A toxicidade e as serras

Mais tarde ou mais cedo, qualquer adepto de futebol, qualquer comentador de futebol, ou qualquer turista de passagem pelo mundo do futebol diz, ou pelo menos pensa, a mesma frase. A frase é "o futebol não é isto" - e normalmente é dita sobre algo que é futebol, e sempre foi futebol. Os "istos" que o futebol não é ocupam um espectro vasto, mas familiar, que vai do mais recente autocarro apedrejado ao guarda-redes que finge uma lesão até se esgotarem os minutos de desconto, passando pelo cliente do café a gritar calmamente um enredo de Le Carré para explicar um fora-de-jogo mal assinalado. O futebol não é aquilo, pensamos (ou dizemos). Antigamente era outra coisa, e é uma pena que já não seja.

No Verão de 1885, depois de o Aston Villa derrotar o Preston North End por 5-0, os adeptos da equipa derrotada invadiram o campo e atacaram o árbitro e os próprios jogadores com pedras, garrafas e bastões - um dos jogadores do Preston perdeu os sentidos e teve de ser levado para o hospital. Em 1895, o encontro entre o Sheffield Wednesday e o Stoke foi interrompido ao minuto 75, depois de o árbitro ser encharcado em lixo e lama arremessada pelos espectadores. Em 1889, na estação ferroviária de Middlewich, uma troca de insultos entre adeptos do Nantwich e do Crewe Alexandra transformou-se numa batalha campal com centenas de feridos. Em 1893, o Darwen enviou à Liga inglesa uma "exposição" na qual catalogava cinco erros graves de arbitragem que tinham prejudicado o clube no jogo contra o Wolverhampton (na verdade eram quatro erros; a quinta acusação era de que o árbitro tinha apitado a partida alcoolizado); a Liga classificou a queixa como infundada e exigiu que o clube pagasse uma multa; o Darwen retaliou publicando o documento num jornal local. Na viragem do século, era comum os clubes acusarem alguns árbitros de parcialidade ou favoritismo: o Stoke City criticou tantas vezes um determinado árbitro (um tal Sr. Stott, que é presumivelmente como se diz "xistra" em inglês), que a Liga acabou por reformá-lo antecipadamente para o proteger. Num artigo chamado "The Madness of Football", publicado na revista Contemporary Review em Novembro de 1898, um colunista criticava o crescente comercialismo do jogo e culpava o sensacionalismo da imprensa desportiva pelo ambiente cada vez mais tóxico nas partidas de futebol. Em 1909, seis mil adeptos do Celtic e do Rangers exigiram um prolongamento depois de um jogo em Hampden Park terminar empatado: o árbitro recusou (e teve de fugir), as bancadas foram destruídas, 54 polícias foram agredidos e dois quarteirões da cidade parcialmente arrasados. Tal como no jogo jogado, os ingleses podem ter sido pioneiros, mas depressa foram ultrapassados pelos pupilos continentais. Nos anos 20, no sul de Itália, um árbitro foi assassinado em pleno campo. Em 1946, na Suécia, centenas de adeptos do Malmo prepararam uma emboscada ao autocarro da equipa rival e bombardearam-no com pedras. Em 1967, um motim depois de um dérbi local na Turquia arrastou-se por vários dias; 42 pessoas morreram esfaqueadas ou alvejadas a tiro.

Perceber que a proximidade à violência é uma característica central do jogo desde as suas origens não é uma declaração de fatalismo impotente (análoga a postular um inerradicável "pecado original"), mas pode ajudar a rejeitar a sedução facilitista da separação das águas - que é quase sempre selectiva. A maioria dos exemplos foram recolhidos em dois clássicos semiesquecidos da sociologia inflesa - Hooligan: A History of Respectable Fears, de Geoffrey Pearson; e Football and the Decline of Britain, de James Walvin. Ambos foram publicados nos anos 80, em resposta a uma das cíclicas "crises" existenciais do desporto, e ambos partilham a mesma abordagem, se não a mesma tese: são menos esforços para provar ou invalidar uma narrativa de declínio, e mais tentativas de demonstrar o apelo universal dessas narrativas - a nostalgia auto-impulsionada por uma "Era de Ouro", situada 20 ou 30 ou mais anos num passado milagrosamente livre de todos os problemas do presente, antes da degeneração de um ideal. Em ambos os casos, os capítulos mais interessantes são sobre a relação simbiótica entre os fenómenos que descrevem e os meios de comunicação que os enquadram e amplificam, desde os proto-tablóides vitorianos aos canais de televisão. Diferindo nos métodos e conclusões, ambos permitem chegar a um curioso meio-termo sobre a função da imprensa: entre criar um problema que não existe ou reflectir meramente um problema real, o que costuma acontecer com frequência é que tornam um problema sempre, constantemente, visível. E o que está sempre visível, ou se torna familiar ou se torna intolerável: o sítio onde o meio-termo vai morrer.

