Oráculo magrebino 2021

A normalização das relações diplomáticas entre Marrocos e Israel marcará certamente o decorrer dos acontecimentos no Magrebe ao longo do ano que agora se inicia.

Ao nível interno, o palácio, perante a contestação islamista a esta aproximação a Israel, terá de encontrar assunto que volte a unificar súbditos à direita e à esquerda. Não terá aliás de inventar nada, já que parte desse assunto está lá desde que os portugueses conquistaram Ceuta em 1415. Após o reconhecimento americano do Sara Marroquino, Marrocos regressará com mais força ainda à reivindicação da sua soberania sobre Ceuta e Melilla, pelo que se prevê um agudizar das relações com Espanha. Sobre este braço-de-ferro, fica um episódio oficioso e nunca confirmado de que o rei Juan Carlos terá um dia efectuado um telefonema ao seu homólogo Hassan II em 1975/76, poucos meses após a entronização do primeiro, no qual terá dito ao rei de Marrocos: "Se quiser reivindicar Ceuta e Melilla agora é o momento, que eu vou pressionar os ingleses acerca de Gibraltar. Sei que não vão ceder e o senhor fica também a saber que nós também não cederemos, mas agora é o momento certo para puxar por este assunto." Sempre foi aliás, convicção íntima de Hassan II que Ceuta e Melilla mudariam de coroa, quando o mesmo acontecesse com Gibraltar. No entanto, "desimaginem-se", como diz a minha prima Maria Antónia, se acham que esta mais que certa tensão entre Espanha e Marrocos se reflectirá negativamente nos negócios e no comércio, que os registos recentes demonstram precisamente o contrário e, quanto maior o drama, maior também o investimento espanhol no parceiro marroquino.

Ao nível regional, Trump condicionou a administração Biden com o dado adquirido chamado Acordos de Abraão, que já ganhou aliás vida própria e, uma vez mais, perante ganhos marroquinos e perdas argelinas, terá de compensar estes últimos, o que deverá acontecer num pacote que contemplará Líbia e Mali.

O desaparecimento de Kadhafi e do seu regime, deixou um vazio que em parte e num determinado momento foi preenchido por Mohamed VI, beneficiando em muito de um Bouteflika reduzido a uma cadeira de rodas. Entre o deve e o haver deste tabuleiro, 2021 será o ano de reafirmar a Argélia como potência regional-âncora para a estabilização da Líbia e do Mali/Sahel e não permitir também que sarauís independentistas se deixem seduzir pelo canto da Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI).

Noutras longitudes, não menos importantes, assinalar que 2021 será o ano que verá finalmente inaugurada a ligação ferroviária entre Istambul, Teerão e Islamabade. Seis mil e quinhentos quilómetros que se farão em 16 dias e que, à parte da importância comercial deste feito, vem também, tal qual os Acordos de Abraão, quebrar mais um tabu. Ligar a Turquia ao Paquistão, significa que sunitas e "káfires" passarão a poder atravessar 2600 quilómetros de território xiita. Caramba, isto está mesmo a mudar!

Resta-me desejar ao DN e a todos/as os/as seus/suas leitores/as um próspero e produtivo ano novo.

Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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