Nossa Senhora das Perguntas

Num ano em que o mar é um espaço subitamente contestado, estando significativamente agravada a relação entre os EUA e a China, havendo uma declaração militar daquele Estado prevendo que dentro de 15 anos será a guerra que surgirá entre as duas potências, temos esperança de que o eleitorado americano faça alterar o panorama, conseguindo tornar a recuperar ponderação em quem governa, tendo presente que o desastre é global, se a batalha contra o ataque pelo covid-19 não for vencedora. Mas sendo evidente que o mar exibe uma mutação de ambições, e também de criminalidade inquietante, o interesse português é cuidar de conseguir ter à disposição decisores e meios de que possa dispor, sem esquecer a vontade marítima de sempre. Numa data em que o problema da relação europeia com as religiões desta vez tem como causa frequente a falta de recursos financeiros para manter os templos, uma situação, por exemplo, visível em França, acontece que entre nós se afirma um movimento no sentido de fortalecer o culto da Nossa Senhora da Nazaré, uma das mais antigas tradições marianas. Trata-se de a Nossa Senhora ter salvo o guerreiro D. Fuas Roupinho, no seu promontório da Nazaré, impedindo que o cavalo que montava se precipitasse no mar. A sua fé, a aparição de Nossa Senhora da Nazaré, e o milagre inspiram não esquecer o martírio que foi, numa data em que não era pacífico o trabalho ao longo da costa, tendo por causa os ataques frequentes, sendo basilar que não há futuro definível sem consciência do passado.

Embora seja difícil conhecer com rigor a sua biografia, não foi esquecido por Camões, e sabe-se da sua vitória naval contra uma esquadra sarracena em fins de 1180, e dois anos depois foi com a esquadra em busca dos mesmos inimigos, mas a violência da tempestade levou-a para as águas de Ceuta, onde sucumbiu em combate, e as guarnições ficaram prisioneiras. O poeta o que recorda é a glória "da primeira marítima vitória". A imagem que levou ao culto da lenda de Fuas Roupinho terá sido feita por S. José, em Nazareth, que hoje pertence a Israel, e depois de um longo trajeto encontrou morada no promontório da Nazaré, criando um culto dos mais antigos, não só em Portugal, mas nos países de língua portuguesa, com distinção para o Brasil, onde existem uns duzentos sítios e manifestações de fé e apoio ao movimento que lançou o projeto de candidatura a Património Imaterial da Humanidade a esta Rainha da Amazónia, título adotado pelo povo do Pará. Tiveram apoio e prestígio as cerimónias marcadas para o chamado Encontro das Comunidades no início deste ano. São referência valiosas apoios como o do general Ramalho Eanes e sua mulher Manuela, que escreveu, na excelente adesão, este final: "Como lembrou o Papa Bento XVI: "É preciso continuar a caminhar na esperança, ainda que, aparentemente, não tenham motivo para isso - porque a mais profunda causa da esperança é que a injustiça não tenha a última palavra sobre as relações humanas.""

Por seu lado, o atento Álvaro Laborinho Lúcio, num lúcido texto, acaba deste modo: "Nossa Senhora das Perguntas. As de todos e as minhas. As mesmas de todo o tempo. Aquelas que me levam, ainda hoje, a inclinar-me sempre que regresso à minha terra." A esse lugar onde mora a imagem primeira de Nossa Senhora da Nazaré. D. Manuel Clemente terminou o seu depoimento com estas palavras: "É património imaterial de nós todos, pela mensagem universal que transporta, no que temos de mais espontâneo e envolventes: a mãe e o seu menino, a alegria que nos reúne em seu redor, o horizonte celestial que se recebe, o mar que nos alarga e não submerge. É o melhor que temos para o futuro de todos." Este movimento enfrenta uma situação global em que o tempo de incertezas é o mais dominante, designadamente no domínio da procurada cooperação entre as religiões. Quando o Papa Francisco marca as exigências do encontro, o presidente Erdogan concretiza o sonho de transformar Santa Sofia numa mesquita, celebrando penosamente o 567.º aniversário da tomada de Constantinopla pelo sultão Mehmed, o conquistador; Donald Trump assume uma "guerra fria" com Pequim, ignorando a prudência europeia da senhora Merkel. O Reino Unido, além do Brexit, pretende tomar posição contra o que atormenta Hong Kong, apoiando a democracia de 350 000 habitantes da sua antiga colónia; na própria França, inquietam-se com as igrejas desertas, em grande parte pela agressão do covid-19, a tomar decisões dolorosas para os cristãos, um exemplo que vai alastrando, mas que a epidemia tenha um fim em tempo previsível não é possível. Por isso, o romancista Douglas Kennedy avisa que a "grande maioria de nós tem necessidade de uma segurança para avançar diariamente", mas "é a incerteza que define o horizonte imediato". Daqui a oportunidade do apelo a "Nossa Senhora das Perguntas" do povo crente.

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