O português que há 400 anos escreveu em Nagasáqui a história do Japão

Nagasáqui é para o mundo o nome da segunda cidade a sofrer um bombardeamento atómico (9 de agosto de 1945, três dias depois de Hiroxima), mas para os portugueses é também até hoje um símbolo da relação com o Japão, uma relação pioneira ao nível dos europeus e que tem entre as suas grandes figuras São Francisco Xavier, pelo papel na evangelização, mas também Luís Fróis, que com a sua História do Japam, escrita no final do século XVI, se destacou como cronista do país. Fróis, um lisboeta, morreu em Nagasáqui com 65 anos.

"Luís Fróis (1532-1597) era natural de Lisboa, entrou na Companhia em 1548 e seguiu de imediato para a Ásia. Trabalhou na Índia e esteve em Malaca (1554-1557), revelando desde cedo os seus dotes para a escrita. Foi ordenado sacerdote em 1561, e no ano seguinte partiu definitivamente para a Ásia Oriental. Chegou ao Japão a 6 de julho de 1563, e dois anos depois foi destacado como superior da missão de Miyako (atual Quioto), onde permaneceu durante dez anos.

Foi um dos elementos fundamentais da missão cristã no Japão na implementação do método de acomodação cultural, tendo sido um dos interlocutores com a elite militar nipónica, designadamente Oda Nobunaga, o primeiro dos unificadores do Japão. Assim, é de Fróis a mais completa descrição que nos chegou do castelo de Azuchi, centro da Corte de Nobunaga, descrição esta inserida na sua monumental obra História do Japam. Dele são também muitas das cartas enviadas regularmente para a Índia e a Europa, algumas das quais publicadas pelos jesuítas em Portugal, assim como o extraordinário Tratado em que se contêm muito sucinta e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente de Europa e esta província de Japão (...), de cerca de 1585. Fróis faleceu em Nagasáqui, a 8 de julho de 1597", explica Alexandra Curvelo, professora na Universidade Nova de Lisboa e grande conhecedora da história das relações luso-nipónicas.

Acrescenta a académica, que foi com a também historiadora Ana Fernandes Pinto responsável pela exposição Uma História de Assombro. Portugal-Japão Séculos XVI-XX, que "os escritos de Fróis colocam-no não apenas como um dos maiores protagonistas da história da presença portuguesa no Japão enquanto missionário da Companhia de Jesus a trabalhar sob a égide do Padroado Português do Oriente, como revelam o seu interesse e fascínio pela cultura japonesa. A sua capacidade de observação e de comunicação são absolutamente notáveis e imprimem uma marca pessoal ao que escreveu. Nesse sentido, e ainda que partilhando com muitos dos missionários jesuítas, sobretudo os que foram escolhidos para a missão cristã da China e do Japão, uma formação e uma cultura de grande nível, destaca-se da maior parte deles".

Alexandra Curvelo enquadra ainda a ligação dessa Nagasáqui onde Fróis viveu a Portugal: "Sobre a fundação de Nagasáqui, permanecem por esclarecer questões, resultado de lacunas documentais, mas é possível seguir com alguma margem de segurança o desenrolar do processo que começa com a relação firmada entre Cosme de Torres e D. Bartolomeu de Omura. Data de cerca de 1567 a ideia de converter Nagasáqui no porto de destino das naus de Macau, quando o dáimio cristão Omura Sumitada escreveu a Cosme Torres para oferecer aquele local como centro para o comércio português e refúgio para os cristãos japoneses. Coube a Gaspar Vilela o começo da evangelização da terra em finais de 1568.

A povoação de pescadores começou então por estar integrada no feudo de Sumitada e em 1580 deu-se a cedência do governo do burgo à Companhia de Jesus, que o assegurou durante seis anos. De notar que continua em discussão a questão sobre a iniciativa da doação, sendo que nas fontes japonesas nunca ela é atribuída a Sumitada, surgindo antes como resultado da pressão dos jesuítas, eventualmente como garantia de um empréstimo concedido ao dáimio. Durante o período em que Nagasáqui foi governada pelos jesuítas assistiu-se a um desenvolvimento notável, tanto a nível populacional, com uma evolução na ordem dos 50% em apenas quatro anos (1579-1583), como de infraestruturas, associadas sobretudo à atividade missionária e à defesa deste entreposto através da construção de uma cerca e de baluartes. Foi também aqui que se instalaram os estaleiros de construção dos navios japoneses que se destinavam ao comércio com o exterior, e que embora fossem armados obedecendo à prática chinesa, seguiam as regras de pilotagem e de navegação portuguesas, levando muitas vezes a bordo pilotos lusos e utilizando os seus roteiros como guia. A imprensa foi aqui introduzida na década de 1590, após o regresso de uma embaixada enviada à Europa pelos jesuítas, com a utilização de duas máquinas impressoras, uma de caracteres latinos e outra de caracteres sino-nipónicos."

Depois da expulsão dos portugueses, no âmbito de uma perseguição ao cristianismo visto como ameaçador à unidade nacional pelos xóguns da família Tokugawa, o único contacto entre o Japão e o exterior foi a ilha de Dejima, em Nagasáqui, feitoria controlada pelos holandeses. Dois séculos depois, o Japão reabriu ao mundo e descobriu-se que o legado missionário português tinha sobrevivido graças aos cristãos-escondidos. E Nagasáqui voltou a ser a capital cristã do Japão, com a catedral de Urakami a ser construída ainda no século XIX.

Mas a bomba atómica lançada pelos Estados Unidos para forçar o Japão a render-se e pôr fim à Segunda Guerra Mundial explodiu a apenas 500 metros da nova catedral, num momento em que estava cheia para uma missa. O escritor Shusaku Endo, um cristão,,ficou tão revoltado com o trágico destino da comunidade cristã que publicou Silêncio, livro complexo sobre a fé e a dúvida que Martin Scorsese adaptou ao cinema há poucos anos. Em 1949, uma catedral ainda em ruínas foi palco de uma missa a assinalar os 400 anos da chegada de Xavier ao Japão. Sabe-se que foi depois de conhecer em Goa o futuro santo, recém-regressado do Japão, que Fróis começou a ver o mais remoto país da Ásia como destino, reforçando a decisão de aí evangelizar quando teve conhecimento da morte de Xavier.

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