Livro de Stiglitz sobre a crise ataca austeridade

O prémio Nobel da Economia 2001, Joseph E. Stiglitz, considera que, face à crise económica e financeira, são necessárias reformas políticas que defendam as democracias e que a austeridade é um "mito" que nada resolve.

No livro "O Preço da Desigualdade" (2012-2013), cuja tradução portuguesa vai ser lançada esta semana, Stiglitz refere-se ao "falhanço" dos mercados, critica a falta de regulação e, além das questões da globalização e dos reflexos da economia norte-americana no mundo, debruça-se também sobre a crise que afeta os países do continente europeu sujeitos a "erradas" medidas de austeridade.

"Os piores mitos são os de que a austeridade recuperará a economia, e de que uma maior despesa do Estado só faria o contrário", escreve Stiglitz (página 315) no livro "O Preço da Desigualdade".

De acordo com o prémio Nobel da Economia 2001, a defesa da austeridade está assente na perspetiva dos empresários que, "reparando" que as contas do Estado estão de melhor saúde, ficam mais confiantes e que mais confiança conduz a mais investimento.

"É interessante que, com base neste argumento, os defensores destes mitos devam apoiar a nossa primeira estratégia de recuperação económica: mais investimento público. Uma vez que existem oportunidades de investimento público unanimemente considerados de alto retorno - muito mais alto do que os juros que o Estado tem de pagar pelos empréstimos -, mais investimento público conduzirá a uma menor dívida nacional de longo prazo; e esta convicção, por sua vez, devia gerar confiança, provocando uma explosão ainda mais forte da atividade económica. Porém, os defensores da austeridade não apoiam mais investimento público", afirma o economista norte-americano.

Segundo Stiglitz, a austeridade do Fundo Monetário Internacional (FMI) transformou as crises económicas da Ásia Oriental e da América Latina em recessões e depressões, e a "autoimposta e forçada austeridade" em vários países europeus (Reino Unido, Lituânia, Grécia, Portugal) está "exatamente" a produzir os mesmos efeitos.

"Tal como os médicos da Idade Média que acreditavam na sangria, e que quando o doente não melhorava argumentavam que o que ele realmente precisava era de mais uma rodada, os sangradores da economia do século XXI nem sequer hesitam. Exigirão ainda mais austeridade, e encontrarão uma miríade de desculpas para justificar os motivos por que a primeira dose não funcionou como estava previsto. Entretanto, o desemprego aumentará, os salários baixarão e os programas governamentais, de que as classes médias e baixas dependiam, definharão", diz Stiglitz sobre as medidas de austeridade.

No livro "O Preço da Desigualdade", Joseph E. Stiglitz escreve que a seguir à Segunda Guerra Mundial, o FMI passou a ser o instrumento eleitoral e que os países entregavam, na realidade, a "soberania" a uma agência que representava os credores internacionais.

"Uma coisa, são estes acontecimentos terem lugar em países pobres em vias de desenvolvimento; outra é ocorrerem em economias industrializadas avançadas. É isso o que tem acontecido ultimamente na Europa, uma vez que primeiro a Grécia, depois Portugal e Itália, entre outros, permitiram que o FMI, a par do Banco Central Europeu e a Comissão Europeia (todos não eleitos), ditassem os parâmetros políticos e designassem governos tecnocratas para implementarem o programa", sustenta.

Stiglitz, referindo-se ao desempenho dos mercados e das instituições que defendem a austeridade escreve que se um país não faz o que os mercados financeiros desejam estes ameaçam baixar-lhes os ratings e não efetuar os pagamentos.

"Os mercados financeiros conseguem o que querem. Podem existir eleições livres, porém, do modo como são apresentadas aos eleitores, não existe uma verdadeira escolha nas questões que realmente lhes interessam, as questões da economia", escreve.

"Diminuir o campo de ação das nossas democracias é exatamente o que as elites do topo desejavam: podemos ter ainda uma democracia de 'um voto, uma pessoa', mas passámos a viver numa democracia que na prática está mais em consonância com o sistema 'um dólar, um voto'" (página 218), alerta o prémio Nobel quando se refere à falta de soluções políticas para a crise.

Stiglitz afirma (página 159) que a "crescente" desigualdade não só coloca as democracias em perigo e que a regulação é a regra do jogo criada para fazer o sistema funcionar melhor -- "para garantir a competitividade, prevenir abusos e proteger os indefesos" apesar dos "opositores à regulação queixarem-se sempre de que esta é má para os negócios".

"O Preço da Desigualdade" (495 páginas -- Bertrand Editora) de Joseph E. Stiglitz é lançado na sexta-feira, dia 13.

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