Obama no Senado. A relação que criaram foi tão forte que quando em 2008 Obama se tornou no primeiro presidente negro dos EUA nomeou Pete Souza como fotógrafo oficial.

Ao longo de oito anos, foram as fotografias de Pete Souza que deram a conhecer o lado mais pessoal do presidente Obama. Foram mais de 20 mil fotografias por semana (com ajuda de três outros fotógrafos), algumas das quais se tornaram famosas: desde uma em que Obama surgia de cabeça encostada à da mulher, Michelle, num elevador de carga, à dos membros mais próximos da Administração na Situation Room na noite em que Osama bin Laden foi morto, passando por dezenas de imagens do presidente com crianças e alguma com o cão d"água Bo. Mas a esse já voltamos.

"Não consigo mesmo escolher a minha favorita", explicou Pete Souza ao DN em 2017. Numa entrevista por email a poucos dias de Obama entregar a Casa Branca aTrump, o fotógrafo garantiu ser "um privilégio poder fazer este trabalho", apesar de ser "um trabalho a tempo inteiro" que já lhe tirou muito tempo à família.

Pete Souza esteve com Obama em Portugal por duas vezes. Em 2010, para a cimeira da NATO em Lisboa, e em 2016, quando fez uma escala técnica na base das Lajes. O neto de açorianos aproveitou para para contar a Obama "algumas coisas" que recordava da sua visita ao arquipélago com Ronald Reagan em 1988. Essa fora a primeira experiência de Pete Souza como fotógrafo oficial da Casa Branca - entre 1983 e 1989 integrou a equipa que acompanhava o presidente republicano.

De Portugal não tem grandes memórias. Apesar de rápidas passagens com os presidentes que serviu. E em 2010 confessava em entrevista ao DN a surpresa pelo facto de o então presidente Cavaco Silva ter pedido para o conhecer e de saber que os seus avós eram dos Açores. Não escondia então o desejo de regressar para umas férias. O mesmo desejo que repetiu sete anos depois.

Da quinta na Califórnia à Sala Oval

Jim Costa gosta de contar histórias. A quem entra no seu gabinete em Washington, o congressista da Califórnia mostra uma fotografia emoldurada na parede onde se veem duas crianças e um adulto vestidos de cowboy. E explica que o rapaz é ele. "Estava a ceifar em Tulare. O fato de cowboy já não me serve!", brinca em conversa com o DN em janeiro.

Continuando a visita guiada, vai mostrando fotos dele com o vice-presidente Joe Biden - "um dia Biden disse-me: "Costa, se tivesse o teu cabelo, era presidente dos EUA"". Em cima de uma mesinha, uma imagem do pai e do tio ao pé da máquina de apanhar algodão. "Eu costumava conduzir esta máquina", recorda. Ao lado, uma de Jim Costa com o presidente Obama na Casa Branca. "Gosto de pensar que por muitos sucessos que se tenha na vida não podemos esquecer de onde viemos. É importante pensar que o menino da quinta na Califórnia chegou até à Sala Oval", sublinha.

O congressista dificilmente esconde as saudades do presidente democrata e não hesita em criticar duramente as políticas do seu sucessor. Sobretudo a migratória. Como representante de um distrito em que mais de metade da população é de origem latina, reagiu de forma muito crítica à separação de famílias de imigrantes ilegais que tentavam entrar nos EUA.

O homem da Energia e o da Fundação

Quando assinou o acordo sobre o nuclear com o Irão, Ernest Moniz celebrou a vitória com o então secretário de Estado John Kerry à volta de um copo de vinho Madeira. Sim, desse com que os Pais Fundadores brindaram. Nada de estranhar entre um filho de açorianos e um americano casado com portuguesa nascida em Moçambique - Teresa Heinz Kerry, antes casada com o herdeiro do império do ketchup Heinz.

Os pais de Moniz foram de São Miguel para a América e ele nasceu em Fall River em 1944. Foi entre a comunidade açoriana que cresceu e em maio, numa entrevista ao DN em Lisboa, garantia: "Sinto-me bem por estar de novo em Portugal e feliz por ter criado novos laços. A Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique [que recebeu em 2015] foi uma enormíssima honra que me emocionou, especialmente porque eu venho de Fall River, terra de emigrantes açorianos, que tem mesmo lá uma estátua do infante erguida".

Secretário da Energia no segundo mandato de Obama, Moniz lamentou que Trump esteja a reverter as decisões do antecessor, como fez ao sair do acordo com o Irão que o físico nuclear ajudou a negociar. Quanto às mudanças na política energética dos EUA desde a chegada de Trump, Moniz lembrou que "foi a liderança de Obama que uniu o mundo no Acordo de Paris. Agora essa liderança não está lá".

Moniz esteve com Obama até este deixar a Casa Branca. Nessa altura David Simas trocou o cargo de diretor político pela presidência da Fundação Obama.

Filho de um açoriano e de uma alentejana Simas nasceu nesse Massachussets para onde tantos portugueses emigraram. Desde muito novo Simas interessou-se pela política. Candidatou-se e venceu a sua primeira eleição aos 18 anos, para o comité de educação de Tauton. Ao contrário do pai, que votou republicano durante muitos anos, sempre se identificou como democrata. Benjamin Franklin e John F. Kennedy são os seus heróis políticos desde a adolescência.

Entrou na escola a falar mal inglês, tal era a força da comunidade portuguesa onde cresceu, mas tornou-se um aluno modelo e formou-se em Ciência Política e Direito. Em 2007 foi contratado por David Axelrod, o homem que inventou o slogan Yes We Can, e juntos ajudaram a pôr Obama na Casa Branca. Após anos como conselheiro do presidente, este escolheu-o para presidir à sua Fundação, em Chicago. No site, esta explicar a sua missão: "inspirar e empoderar pessoas para mudar o mundo". Um desafio nas mãos de David, o filho de António e Deolinda.

E Bo...

Bo tinha 6 meses quando em 2009 o senador Ted Kennedy o ofereceu a Malia e Sasha, as filha de Obama. Preto com as patas e o peito brancos, o cão d'água português foi escolhido por o seu pelo hipoalergénico. Com honras de capa no The Washington Post, Bo depressa se tornou mais um membro da família presidencial, aparecendo em vídeos (chegou a protagonizar o de Natal da Casa Branca) e fotos - muitas de Pete Souza. Quatro anos depois, Bo recebeu a companhia de Sunny, também ela um cão d'água - mais um reforço no team "português" Obama.

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