Dois canais noticiosos anunciaram nesta semana o fim dos programas de comentário futebolístico com painéis afectos aos três grandes. O Dia Seguinte (SIC-N), na sua penúltima edição em 17 anos, deu espaço aos comentadores para se comentarem a si próprios, num segmento em que o moderador explicou que a decisão editorial foi tomada "em virtude do ambiente crispado, que se vive e se tem vindo a agravar" - parafraseando o tom da direcção de informação, que falara no "ambiente de toxicidade", e afirmara que, depois do interregno pandémico, o futebol "voltou ainda pior".

É a retórica identificada por Pearson e Walvin: o tempora! O mores! Onde vais, jogo bonito? A noção é demasiado antiga, universal e apelativa para tentar sequer refutá-la, e mesmo que o desejo de "acabar com a bandalheira" seja a raiz de todos os populismos, nem todas as bandalheiras são imaginárias ou precisam de ver a sua existência justificada. O que sobra é a peculiar confusão de causalidade presente em qualquer conversa sobre aquilo que acontece na televisão: é causa ou consequência, incentivo ou espelho? Por mais desagradáveis que esses programas fossem, é duvidoso que tenham criado ou agravado qualquer toxicidade (quando muito, podem ter influenciado estilos de fricção no público). Aliás, parte da mistura de fascínio e repulsa que os programas exerceram e exercem - ninguém "gosta" deles, mesmo que os vejam regularmente - talvez resida no rigor com que reflectem as disposições caóticas (e tóxicas) com que a maioria dos adeptos se relacionam com o jogo. Parte do tempo, "gostar" de um clube é aceder aos cocktails de testosterona diluída herdados dos recreios de liceu. Na sua preocupação transcendente com heráldica e simbologia, na ideia de que o grupo arbitrário a que decidimos pertencer possui atributos especiais e superiores a todos os outros grupos arbitrários, na crença de que tudo o que falhou em proporcionar-nos aquilo que queríamos é o resultado de uma profunda injustiça ou uma vil conspiração, no valor desproporcional que se dá ao medo do ridículo e ao prazer de ridicularizar, ser adepto de futebol é uma maneira de ter 12 anos para sempre, num espaço controlado.

Claro que isto é apenas parte da história, mas é uma parte da história, e tentar excluí-la para o reino das coisas que "não são" futebol é ao mesmo tempo falsificar um conjunto de emoções complexas e distribuir a culpa para os sítios mais convenientes. Quando aquilo que procuramos é explicações para algo de que, lá no fundo, nos envergonhamos, uma utopia pastoral de debates sobre "espaços entre linhas" e "fases de construção" é o último sítio onde queremos estar. Muito mais útil, por mais embaraçoso que seja em retrospectiva, é o reino febril de superstição e pensamento mágico onde as derrotas são sempre fruto de "cabalas" e "interesses", e as vitórias fruto de "união", "murros na mesa" e "vozes fortes no balneário".

A televisão não tem, evidentemente, qualquer obrigação de reflectir todo o espectro da irracionalidade; pelo contrário, o passado recente prova que é bom que não o faça. Mas a toxicidade não nasce por geração espontânea e não é o mero fim dos comentadores residentes que vai alterar hábitos enraizados de ver e enquadrar o futebol, tanto nos adeptos, como nos próprios media. A final da Taça de Portugal vai ser jogada hoje. Após a final do ano passado, o telejornal da RTP1 começou não com um resumo do jogo nem com imagens dos festejos, mas com um segmento de vários minutos sobre o treinador da equipa derrotada ter recusado apertar a mão ao presidente da equipa vencedora. A recusa do aperto de mão foi repetida em câmara lenta, de ângulos diferentes. Os golos que decidiram a final não foram.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias