Banca, seguros, imobiliário e construção são os únicos setores que aguentaram a pandemia

De janeiro a setembro, a economia portuguesa colapsou 8,2% em termos homólogos. Governo espera menos 8,4% em 2020. Último trimestre vai ser de estagnação ou pior.

Banca, seguros, imobiliário e construção são os únicos setores da atividade económica portuguesa que conseguiram aguentar o impacto altamente destrutivo da pandemia até ao final do terceiro trimestre, revelam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

De acordo com contas do DN/Dinheiro Vivo, com base em novos números divulgados nesta segunda-feira, 30 de novembro, pelo INE, a variação homóloga real das atividades financeiras, de seguros e imobiliário mantiveram o mesmo valor real (variação em percentagem) entre janeiro e setembro de 2019 e igual período deste ano, ou seja, até ao final do terceiro trimestre. Só para se ter um termo de comparação, a economia portuguesa como um todo registou um colapso real de 8,2% no período em análise.

A preços correntes (incluindo a respetiva inflação), este grande setor da economia (financeiro, segurador e imobiliário) até conseguiu valorizar quase 2%.

Já a construção não oferece dúvidas. Mesmo com a pandemia, ganhou valor, seja qual for a medida adotada (real ou nominal). De acordo com o INE, reforçou o seu valor acrescentado bruto em 3,2% em termos reais homólogos nos nove meses que terminam no terceiro trimestre e ganhou mais 3,5% em contas correntes.

Fora estes dois setores, todos os restantes agregados produtivos da economia foram, por assim dizer, arrasados pela crise pandémica.

Pelas contas do DN/Dinheiro Vivo, o setor de agricultura, silvicultura e pesca afundou em termos reais (descontando a inflação) mais de 5%, a indústria colapsou quase o dobro (-10%), o conjunto energia, água e saneamento desvalorizou 7,7%; comércio, oficinas automóveis, alojamento e restauração foram arrastados em quase 14%; o setor "transportes e armazenagem; atividades de informação e comunicação" recuou mais de 7%.

Ontem, na terceira estimativa sobre as contas nacionais da economia portuguesa até ao terceiro trimestre, o INE confirmou o que já tinha avançado há cerca de 15 dias.

No entanto, as estimativas oficiais mostram que Portugal falhou uma recuperação completa face à destruição económica registada no segundo trimestre (período da primeira vaga e do primeiro confinamento).

"No 3.º trimestre de 2020, o produto interno bruto [PIB] registou uma diminuição homóloga de 5,7% em volume, depois da contração de 16,4% observada no trimestre anterior."

Em cadeia, "quando comparado com o 2.º trimestre de 2020, o PIB aumentou 13,3% em termos reais, depois de ter diminuído 13,9%" nos três meses precedentes, refere o instituto.

Quando se compara com o terceiro trimestre de 2019, o INE explica que a quebra de 5,7% "deveu-se em grande medida ao comportamento da procura interna que registou um contributo significativamente menos negativo do que no trimestre precedente (passando de -11,8 pontos percentuais no 2.º trimestre para -4,0 pontos percentuais)".

Esta quebra menos grave "refletiu sobretudo a recuperação expressiva do consumo privado e, em menor grau, do investimento e do consumo público".

O contributo da procura externa líquida (exportações menos importações) no 3º trimestre também "foi menos negativo que o registado no trimestre precedente".

O INE destaca a "recuperação mais significativa das exportações de bens e serviços (passando de uma taxa de -39,4% para -15,2%)".

As importações passaram de uma queda de 29,2% para menos de metade (-11,4%).

O setor que engloba a restauração e a hospitalidade (altamente dependentes do turismo) é de longe o que mais sofre.

Nesse sentido, o INE, ao analisar o terceiro trimestre (que foi um período marcado pelo verão e pela reabertura das atividades e das empresas), constata que "as exportações de serviços continuaram a registar uma diminuição homóloga bastante significativa (-40,8%), ainda que menos intensa que a observada no trimestre anterior (-54%)". Isto é "explicado em grande medida pelo comportamento do turismo", refere o instituto.

Portanto, de uma forma geral, a economia conseguiu não afundar mais no terceiro trimestre, mas isso não a parece livrar de uma prestação anual muito negativa.

Como referido, comparando o que já vai do ano de 2020 até setembro face ao mesmo período de 2019, a contração económica ronda os 8,2% em termos reais.

No Orçamento do Estado de 2021, o Ministério das Finanças prevê uma recessão anual de 8,4% em 2020. Significa, pois, que na melhor das hipóteses, a economia portuguesa está a caminho da estagnação na reta final do ano.

Ou pior do que isso. Pode registar uma nova contração. Por exemplo, a Comissão Europeia vê uma quebra de 9,3% na atividade. O quarto trimestre teria de ser pior do que o terceiro. É o que deve acontecer, tendo em conta os vários indicadores negativos de atividade que refletem já as novas medidas de confinamento decretadas pelo Governo para tentar deter a segunda vaga da covid-19.

Luís Reis Ribeiro é jornalista no Dinheiro Vivo

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