Quando a grandeza de um país se vê (também) na data das eleições

Os americanos votam sempre na primeira terça-feira a seguir à primeira segunda-feira de novembro. É uma regra aprovada pelo Congresso em 1845 que parece complicada, mas que pode ser traduzida assim: vota-se na primeira terça-feira de novembro desde que não calhe no dia 1, Dia de Todos os Santos. E sim, é um legado dos tempos dos Estados Unidos como sociedade agrária (quarta-feira era dia de mercado, portanto nem pensar, domingo era dia de missa, portanto nem pensar, acabou por ser à terça para dar tempo de ir de casa até ao local de voto, muitas vezes distante).

Há quem veja neste voto à terça-feira (feriado só em meia dúzia de estados) mais uma excentricidade americana, tal como manter um Colégio Eleitoral, que há quatro anos, e não foi a primeira vez, deu a presidência ao segundo candidato mais votado e não ao primeiro. Mas há outra excentricidade política americana que só merece elogios: a capacidade de manter as eleições presidenciais sagradamente a realizar-se de quatro em quatro anos, mesmo que morra ou seja morto o inquilino da Casa Branca (oito, de William Harrison a John Kennedy) ou este seja destituído ou se demita (caso de Richard Nixon em 1974). Em seu lugar, fica o vice-presidente, que cumpre o resto do mandato.

O sistema é tão prezado, e visto como um sinal de força da democracia americana, que nem a Guerra Civil do século XIX nem as duas Guerras Mundiais do Século XX impediram as eleições presidenciais no ano certo, no mês certo, no dia certo.

Donald Trump levantou agora a possibilidade de se adiar as presidenciais por causa da pandemia. Não lhe compete a decisão. Seria sempre do Congresso. Mas o que salta à vista é que o atual presidente, que tanto fala de tornar a América grande de novo, não se importa de pôr em causa o que construiu essa grandeza se o seu interesse pessoal estiver ameaçado.

Recordemos alguns factos básicos: Trump, que até já cortejou os democratas no passado, impôs-se inesperadamente nas primárias republicanas de 2016. E o partido, tirando alguns bravos como o já falecido senador John McCain, deixou-se ficar refém. Embora mal preparado para a presidência, beneficiou da fragilidade de Hillary Clinton em alguns estados e fez-se eleger para a Casa Branca, embora perdendo no voto popular. E tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos sem um passado de liderança política ou militar. Porém, a radicalização dos democratas e um excecional bom desempenho da economia americana (níveis mínimos de desemprego, PIB a crescer a bom ritmo) tornavam ainda em março a reeleição como algo provável, mesmo que Joe Biden, que foi vice de Barack Obama, mostrasse vontade de barrar mais quatro anos do magnata na Casa Branca. Mas a covid-19 veio não só mostrar como o presidente que pouco confia na ciência está mal preparado para lidar com o imprevisto, como abalou como nunca se viu a economia americana, ao ponto de esta no segundo trimestre de 2020 se ter contraído 32,9% em termos homólogos e 9,5% em cadeia. E o desemprego subiu em flecha. Também os protestos contra a violência policial associada ao racismo fragilizaram Trump, que nunca conseguiu estar confortável perante o sucedido com George Floyd.

Na presidência de Trump muito se deve à sua personalidade, muito é também já tradição republicana e há ainda uma parte que podia ser assumida por qualquer presidente, até um democrata, como é o caso da guerra comercial com a China ou, quase em complemento, as pressões sobre os aliados para recusarem a tecnologia 5G da Huawei, a gigante de Shenzhen, que é famosa por vender mais telemóveis do que a Apple ou a Samsung. Dificilmente, porém, Trump deixará memória de uma boa presidência. Dividiu demasiado os americanos, ignorou demasiado os aliados e demonstrou, tirando no caso da China, demasiada instabilidade perante o inimigo, fosse ele a Rússia ou a Coreia do Norte.

Todas as sondagens dão Biden a ganhar. No voto popular parece certo, com oito pontos percentuais de vantagem. No Colégio Eleitoral também o democrata é favorito, mas existe um desequilíbrio que favorece os candidatos republicanos (Trump em 2016, mas também George W. Bush em 2000 frente a Al Gore). Ou seja, se Trump não está derrotado, para lá caminha. Daí o desespero de alguém que não sabe perder, de alguém que se habituou a ter sempre aquilo que queria.

Já houve países a adiar as eleições por causa da pandemia, como foi o caso da Polónia, mas igualmente houve países que fizeram questão de manter o calendário, como aconteceu na Coreia do Sul. Nos Estados Unidos, mudar a data das presidenciais seria ignorar o exemplo de Abraham Lincoln, que mesmo em plena Guerra Civil organizou a ida às urnas (novembro de 1864, semanas antes da fundação deste jornal). Por alguma razão, os historiadores colocam Lincoln como o grande entre os grandes presidentes americanos. Trump terá avaliação bem mais modesta.

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